Opus Dei: 90 Anos no Caminho da Santidade

Monsenhor José Rafael Espírito Santo

MONSENHOR JOSÉ RAFAEL ESPÍRITO SANTO, VIGÁRIO REGIONAL DA OBRA DE DEUS EM PORTUGAL

«É preciso voltar a Deus sem medo».

Sem a ajuda de Deus nem é possível, nem é sensato, viver a fé. O veredicto é do monsenhor José Rafael Espírito Santo, vigário regional do Opus Dei em Portugal. A única prelatura pessoal da Igreja Católica assinalou no início da semana 90 anos e O CLARIM quis saber junto do responsável pela Obra de Deus em terras lusas que desafios se colocam à organização. O maior continua a ser o de devolver às pessoas a confiança em Deus, num mundo absorvente e agitado, onde as tensões e as preocupações muitas vezes empurram a vivência activa da fé para segundo plano. Engenheiro civil que ouve Led Zeppelin e “Os Azeitonas”, e que até teve uma banda na juventude, José Rafael Espírito Santo desmistifica o Opus Dei, uma obra apostólica que – garante – quer apenas propiciar o encontro com Deus.

O CLARIMNoventa anos depois de São Josemaría Escrivá ter criado o Opus Dei, o papel da Obra de Deus transfigurou-se ou permanece imudado? Complicou-se, de alguma forma?

MONSENHOR JOSÉ RAFAEL ESPÍRITO SANTO – Nos anos vinte a mensagem do Opus Dei surpreendeu, não por falar de santidade – que era então coisa obviamente ligada à ideia de Cristianismo – mas sim por falar de santidade para todos: para o trabalhador comum, o pai de família, a mulher comum, o cidadão de vida rotineira. Hoje em dia já não surpreende que se diga que a santidade é para todos. A novidade passou a estar na própria ideia de santidade. Depois de décadas de afastamento progressivo de Deus, hoje a pergunta é: mas o que é isso, santidade? Que, no fundo, é a pergunta: mas quem é Deus? Existe mesmo? Preocupa-se por cada um?

CLO que significa pertencer ao Opus Dei, num país com uma forte tradição católica como é o caso de Portugal?

M.J.R.E.S. – Significa sentir-se parte da Igreja que Jesus Cristo fundou e que dotou de uma enorme variedade. O Opus Dei é um caminho na Igreja ao lado de outros caminhos, que ajuda a despertar para a ideia de que Deus não está longe e desinteressado: está vivo, é Pai, preocupado por cada detalhe da minha vida, seja da família seja do trabalho. Que me pede tempo para Ele e que não tira nada, mas dá tudo. E a partir daí transforma a minha vida de cada dia num caminho divino.

CLO Opus Dei é alvo frequente de preconceitos e mal-entendidos, mesmo no seio da Igreja. É visto muitas vezes como uma organização misteriosa, quase secreta. O que caracteriza o Opus Dei e o que o diferencia das demais prelaturas?

M.J.R.E.S. – O prelado do Opus Dei, monsenhor Fernando Ocáriz, em 2017 apontou numa longa carta – que se pode ler na íntegra no portal electrónico do Opus Dei – os grandes objectivos pastorais que foram definidos no último congresso geral que se seguiu à sua eleição para responsável máximo do Opus Dei. Entre as suas prioridades está o alentar a todos a recentrarem a vida em Jesus Cristo. O que é que isso implica? Meter-se mais na oração contemplativa no meio do mundo e ajudar os outros a andar por caminhos de contemplação. É uma oração que transborda e transforma o trabalho, o relacionamento com os outros também em oração. Essa é a proposta do Opus Dei. Todos os interessados podem participar nos cursos de formação e nos encontros de oração do Opus Dei, que não são secretos, estão abertos a todos e não requerem convite. É uma proposta que tem muito de comum com a de outras instituições da Igreja, pois a fé da Igreja é a mesma. O tom e a acentuação põem, sim, o foco na integração dessa fé no trabalho profissional e nas circunstâncias da vida corrente. Neste momento na Igreja, além do Opus Dei, que é uma prelatura pessoal, só existem prelaturas territoriais. O critério que define estas prelaturas é um território e não um critério pessoal. Essa diferença traz em consequência diferenças do ponto de vista pastoral, para além das que sejam específicas de cada prelatura.

CLO Opus Dei define como a sua principal missão a promoção de uma vivência da fé que possa conduzir à santificação. De que forma se consegue promover a ideia de santidade num mundo tão desafiante como é este em que vivemos?

M.J.R.E.S. – Num mundo tão absorvente, agitado, feito de tensões e preocupações, o esforço principal é não se esquecer que Deus é o mesmo Deus de sempre. É Ele quem governa a nossa vida. Mesmo havendo muitas coisas que é preciso fazer todos os dias, o primeiro, o principal e o mais gratificante, é o tempo que dedicamos à adoração e à conversa com Ele. Só d’Ele vem a força para fazer com tranquilidade o que é bom e o que é verdadeiro, e para tratar bem os outros.

CLDe que forma prepara o Opus Dei os seus membros para uma vivência santa e santificante do quotidiano?

M.J.R.E.S. – O Opus Dei propõe, na linha da prática tradicional da Igreja, por um lado, uma trajectória de formação, que leve a conhecer as escrituras, a aprender a arte da oração, a aprofundar no conhecimento da fé, e, por outro lado, a levar à prática um plano realista e quotidiano de oração e encontro com Deus. Como consequência, vem o trabalho feito o melhor possível, o pensar em primeiro lugar nos outros, o empenho por tornar este mundo mais à imagem de Deus e portanto mais humano. Tudo isto com o apoio do acompanhamento espiritual pessoal. O Papa Francisco escreveu este ano um belo documento sobre a santidade onde estes conceitos aparecem como realidades familiares, tradições da grande família da Igreja.

CLO que é necessário para se ser santo nos dias que correm? É hoje mais difícil viver a fé e a palavra de Cristo, tendo a santidade como perspectiva, do que era, por exemplo, há cem anos?

M.J.R.E.S. – Não há um ranking das épocas mais difíceis da história, pelo menos não o conheço. O ponto principal é deixar-se atrair por Deus que, usando as palavras de São Paulo, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Com a ajuda de Deus é sempre possível viver a fé. Sem a ajuda de Deus é impossível. E insensato. Mas se tivermos em conta que o baptismo nos transforma, realmente e não só simbolicamente, em filhos de Deus, então estaremos em posição de usar a nossa liberdade para querer seguir Deus com um motivo interior de correspondência, mesmo que o ambiente não ajude.

CLO Opus Dei desenvolve também uma acção social importante, em domínios como a educação. Onde é possível descobrir o papel social da Obra em Portugal?

M.J.R.E.S. – Lembro que o Opus Dei existe para oferecer formação religiosa católica, principalmente de forma personalizada, aos cristãos que a desejarem. O impacto que a fé traz à vida destas pessoas é tão eficaz quanto difícil de medir. A fé é genuína quando se traduz em obras, por isso a vida destas pessoas passa a incluir uma notável preocupação pelos outros. Mas isso corre por conta da responsabilidade individual. Algumas vezes, o Opus Dei associa-se com projectos de serviço à sociedade que queiram ter uma identidade católica assumida. Em Portugal são conhecidos vários pontos de actividades juvenis como o Clube 7+ em Lisboa, o Vega Clube no Porto, e quatro escolas em Lisboa e Porto, a que o Opus Dei presta serviço pastoral. Mas a prioridade é sempre o bem que cada um procura fazer na sua vida.

CLO Opus Dei foca-se sobretudo no papel evangelizador dos leigos. De que forma está estruturada a organização e que papel tem a prelatura pessoal no seio da Igreja contemporânea?

M.J.R.E.S. – O desenho organizativo da prelatura é relativamente simples e está em função da sua finalidade. Sendo esta prelatura pessoal uma estrutura da Igreja universal ao serviço das igrejas particulares, ou dioceses, a sede do governo central – o Prelado e os seus assessores – está em Roma, e, em cada país, há um vigário do prelado – o vigário regional – que também tem os seus assessores. A articulação do Opus Dei com a Santa Sé faz-se através da Congregação para os Bispos, e, com as igrejas particulares, através da conferência episcopal e das dioceses. A prelatura pessoal é uma figura criada pelo Concílio Vaticano II. É uma figura elástica, que, salvaguardadas as normas gerais, pode ter várias configurações específicas consoante os estatutos de cada uma. Por agora, só foi instituída a prelatura do Opus Dei. É natural que venham a ser criadas mais, no futuro, em função das necessidades pastorais da Igreja.

CLO que é necessário para se integrar as fileiras do Opus Dei? Uma forte vocação? Uma força de vontade a toda a prova? Ou uma grande capacidade de sacrifício?

M.J.R.E.S. – Cada pessoa é uma vocação, como o Papa Francisco recorda tão bem. Para cada um – e para a Igreja – o que mais importa é que cada um se abra à bondade de Deus, seja qual for o caminho. E para todos é preciso desejo de fazer a vontade de Deus e de corresponder com liberdade. Para ser do Opus Dei é preciso ser baptizado e ter desejos de servir a Deus e aos outros, em especial com o trabalho bem feito, ter grande consciência do dom da filiação divina e sentir-se atraído por Deus.

CLAntes de ser ordenado padre, licenciou-se em Engenharia Civil, seguindo, de resto, os passos do beato Álvaro del Portillo. De que forma é que este “background” o ajudou e a ajuda a erigir a Obra de Deus em Portugal?

M.J.R.E.S. – Não é nada fácil fazer uma avaliação de mim mesmo. Os outros poderão dizer melhor. Dizem que os engenheiros saem habitualmente treinados em adequar os meios existentes aos fins pretendidos, percorrendo os caminhos mais eficazes, sem uma excessiva preocupação de adornar o processo com suplementos estéticos ou poéticos. Será isso? Serei também assim?… Não sei dizer.

CLDizia numa outra entrevista que chegou a ter uma banda e que ainda ouve bandas como Sigur Ros, Led Zeppelin ou Arcade Fire. Isto não contraria a percepção comum do Opus Dei como uma espécie de ala conservadora da Igreja Católica. Ou também se trata de um mito?

M.J.R.E.S. – E também gosto de Miguel Araújo, Azeitonas, e… A vida não dá o tempo que gostava de ter para apreciar música. O meu gosto pela música não é um mito.

CLQue desafios traz o futuro à Obra de Deus?

M.J.R.E.S. – Essencialmente os mesmos desafios que traz à Igreja: devolver às pessoas a confiança em Deus. Deus é um Pai cheio de ternura. É preciso voltar a Ele sem medo. Fez-se homem em Jesus Cristo, por isso é possível saber como é Deus, como pensa, como age, de que gosta, que planos tem. Podemos falar com Ele, perguntar-lhe tudo o que quisermos. Onde ir procurar? Está presente onde estamos, está presente nas Escrituras, está presente no pão que é consagrado em cada Eucaristia e que fica guardado nos sacrários para que nós passemos por lá para pôr a conversa em dia. Está presente no sacramento da reconciliação para nos ajudar a levantar-nos sempre que caímos. Está presente na Igreja, apesar dos erros de cada um, fazendo-nos experimentar a realidade de que não estamos sozinhos e entre todos apoiamo-nos com a força que Deus nos dá.

Marco Carvalho

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