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O discurso do Papa ao Corpo Diplomático.

Se quisermos saber qual a leitura que o Santo Padre faz do actual momento internacional, e qual a direcção que aponta para a solução dos múltiplos problemas do nosso tempo, temos que reflectir sobre o conteúdo do discurso que dirigiu ao Corpo Diplomático, acreditado junto da Santa Sé.

O discurso deste ano foi dedicado à importância da diplomacia multilateral e da boa vontade entre as nações para evitar a opressão dos mais vulneráveis.

E basta seguirmos as notícias internacionais do dia a dia para sentirmos que o retrato que Francisco faz do nosso tempo é bem real.

Fortalecer o sistema multilateral

O Papa começou por fazer referência a acordos que foram ratificados pela Santa Sé e por vários Estados no ano passado. Um desses convénios foi o Acordo Provisório entre a Santa Sé e a República Popular da China sobre a nomeação de bispos na China.

O Pontífice disse estar agradecido a Deus que, “pela primeira vez depois de tantos anos, todos os bispos da China estão em plena comunhão com o Sucessor de Pedro e com a Igreja universal”. E acrescentou que “é de se esperar que novos contactos com relação à aplicação do Acordo Provisório já assinado ajudem a resolver questões que permanecem em aberto, em ordem ao gozo efectivo da liberdade religiosa”.

No centenário da Sociedade das Nações

Debruçando-se sobre o tema do multilateralismo, o Papa Francisco frisou que este ano assinala-se o centésimo aniversário da Liga das Nações que representou “o começo da moderna diplomacia multilateral, em que os Estados tentam afastar-se, nas suas relações recíprocas, da mentalidade de dominação que leva à guerra”.

O Papa sublinhou que “uma condição indispensável para o sucesso da diplomacia multilateral é a boa vontade e a boa fé das partes, a sua disponibilidade para negociar umas com as outras de forma justa e honesta, e a sua abertura para aceitar os inevitáveis compromissos decorrentes de conflitos. Sempre que um destes elementos está ausente, o resultado é uma busca por soluções unilaterais e, no final, a dominação do poderoso sobre o fraco”.

Algumas atitudes, como o nacionalismo, enfatizou o Pontífice, remontam “ao período entre as duas Guerras Mundiais, quando ‘soluções’ populistas e nacionalistas se mostraram mais contundentes do que a actividade da Liga das Nações. O reaparecimento desses impulsos está progressivamente a enfraquecer o sistema multilateral, resultando numa falta geral de confiança, numa crise de credibilidade na vida política internacional e numa marginalização gradual dos membros mais vulneráveis da família das nações”.

Não ao egoísmo nacional

O Papa Francisco recordou que São Paulo VI, nas Nações Unidas, falou do “propósito da diplomacia multilateral, regida pela primazia da justiça e da lei”. E referiu que actualmente é preocupante “ver o ressurgimento de tendências para impor e perseguir interesses nacionais individuais sem recorrer aos instrumentos fornecidos pela comunidade internacional”.

Tal atitude, “às vezes é o resultado de uma reacção por parte dos líderes ao crescente descontentamento dos cidadãos de alguns países, para quem os procedimentos e regras que governam a comunidade internacional são lentos e estão longe de responder às suas próprias necessidades”.

E citando a sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, sob o tema “Boa Política a Serviço da Paz”, afirmou: “Existe uma estreita relação entre boa política e a coexistência pacífica de povos e nações. A paz nunca é um bem parcial, mas uma dádiva que abraça toda a raça humana… A política deve ser clarividente e não se limitar a buscar soluções de curto prazo”.

A pensar nos mais fracos

O Papa acentuou o compromisso da Igreja em ajudar os necessitados e pediu à comunidade internacional e às suas agências que “dêem voz àqueles que não a têm”. “Eu mencionaria” – continuou o Santo Padre – “as vítimas das guerras em curso, especialmente na Síria, com seu alto índice de mortes. Mais uma vez, apelo à comunidade internacional para que promova uma solução política para um conflito que acabará por ver apenas uma série de derrotas”.

O Papa Francisco lembrou também as comunidades cristãs que vivem no Médio Oriente e as pessoas deslocadas que foram forçadas a fugir das suas casas devido a conflitos ou dificuldades nos seus próprios países.

Ao destacar a situação dos migrantes, Francisco apelou novamente aos Governos para “prestarem assistência a todos aqueles que são forçados a emigrar devido ao flagelo da pobreza e às várias formas de violência e perseguição, bem como às catástrofes naturais e às mudanças climáticas, e a tomarem medidas com vista a permitir a sua integração social nos países de acolhimento”.

Ser uma ponte entre povos e construtores da paz

A paz e a construção da paz foram outro tema-chave neste discurso, com o Pontífice a notar que no decorrer do ano passado houve alguns sinais significativos de paz, começando com o histórico acordo entre a Etiópia e a Eritreia, e um acordo assinado pelos líderes do Sudão do Sul. Sinais positivos, segundo ele, também estão a chegar à Península Coreana.

O Papa observou que está a seguir com especial preocupação a situação na República Democrática do Congo: “Exprimo igualmente a minha proximidade a todos aqueles que sofrem de violência fundamentalista, especialmente no Mali, Níger e Nigéria, e das contínuas tensões internas na República Democrática do Congo e nos Camarões, que não raramente semeiam a morte mesmo entre civis”.

O Santo Padre expressou a esperança de encontrar meios institucionais pacíficos para fornecer soluções para a crise política, social e económica em curso na Venezuela e também para que o diálogo entre israelitas e palestinianos seja retomado.

Repensar o nosso destino comum

O Papa Francisco apontou outra característica da diplomacia multilateral que é repensar o nosso destino comum, ou seja, o nosso relacionamento com o planeta, concluindo que “as relações internacionais não podem estar dependentes da força militar, da intimidação mútua e do desfile dos stocks de armas”.

Carlos Frota

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