Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XLXII

O Quietismo

O Quietismo

O século XVII é um século de espiritualidade. Religioso, místico. Mas é também de inquietação religiosa, doutrinal. Ou de quietação, por outro lado… de Quietismo: apesar da etimologia do termo, o movimento, ou tendência, que dá por este nome, provocou inquietação, discussão, tensão… O Quietismo foi um movimento místico que adveio no Sul da Europa – em particular em Espanha, também na França e na Itália, mas não só… – no século XVII, no seio da Igreja Católica, em plena aplicação e vivência da reforma católica tridentina. Na sua origem está Miguel de Molinos (1628-1696), um sacerdote e místico espanhol, que não se deve confundir com o jesuíta espanhol Luís de Molina (1535-1600), o “fundador” do Molinismo. O padre Miguel de Molinos – alguns chamam à sua “doutrina” Molinosismo – foi o autor do Guia Espiritual, uma obra publicada em 1675 e que causou brado na Igreja. Em síntese, Miguel Molinos desenhou um itinerário espiritual pelo qual se desembaraça a alma conduzindo-a por um caminho interior para alcançar a perfeita contemplação e a paz interior. Mas como, então?

O Quietismo (do Latim “quies”, “quietus”, “inactivo”, “em repouso”), no seu sentido mais amplo, é uma doutrina que afirma que a mais elevada perfeição do indivíduo consiste numa espécie de auto-aniquilação psíquica e uma subsequente absorção da alma na Essência Divina, ainda em plena vida. Neste estado de “quietude” a mente fica completamente inactiva, já não pensa nem deseja autonomamente, permanecendo, porém, passiva enquanto Deus opera, intervém nela. Em termos gerais, o Quietismo é uma espécie de misticismo, que muitos consideram falso ou exagerado, o qual, sob a aparência da mais elevada espiritualidade, encerra em si noções erróneas que se forem seguidas, de forma consistente e paulatina, tornar-se-ão fatais para a moralidade.

Trata-se de uma corrente que se suporta em boa medida no Panteísmo (concepção do mundo ou doutrina filosófica em que o universo, a natureza e a deidade, a que chamam Deus, são equivalentes) e de teorias congéneres, envolvendo ainda noções peculiares em relação com a cooperação divina nos actos humanos. Em sentido mais restrito, o Quietismo designa o elemento místico presente nos ensinamentos de várias seitas ou tendências que brotaram no seio da Igreja, tornando-se algumas heréticas. Em algumas, o Quietismo foi um erro conspícuo, ou seja, facilmente detectável; noutras, tornou-se um corolário de doutrinas erróneas sobre temas fundamentais, uma deriva espiritual “perigosa”, dir-se-ia…

 

A doutrina quietista

O Quietismo de Molinos, seguido por Petrucci, ganhou adeptos, logo no século XVII. A partir dos seus ensinamentos desenvolveu-se uma forma menos radical conhecida como semi-quietismo, pugnada por François Fénelon (1651-1715, teólogo francês, liberal) e Madame Guyon (Jeanne-Marie Bouvier de la Motte-Guyon, 1648-1717), famosos quietistas em França. Variedades de Quietismo que seriam todas proscritas pela Igreja, pois acabavam sempre por defender que a alma deve fazer silêncio, deve praticar a quietude e a passividade espiritual para chegar a Deus. A quietude e passividade, enquanto condição essencial para a perfeição, apesar de cristãs, tomaram uma configuração nos seguidores de Molinos que seria a sua condenação, apesar de terem sensibilizado muitas figuras de topo da espiritualidade católica. A rainha Cristina da Suécia é a mais conhecida e assumida das suas simpatizantes, mas muitos vêem na obra de São Francisco de Sales também traços de Quietismo.

O Quietismo enaltecia as virtudes da vida contemplativa, neste século XVII de espiritualidade, de mística, de redimensionamento das ordens monásticas, de reclusão ou clausura rigorosas. Mas a passividade absoluta, em maior ou menor ênfase segundo a tendência quietista, foram radicalizadas por esta doutrina. O estado de perfeição só se podia alcançar através da abolição da vontade, pois é mais provável que Deus fale à alma individualmente quando esta se encontra num estado de absoluta quietude, sem exercitar ou usar qualquer uma das suas faculdades, tendo como única função aceitar de um modo passivo o que Deus esteja disposto a conceder.

A Inquisição prendeu Molinos em 1685, dez anos depois de publicar o seu Guia Espiritual: Inocêncio XI (Papa, 1676-1789) condenou-o a reclusão perpétua, proibindo ao mesmo tempo a sua obra. Fénelon, então arcebispo de Cambrai, seria condenado ao exílio por Inocêncio XII (Papa, 1691-1700).

Qual o grau de influência do Quietismo e o seu impacto na época? Para se entender melhor os autores místicos e em geral a literatura mística cristã, numa visão em contexto, é importante compreender o conceito e termo quietismo. Para Ferrater Mora, filósofo espanhol, no Diccionário de Filosofía, “O quietismo é uma doutrina teológica e por sua vez uma posição metafísica, entendida, esta última, como disciplina de salvação mais do que como caminho de conhecimento”. Muitos autores apontam também uma genealogia desta tendência, que remontaria a Buda, passando pela escola de Alexandria e depois pelos Gnósticos, até aos Begardos (pregadores errantes no século XIII, aparentados aos Irmãos do Livre Espírito) e aos Fraticelli na Idade Média, para além dos místicos alemães dos séculos XIV e XV. Um autor importante na genealogia quietista foi também Pseudo-Dionísio Areopagita (século VI).

Sendo o Quietismo uma doutrina e atitude espiritual que põe a perfeição na passividade ou quietude da alma, na supressão do esforço humano, de forma que a acção da graça divina possa actuar totalmente, do ponto de vista religioso e cristão é um sistema filosófico e metafísico baseado que à partida não apresenta problemas teológicos, pois enfatiza a contemplação, embora atribuindo a esta uma superioridade sobre todos os actos morais e religiosos, concedendo ao indivíduo uma única possibilidade de visão estática e directa do ser divino. É precisamente nessa linha que se situa o Quietismo de Molinos.

As análises que se fazem da contemplação no seu Guia Espiritual e nas suas Cartas (a um cavaleiro espanhol para o incentivar a praticar a oração mental) não impelem para nada mais do que provocar a quietude do espírito através da contemplação. Molinos distingue assim entre a contemplação imperfeita, activa e adquirida, e a contemplação infusa e passiva. Entre um silêncio de palavras, um silêncio de desejos e um silêncio de pensamentos, o mais importante e superior entre todos os silêncios é o de pensamentos, segundo Molinos, pois considera-o o único que conduz ao recolhimento interior. Molinos considera que a perfeição da alma não consiste em pensar muito em Deus, nem em falar dele, mas sim em amá­lo muito. Só então a alma atinge a suma felicidade.

“Aniquilada a alma e com perfeita nudez renovada, experimenta uma profunda paz e uma saborosa quietude, que a conduzem a uma perpétua união de amor que em tudo se alegra. Essa alma chegou a tal felicidade que não quer nem deseja outra coisa senão o que seu amado deseja”. Querer agir é ofender a Deus, que tudo deseja fazer no homem. A inactividade devolve a alma ao seu princípio, o ser divino, no qual se transformou. Deus, a única realidade, vive e reina nele. Assim era a salvação e via da perfeição do Quietismo.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *