Filosofia, uma dentada de cada vez (49)

Que factores podem limitar a liberdade?

Que factores podem limitar a liberdade?

A liberdade “baseia-se na razão e na vontade” (Catecismo da Igreja Católica, 1731). No Ser Humano (ao contrário dos Anjos) estas duas capacidades não trabalham a sós – elas são condicionadas por outros factores. Deixem-nos falar desses factores.

Ignorância ou erro. Ignorância não é o mesmo que erro. A ignorância é a falta de conhecimento e a falta de informação. O erro, por outro lado, é causado por falta de julgamento. A ignorância é, em princípio, quando não se sabe se alguma coisa é encarnada ou azul; erro é quando, incorrectamente ou por engano, pensamos que algo é azul, quando de facto é encarnado. Tanto a ignorância como o erro são defeitos do intelecto. Defeitos no intelecto causam defeitos (falhas) na liberdade. Estou certo que todos nós nos lembramos de ter tomado decisões erradas, devido à ignorância ou a erros de julgamento, que lamentámos ter feito.

Ignorância ou erro + uma vontade forte. Imaginemos um carro com um motor potente, conduzido a toda a velocidade às escuras, sem luzes. Este é o caso de uma pessoa com falta de conhecimentos ou um julgamento erróneo, mas com uma forte vontade (determinação). Uma mistura letal!

Memórias (ou lembranças) ou imaginação. Já vimos antes que o nosso intelecto necessita de lembranças e de imaginação para adquirir conhecimento, mas por vezes a sua actividade pode “superar (ultrapassar)” o intelecto. Quantas vezes o Homem deixa as suas memórias boas ou más, ou a sua imaginação, obscurecer o intelecto, ficando impedido de poder fazer uma avaliação objectiva de um problema existente, chegando a uma solução razoável. As memórias são importantes para se tomar decisões prudentes, mas o intelecto tem que sopesar o seu real valor. Não há mal em sonhar, mas a imaginação deve ser guiada pela razão.

Emoções ou sentimentos. As emoções são as nossas reacções animais aos estímulos originados pelos sentidos internos (especialmente a memória, a imaginação e os instintos). Às emoções fortes normalmente seguem-se memórias ou imaginação vívidas (intensas). Antes do pecado original os nossos primeiros pais tinham os sentidos e emoções perfeitamente controladas. A sua decisão de “ser como Deus” (Gen., 3:5) alterou tudo. Em vez disso, tornaram-se mais parecidos com animais, devido ao facto dos seus intelectos e vontades terem perdido o controlo dos sentidos e emoções.

Uma vontade fraca. O pecado original enfraqueceu a vontade dos nossos primeiros pais e de todos os seus descendentes. Todos nós experimentamos essa fraqueza na vida quotidiana. Acontece muitas vezes, mesmo quando sabemos o que fazer (exemplos: sair da cama, começar uma pequena tarefa, concentrarmo-nos no nosso trabalho), não sermos capazes de o fazer, não por causa de falta de conhecimentos, mas por falta de vontade.

Imaginação activa + Emoções intensas + Vontade fraca. Esta é uma combinação perigosa. Uma vontade fraca controlada por uma imaginação fértil e paixões fortes impedirão o Homem de desenvolver uma personalidade balanceada. Uma pessoa assim será derrotada e sossobrará na vida quotidiana. Será uma vítima das circunstâncias. Não será capaz de controlar o seu próprio futuro. Não será capaz de realizar nada de valor. E ainda por cima, se essa pessoa tiver também falta de conhecimentos ou fraco julgamento, não será mesmo capaz de saber porque é que as coisas lhe acontecem ou como melhorar a vida.

A vida do Homem na terra é uma luta constante, “uma batalha”. E isto não são apenas valores religiosos. Isto também são valores humanos. É uma luta constante para a mente de cada um. É uma luta constante treinar (não suprimir) a memória, a imaginação, sentimentos e emoções, para seguirmos as linhas mestras do intelecto e as ordens da vontade. É uma luta constante para libertar-se e ser totalmente humano. Um sinal de que uma pessoa é livre é poder forçar-se a fazer algo que sabe que é bom, mesmo que não goste do que vai fazer.

Para se ser totalmente humano, há um modelo que podemos seguir: Jesus Cristo.

Pe. José Mario Mandía

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *