Jornal O Clarim

Semanário Católico de Macau

Vítor Teixeira
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VÍTOR TEIXEIRA, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

«A Igreja congregou e aproximou as comunidades de Macau»

São investigadores da Universidade Católica no Porto, viveram em Macau durante vários anos e abalançaram-se por mote próprio à difícil tarefa de retratar a comunidade portuguesa que vive e viveu no território ao longo dos séculos. Vítor Gomes Teixeira e Susana Costa e Silva apresentam este sábado, no Clube Militar, o livro “Contributos para uma história dos Portugueses em Macau”. Divididos, pouco interventivos e pouco cientes da sua própria história, os portugueses de Macau têm na língua e na Igreja dois dos seus principais referentes identitários. A comunidade tem vindo a perder projecção desde o “handover” e pode ter a sua continuidade histórica ameaçada, avisa Vítor Teixeira. O investigador faz o retrato possível dos portugueses de Macau, em entrevista a’O CLARIM.

O CLARIMComo é que surgiu este “Portugueses em Macau”? De onde vos veio o impulso para escrever uma obra desta natureza?

VÍTOR TEIXEIRA– Da minha parte, o impulso é antigo. Começou a materializar-se em termos de investigação e preparação de algo mais substancial a partir de 2013, quando assentei residência na RAEM. Existe uma lacuna em termos de síntese histórica sobre o tema, mas acima de tudo em termos de actualização com base na respectiva revisão de literatura e definição do estado de arte. Há muitas menções – muitas anotações, esparsas, sem contexto, soltas, sem organização –, desde manuscritos a crónicas e obras sem sentido historiográfico ou estatístico: relatos de viagens, impressões de residentes, todos avulsos e que necessitam hoje de uma sistematização maior. O nosso livro é apenas um contributo mais; um pródromo para algo maior. Mas foi sempre uma ideia, desde que aportei em Macau pela primeira vez, há quase vinte anos.

CLHá algum tipo de continuidade histórica nas razões que levaram os portugueses a permanecer em Macau?

V.T.– A pergunta é complexa e vale muitas teses de doutoramento, muitos estudos. A continuidade histórica é a da permanência dos portugueses no Delta do Rio das Pérolas e arredores, desde meados do século XVI, de forma paulatina, sedentária e urbana, com a criação de instituições e na senda da construção de um espaço “colonial” luso no Sul da China, no que precedemos em séculos outras potências bem maiores. Primeiro foi a relação com o Japão, até à “clausura” em 1638. Macau era uma alavanca para a China, mas principalmente para o rico comércio do trato do “barco negro de Amacau”. O século cristão japonês teve uma base em Macau, como teve também em Manila, mas foi daqui que ele brotou e ganhou sentido. Depois temos a ideia de “colónia” que se mantém, periférica e longínqua, onde se forjou a grande força motriz que alimentou a permanência portuguesa em Macau: a formação de uma república democrática e cívica, no dizer de Almerindo Lessa, que ajudou – com os macaenses mais as especificidades e contextos histórico-geográficos da China e do Sudeste Asiático – a alimentar a permanência lusa em Macau e o vínculo forte e coeso com a Metrópole. O mesmo sucedeu com a Igreja Católica. Há de facto uma certa continuidade histórica, fundamentada nessas razões apontadas. Realço, no entanto, o papel dos macaenses e da Igreja, além da capacidade de empreendimento e do papel das mulheres na formação da identidade. Até ao “1,2,3” de 1966 a continuidade imperou, superando-se micro-rupturas pontuais, mas Macau foi sempre uma “sobrevivente”, como o prova a tragédia humana da Guerra do Pacífico.

CLÉ possível traçar um “retrato robot” da comunidade portuguesa que fez e faz de Macau a sua casa?

V.T.– Depende da geração, depende da idade e tempo de permanência; depende do seu vínculo e inserção no território e no seu devir. É uma comunidade de silêncios, talvez a resposta secular adquirida perante a adaptação ao “não perder a face” e à dinâmica do “guanxi” da comunidade chinesa. Se os silêncios são observados até ao exagero, nomeadamente nos que residem há mais tempo no território, nas camadas mais recentes, da migração pós-handover, não há uma tão grande preocupação com Macau: está-se até de passagem e reclama-se, quando muito, para ter uma esplanada. De resto, submerge-se com o tempo e aproveita-se para viajar. Isto é um pouco genérico, mas não deixa de ser uma constatação, até vinda de alguém que fez parte dessa comunidade e que a conhece. Culturalmente, é uma comunidade pouco atrevida e pouco activa, pouco actuante e pouco exigente no geral, ainda que com honrosas excepções. Como comunidade no seu todo, não existe e basta ver os registos no Consulado. No 10 de Junho os mais antigos ainda se juntavam, e juntam, mas a tradição vai-se perdendo. Nos jogos de futebol vê-se um pouco a comunidade ou até no Festival da Lusofonia, mas pouco mais. A Casa de Portugal rema contra a maré, as associações culturais também, mas na generalidade a comunidade é cada vez mais viajante. Estão de passagem ou estão em Macau como poderiam estar noutro espaço. No passado, havia a ideia de cumprir comissão e muitos acabavam por ficar aqui. Secavam as velas e voltavam a secar, e depois uma vez e outra, e quando davam conta já cá estavam há décadas. Também havia as comissões de funcionalismo público ou serviço militar, em que muitos cá ficavam. Mas é uma comunidade que se pode analisar como partida e desconhecida dentro de si própria.

CLHá espaço no livro para a comunidade macaense? Que traços aproxima a portugalidade latente dos macaenses da comunidade portuguesa que se foi fixando no Delta do Rio das Pérolas?

V.T.– Acho que muitos migrantes lusos pós-handover não sabem bem o que é ou quem são os macaenses. Se sabem, sabem-no epidermicamente, por terem conhecido, namorado ou casado com algum. Outros tomam contacto com a comunidade nos espectáculos culturais ou musicais macaenses. Há espaço no livro, mas para uma edição posterior, de maior fôlego e de banda larga. Aliás, muitos dos “portugueses” nos registos da história são macaenses, portugueses sínicos, não metropolitanos. São cristãos ou súbditos do Pai dos Cristãos e nunca são referenciado como macaenses. Do ponto de vista genético, ontológico, antropológico, cultural, linguístico ou mesmo religioso, os macaenses são ainda um enigma por descodificar e sistematizar de forma autónoma em termos de estudo. O conceito de “macaense” até pode ser muito abrangente, ou ter sido mais claro e definido antes do “handover”, como se vê nos estudos de Ana Maria Amor, por exemplo, mas tem ganho contornos mais esbatidos e menos estudados a posteriori. Língua, Religião Católica (mais forte entre os macaenses), cultura, desporto e gastronomia são os pontos de contacto entre a portugalidade em que se inserem os macaenses.

CLA Religião Católica, mais do que a própria língua, foi durante séculos um referente identitário da comunidade portuguesa. Continua a ser um aspecto importante e diferenciador?

V.T.– Sim, continua. É um referente identitário, sobretudo para as gerações mais velhas. Na leva da migração pós-handover tem-se assistido, também, à adesão à Igreja de algumas famílias, algumas formadas no território, muitas vezes através de elementos residentes há mais tempo. A influência da Igreja Católica em Macau é a de qualquer instituição ontogeneticamente ligada a um território. No caso de Macau é a que marca a sua identidade nos seus alvores e é responsável por um dos maiores encantos da cidade: as igrejas ao lado de pagodes e as procissões e actos litúrgicos numa cidade chinesa, mesclando culturas e tornando-as unívocas e em contacto. Quem acompanhar o 13 de Maio constata precisamente esse concentro de culturas, a exemplo do que sucede também com o Senhor dos Passos. A convergência de cristãos de várias nacionalidades a rezar o Rosário em Cantonense, Inglês e, claro, em Português, pelas ruas até à Penha, com uma participação vibrante, multicultural e plural, é uma das marcas de água da influência de uma instituição que se misturou com Macau e que os portugueses separaram ao longo dos séculos. Para as comunidades lusófonas – principalmente a portuguesa e a macaense – a Igreja é de facto um elemento capilar e fundamental: desenhou e polarizou a cidade, congregou comunidades e aproximou-as, até hoje. Veja-se na Guerra do Pacífico, o elemento fulcral que foram a caridade e a piedade cristãs materializadas na Igreja. Figuras como o monsenhor Manuel Teixeira, os padres Lancelote e Videira Pires, e instituições como O CLARIM– jornal que se projecta e abre para lá da comunidade lusa e mergulha no mundo chinês e anglófono – são bons exemplos da vitalidade histórica da Igreja no território. É uma síntese de Macau e da portugalidade, mas acima de tudo da universalidade de Macau.

CLDas conclusões a que chegaram no âmbito do trabalho de investigação subjacente ao livro, qual destacariam como a mais surpreendente?

V.T.– Que não se conhece verdadeiramente a história e os quantitativos da comunidade portuguesa desde 1513, ano em que Jorge Álvares aqui aportou. Que é dividida, que não colabora muito com um estudo como este, nomeadamente os mais velhos, e que é um pouco desconhecedora da sua história e do sentido de comunidade que lhe devia estar inerente.

Marco Carvalho

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