Em cada manhã que desponta...

Vaticano e o Mundo

Em cada manhã que desponta…

1. Não sei se os meus leitores já imaginaram o dia-a-dia de um líder político, de uma grande ou de uma pequena nação, não importa.

Homem ou mulher de carne e osso, sujeito às fragilidades do corpo e às vacilações do espírito, os seus primeiros momentos, no início da rotina diária, confundir-se-ão com os de qualquer outro mortal, excepto num pormenor importante: como a actividade cerebral nunca pára… até parar de vez, o despertar significa para o líder, quase sempre, o abrir imediato da porta (mental) desse imaginário gabinete de trabalho, situado na sua cabeça, onde tem arquivados os problemas por resolver.

Com ou sem café, o mundo invade-o(a) sem cerimónia durante o pequeno-almoço, “confeccionado” de tosta com ou sem manteiga, iogurte… e a avalanche das notícias das últimas horas.

Despedir-se-á distraidamente dos familiares mais próximos. Meter-se-á no carro oficial, sem quase dar por isso, saudando o motorista por mero automatismo. Sairá de casa com o espírito já imerso na primeira audiência formal, no primeiro desfile protocolar, na primeira reunião privada com amigos ou adversários, no avião que o/a aguarda no aeroporto, para a viagem próxima ou distante… que sei eu?

A imaginação de cada um pode completar o quadro como quiser, a partir das centenas de documentários que os arquivos inesgotáveis do YouTube colocam à nossa disposição.

De vez em quando (só mesmo de vez em quando?), sobretudo quando a agenda não é tão pesada, surgir-lhe-á a ideia, misto de prazer e preocupação, de ser ele ou ela “que está ao leme”. Que a sua palavra é ordem. Que a ela se vergam centenas, milhares. Que a sua opinião influencia decisões, cujo fruto lhe sobreviverá por décadas e mesmo mais, para além do cargo, para além da morte.

A que forças superiores se apoiarão os líderes, quando as suas próprias forças quase soçobram, perante o fardo das exigências? As da sua vaidade e orgulho, as de uma filosofia mais ou menos esotérica, as de uma religião…, as da pura cidadania…, ou as de todas elas combinadas, nesse universo de contradições, morada inevitável da condição humana?

2. Vim a dizer para mim, desde o início desta crónica: sim, os líderes nacionais têm muitas responsabilidades, mas elas terminam nas suas fronteiras! Para além delas é terra de outros…

Ora hoje, se isto é verdade, não é toda a verdade. E como cada vez mais é não-verdade, se se insiste muito acaba por ser… pura mentira.

Não preciso de contar a história de como o mundo se converteu numa aldeia, e o Facebook-Twitter-Instagram se converteram no adro tradicional da igreja… sem igreja!

Pois porque o mundo é uma aldeia, resolver os problemas de cada um supõe muitas vezes que se ajude a resolver os problemas do vizinho. Senão o muro cai para o nosso lado, a água transviada arruína-nos a sementeira, os rebanhos espezinham-nos a horta, e tudo o mais que a minha limitada imaginação de (envergonhado) urbano não permite alcançar!

E assim os líderes nacionais, por miopia política, não vejam bem ao longe, como alguns famosíssimos dirigentes do mundo que todos conhecemos, têm de apanhar frequentemente o avião e ir falar com os outros; ou recebê-los em casa, repartindo o presunto, o tinto da última colheita e as preocupações comuns. Ementa substituível, claro, por iguarias menos populares ou mais conformes aos hábitos e convicções de certos vizinhos, como é natural!

3. Para além das “paróquias” nacionais (sem qualquer desprimor para com as soberanias) há duas instituições que me fascinam particularmente, pela abrangência da sua missão. Uma é a Organização das Nações Unidas e a outra é a Igreja Católica. Nada têm que as confunda. Tudo têm que as aproxime.

Como verá o mundo o actual Secretário-Geral da ONU, António Guterres? Como um conjunto de mapas? Como um compêndio de estatísticas? Como um grande jogo de soldadinhos de chumbo, como nas velhíssimas salas de estratégia militar, em tempos recuados? Ou como um enorme coro das lamentações, cujos participantes são gente com rosto e com voz, que o antigo Alto Comissário para os Refugiados vê, ouve e a que quer chegar concretamente e tocar?

E como verá o mundo o Papa Francisco, a partir do “papamobile”, por entre a multidão, ou a partir dos altares de todos os estádios de futebol, convertidos em catedrais gigantescas, cheias de gente simples, nas suas visitas pastorais nos cinco continentes? O que lhe dizem as mãos estendidas, o desejo de o tocarem, a lágrima furtiva, os sorrisos tímidos, as orações ferventes? Pessoas! Pessoas concretas. Representantes em cada país e em cada circunstância dos seus amigos “chicaneros” das favelas de Buenos Aires.

4. A manhã começa cedo, nos improvisados aposentos pontifícios de Santa Marta. A missa é invariavelmente o primeiro acto público. E na homilia há a partilha da melhor das reflexões sobre as leituras do dia.

As audiências sucedem-se com dignitários estrangeiros, o encontro com os responsáveis dos dicastérios, a reunião com o Secretário de Estado para discutir questões internacionais. E uma ou outra saída inopinada aos sítios mais imprevistos, para exprimir de viva voz o gesto de proximidade e comunhão com gente simples e surpreendida.

O carro é pequeno demais para nele caber o homem vestido de branco. Mas na estreiteza, na pequenez do veículo, vai toda a simbologia de uma missão assumida como um serviço. E ele acena, sorridente, paternal, curando continuamente as feridas da orfandade, num mundo frequentemente de luto.

E o invariável avião da ALITÁLIA serve de ponte entre Roma e o mundo. E Francisco leva mensagens de esperança, regressando com muitos recados. De angústia, de preocupação, muitos para sua decisão urgente.

Singular líder, este!

 5. Para quem se interessa pela vida internacional e, como católico, para o modo peculiar como a Igreja se insere nela, a variedade dos assuntos inscritos na agenda diária do Papa é impressionante.

É o diálogo urgente a construir, no interior de um certo país, cuja mediação lhe pedem, para evitar a violência entre grupos, sem pontes entre si. É uma atenção particular para com os cristãos perseguidos, nas regiões onde importa concentrar energias para o diálogo inter-religioso. É a intervenção apropriada numa organização internacional, para falar da economia e da sua irmã gémea, a pobreza.

Queria traçar aqui o retrato típico do quotidiano dos líderes e acabei deambulando nos corredores do líder mais atípico. Líder sem generais e sem exército, num imaginário país sem fronteiras. Mas cuja voz abre todas as portas.

Fico contente por me ter perdido no caminho….

Carlos Frota

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