Domingo de Ramos em Larantuca

DOMINGO DE RAMOS EM LARANTUCA

Minggu Ramu e a Confraria do Rosário

Em Larantuca, no extremo leste da Ilha das Flores, Indonésia, a tradição pascal remonta ao século XVII, aquando da chegada de dezenas de famílias católicas, portuguesas e mestiças, refugiadas de Macassar, nas ilhas Celebes, na sequência da ocupação holandesa, em 1660. Mas antes das Celebes, a tão celebrada Malaca portuguesa, anterior a 1641, fora chão pátrio de muita dessa gente que dali trouxera tradições, ícones e a devoção a Nossa Senhora do Rosário, um culto que subsiste hoje com uma intensidade igual à de outros tempos. Orientada pelo dominicano frei Lucas da Cruz – que conseguiu reunir os valiosos objectos de culto resgatados da igreja de São Domingos de Surian, em Macassar – essa leva de refugiados veio reforçar a comunidade católica já existente em Larantuca. Uma comunidade resultante de todo o processo de evangelização iniciado em 1566, após a construção de uma fortaleza na ilha de Solor levada a cabo por dominicanos sob a direcção de frei António da Cruz e financiamento proporcionado pelos donativos recolhidos em Macau. Essa fortaleza destinava-se a defender a missão que aqui foi estabelecida das investidas de muçulmanos provenientes de Java e das Celebes, também eles empenhados na conversão ao Islão das populações autóctones, as quais eram, na época, animistas.

Dez anos depois, nas Pequenas Sundas, o número de católicos rondava já os cinquenta mil e, em 1596, o seminário de Larantuca, outra iniciativa de frei António da Cruz, registava cinquenta alunos.

Muito provavelmente foram os refugiados de Macassar que edificaram a igreja de São Domingos e deram início ao culto de Nossa Senhora do Rosário e às celebrações do período pascal em Larantuca. Alguns deles viriam posteriormente a povoar Konga, mais a sul, e Vure, mesmo em frente, na ilha de Adonara.

A propósito da “História da Expansão Portuguesa”, o historiador Charles Boxer menciona, num dos seus trabalhos, uma carta do governador da Companhia das Índias Orientais que, de Batávia, escrevia o seguinte aos seus superiores na Holanda: “Passaram-se 100 anos desde que expulsámos os portugueses. Se pensam que acabámos com eles pela força de navios e de armas, destruindo sistematicamente os seus fortes, igrejas e monumentos, perseguindo a fé católica que trouxeram, estão muito enganados, porque eles continuam presentes em todo o lado através da língua e da cultura que aqui espalharam. Devemos mudar o nosso sistema. Nós viemos para ganhar dinheiro e partir o mais depressa possível, eles vinham para ganhar dinheiro mas também para ficar e a certa altura já não pertenciam mais à Europa, eram parte destas terras”.

De facto, contra o que possa parecer, face ao vasto mosaico religioso-cultural do arquipélago, o certo é que a influência portuguesa na Indonésia é imensa, sobretudo se considerarmos que a nossa presença na região se limitou a cerca de cento e cinquenta anos. Seguiu-se um período dominado pelos holandeses, que procuraram destruir todos os vestígios da nossa influência. Felizmente não lograram apagar tudo.

Numa das minhas deslocações a Larantuca, no âmbito de uma investigação aprofundada acerca da visibilidade do nosso património, seja ele tangível ou intangível, naquelas paragens, tentei acompanhar de perto as diversas cerimónias da Semana Santa que têm início no Domingo de Ramos, “Minggu Ramu” ou “Minggu Palma” no dialecto local. De manhã bem cedo, uma procissão que parecia não ter fim deu a volta ao “Postoh” (Posto) – assim se designa o centro da cidade – sob a supervisão do chefe da polícia e de agentes nos seus uniformes, encarregados de controlar o trânsito que, àquela hora, era praticamente nulo. Chegariam depois as motoretas, os grupos de “ojekers” (moto táxis) e ruídos afins.

A catedral do “Postoh”, onde estavam representadas as diferentes comunidades da cidade, era pequena para tanta gente. Destacavam-se os membros da confraria local, a “Confreria Reinha Rozari”, num dos lados da nave principal, ostentando a respectiva bandeira. Esta confraria, muito provavelmente instituída por frei Lucas da Cruz, tem como objectivo guardar e defender a fé e está organizada em termos idênticos às suas congéneres de Portugal. Mantém desde o século XVII esta designação e os postos de “prokurador”, “tjamador”, “secretario” e “tesoreiro”. E foi este último que, nessa mesma tarde e com repetidas vénias, me abriu as portas da “Kapela” Maria, ou “Tuan Ma”, onde a confraria tem o seu secretariado. O pequeno templo, mesmo em frente da praia onde foi encontrada a estátua mencionada na lenda local, fora recentemente renovado. É agora maior e com um estilo mais rebuscado. O tesoureiro preferia a capelinha antiga, pois era «mais autêntica». Quanto às relíquias, infelizmente não está autorizado a mostrá-las antes de sexta-feira, “sesta vera” como via escrito. Informou-me que estavam sob a custódia da irmandade e consistem em objectos em ouro, prata, marfim e madeira, aparentemente de origem goesa pelo seu estilo indo-português. Será porventura o núcleo mais numeroso e antigo de peças religiosas que se encontra entre Goa e Macau.

JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO

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