Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XLIII

Os Anabaptistas

Os Anabaptistas

A Reforma Protestante iniciada no século XVI na Europa teve como principais expoentes, sem dúvida, Martinho Lutero e João Calvino. Entretanto, a Reforma Protestante representou um processo social e histórico muito mais profundo que apenas uma revisão teológica das doutrinas cristãs. Figuras históricas menos conhecidas como a de Thomas Müntzer permitem perceber outros aspectos da Reforma, ligados às transformações sociais e políticas do mundo feudal que ainda vigorava no início da Idade Moderna. Os Anabaptistas são um movimento religioso e social que gravitou em torno de Müntzer, mas com características mais violentas e radicais que outras reformas.

Do Grego “ana”, “de novo” (ou “re”), e “baptizo”, “baptismo”, o termo Anabaptista significa “rebaptizado”, ou “baptizado de novo”. Apareceu pela primeira vez em 1521, em Zwickau, na Saxónia, Alemanha. Perdura até aos dias de hoje, embora de forma moderada.

O termo foi aplicado às denominações cristãs que praticam o rebaptismo, mas em termos históricos gerais restringe-se àqueles que, negando a validade do baptismo infantil, adquiriram maior projecção no movimento reformador do século XVI, designado de Anabaptistas. Estes repudiaram o nome, pois consideravam que a discussão não se centrava na possibilidade ou não do rebaptismo, mas em torno da validade do primeiro baptismo.

Os princípios dos Anabaptistas assentavam na recuperação das bases do Cristianismo primitivo. Como? Na recusa de juramentos e da pena capital, além da abstenção de exercício de magistérios. Talvez de forma mais consistente que as outras reformas coevas, os Anabaptistas sustentavam a supremacia absoluta e a competência única das Escrituras canónicas como norma de fé. A inspiração individual e os sentimentos religiosos tinham um papel importante entre eles. Refutavam de todo o baptismo de crianças e a doutrina luterana de justificação apenas pela fé, pois careciam de fundamento nas Sagradas Escrituras. O novo Reino de Deus, que achavam ter encontrado, consistia na reconstrução, em bases diferentes, tanto da sociedade civil como da eclesiástica. O sentido de comunidade era o principio fundamental do novo Estado, da nova sociedade enfim.

 

Origem e história

Os Anabaptistas perseguem a resposta a uma pergunta antiga na história da Igreja: a da validez do baptismo. Nos séculos III e IV surgiu como controvérsia, referindo-se então como o ministério do sacramento, negando-se a validade do baptismo por hereges. O baptismo de crianças será o pomo da segunda controvérsia mais tarde, pouco depois do ano Mil. Muitos grupos negam o baptismo infantil, como os Valdenses e os Cátaros, com pontos de vistas parecidos aos dos Anabaptistas, mais tarde. Mas a conexão entre estes grupos originais e suas controvérsias e este movimento do século XVI é difícil de apontar. Pode-se dizer sim que os princípios de Lutero e os seus exemplos foram mais influentes junto dos Anabaptistas. Já as interpretações privadas das Escrituras e dos ensinamentos do Espírito Santo pertenciam desde sempre a cada indivíduo, embora tenham sido extremadas grupalmente pelos Anabaptistas. Estes redimensionaram muitas vezes lógicas privadas, intimistas, em princípios de grupo, que eram levados a pontos de vista extremos.

Numa análise histórica, podemos apontar a Saxónia e a Turíngia, entre 1521 e 1525, como regiões e período de formação do movimento. Nomes como Nicklaus Storch (morto em 1525), tecelão, e Thomas Müntzer (1490-1525), pregador luterano, são as figuras do arranque do movimento. A par dos demais auto-proclamados “Profetas de Zwickau”, são os primeiros reformados a criticar o baptismo infantil. A sua defesa da igualdade absoluta entre todos os homens e a completa comunidade de bens, juntamente com as críticas teológicas, criaram-lhes conflitos com as autoridades civis de Zwickau, gerando tumultos e distúrbios. Antes das represálias, Storch e seus sequazes foram a Wittenberg, onde estava refugiado Lutero, fugido de Wartburg. Lutero, contudo, pregou contra o grupo de Storch, obrigando estes a abandonar a cidade. Até á sua morte em Munique, Storch percorreria a Alemanha a pregar as suas doutrinas, em especial na Turíngia (1522-24). Aqui foi mesmo um dos maiores instigadores das “Guerras dos Camponeses”, tumultos de cariz religioso e social que assolaram a região.

Thomas Müntzer esteve também extremamente activo. Refutou também o baptismo infantil, em teoria, pois na prática manteve-o. Foi expulso de Zwickau em 1521 e daqui partiu para a Boémia (República Checa), onde não teve grande êxito na sua pregação. Em 1522 estava de novo na Saxónia, em Alstedt, como pregador, ali se casando com uma monja. O êxito foi maior naquelas paragens, com os seguidores a aumentarem, introduzindo um serviço religioso em Alemão, ao mesmo tempo que atacava Lutero e a ordem por este estabelecida. Na Reforma Luterana, as cisões eram já imensas, ainda mal tinha despontado. No Sul da Alemanha, tradicionalmente fiel a Roma, conheceu grandes sucessos, onde Heinrich Pfeifer, um monge apóstata, lhe tinha preparado o terreno. Aqui o seu projecto reformista passa de religioso a social, civil, com muitos camponeses e gente das cidades e vilas se lhes juntavam, a ele e Pfeifer, que se tornaram senhores da revolução de descontentamentos contra as condições sociais e o feudalismo anacrónico. Saques e pilhagens, devastações eram, porém, mais frequentes que pregações entre as turbas ululantes de Anabaptistas.

Criando terror e destruição, incerteza e morte. Müntzer e Pfeifer, com apoios dos poderes, respondiam e atacavam com violência, contra os que contra eles iam também, pois não convenciam a todos. E a violência de Müntzer contra os opositores era terrível e impiedosa. Como sucedeu em 1525, em Frankenhausen. Todavia, seria depois apanhado pelas autoridades e entregue aos carrascos, fieis a Roma. Mas, curiosamente, arrependeu-se e foram-lhe administrados sacramentos antes de morrer: depois de capturado, foi torturado e açoteado, sendo por fim decapitado, em 27 de Maio de 1525. Pfeifer não se arrependeu e foi logo executado. O Anabaptismo surgirá noutras regiões como a Suíça e a Inglaterra e daqui para as Américas, com os Amish, Uteritas, Menonitas e a Igreja dos Irmãos, de que falaremos em breve.

Além do primado da Bíblia e da Fé, em comum com a Reforma em geral, os Anabaptistas consideram Jesus como único mediador, creem no sacerdócio de todos os crentes e na presença do Espírito Santo e dos seus dons em cada cristão, recusando ainda a transubstanciação na Eucaristia e esta como sacrifício. Consideram que os cristãos convictos, baptizados, devem viver livres da escravidão do mundo, amar os inimigos, abster-se de violência e serem solidários com os pobres, sem apelar ao Estado para ajudas. Mais distintamente, os Anabaptistas têm um conceito do Cristianismo como uma religião de discípulos, da Igreja como uma fraternidade (comunidade de fé para a oração, mútuas correcção fraterna e ajuda material) e defendem uma ética e moralidade baseada no Sermão da Montanha. Defendem como lema a liberdade religiosa para todos para se viver a sua fé ou nenhuma. São contra perseguições religiosas e executar outrem devido a crenças.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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