Filosofia, uma dentada de cada vez (53)

Porque é que eu sou eu?

Porque é que eu sou eu?

Porque é que eu sou eu? Ainda me lembro de fazer esta pergunta a mim mesmo quando era criança. Mal sabia que esta é uma pergunta filosófica, uma questão relacionada com a individualidade.

Pela parte material, a questão da individualidade é relativamente fácil de se responder. Deixem-nos assumir que temos duas pranchas de madeira, idênticas, à nossa frente. O que é que faz com que uma prancha seja diferente da outra? Obviamente que não é o facto de serem pranchas e de cada uma ter a mesma forma (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 28). A forma faz com que sejam semelhantes, em vez de diferentes e individuais.

As duas pranchas são diferentes uma da outra porque cada uma é um pedaço individual de matéria. Sendo assim, podemos dizer que a matéria é o princípio ou fonte da individualidade; a matéria faz estas pranchas diferentes uma da outra. Isto também se aplica aos seres vivos não-racionais (exemplo: gatos, cães, etc.): o princípio da sua individualidade é também a sua matéria.

No entanto, quando falamos de seres humanos parece (para além da matéria) que existe um outro factor que te faz diferente de mim ou de qualquer outra pessoa. Mais ainda: temos consciência desta diferença, estamos conscientes da nossa individualidade. De facto, como disse São João Paulo II, cada um de nós é «singular, único, irrepetível».

“A minha natureza humana é a mesma que a vossa” – escreveu D. José de Torre, no seu ensaio “Ser é Pessoa” – “mas a minha personalidade, a minha individualidade é única, intransferível e irrepetível. Esta descoberta da metafísica foi dramaticamente confirmada pela genética moderna. A estrutura do DNA é a mesma para todos – helicoides duplos. No entanto, a composição do DNA de cada pessoa é única e irrepetível”.

Cada um de nós está ciente que ele, ou ela, não é outra pessoa. Esta consciência emana do nosso intelecto. Para além disso, cada um de nós faz escolhas que nos moldam e definem. Tal resulta da nossa vontade. Tanto o intelecto como a vontade são poderes da nossa alma imaterial e espiritual.

Assim, cada ser humano é individual, não apenas porque tem um corpo (matéria), mas também por causa da sua alma. A alma é um princípio adicional da individualidade dos seres humanos. A alma contribui para fazer cada pessoa “singular, única, irrepetível”. De facto, a fé confirma esta verdade e junta uma informação importante: cada alma é criada individualmente por Deus. Assim reza o Salmo “Tu modelas-te as entranhas do meu ser e formaste-me no seio de minha mãe” (Salmo 139:13).

Esta realidade leva-nos a um outro conceito: o conceito de “pessoa”. O termo português para “pessoa” vem do Latim “persona”, que por sua vez foi adaptado do termo grego “prosopon”, que se refere às máscaras usadas em palco pelos actores (do teatro grego). Cada máscara representava um personagem. De forma simples, cada “pessoa” é um personagem (actor) num palco.

A Lei Romana adoptou o termo para definir qualquer pessoa que estivesse consciente do que estava a fazer e que era responsável por esses actos (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, nº 48), e assim poderia ser responsabilizado e culpabilizado por qualquer delito cometido.

Foi a Teologia Católica que mais enriqueceu o termo “pessoa” quando os teólogos tentaram encontrar uma explicação adequada para os mistérios centrais da fé, nomeadamente, a Santíssima Trindade e a união de duas naturezas (humana e divina) na única Pessoa de Cristo.

Este conhecimento mais profundo do termo “pessoa” levou “à eventual abolição da escravatura e das desigualdades sociais e políticas”, explica José de Torre no ensaio citado anteriormente. “As aclamadas conquistas modernas – democracia, direitos humanos, auto determinação, liberdade e criatividade – na realidade foram conseguidas pelos teólogos cristãos da idade média” refere ainda.

Foi deste modo que o padre Francisco de Vitória OP (1483-1546), considerado o pai da Lei Internacional, conseguiu defender os direitos dos índios americanos durante os tempos das conquistas espanholas.

Pe. José Mario Mandía

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