O que significa a Sagrada Tradição?

Teologia, Uma Dentada de cada Vez (17)

O que significa a Sagrada Tradição?

Da última vez vimos que a Tradição Apostólica é transmitida através da Sagrada Tradição e das Escrituras Sagradas (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica nº 13). Primeiro deixem-nos analisar (discutir) a Sagrada Tradição. O que queremos dizer com a Sagrada Tradição?

O termo “Tradição” vem do Latim “traditio”, “entregando”, “entrega”. O termo “Tradição” não se refere a costumes ou práticas como rezar o Rosário ou fazer parte de procissões ou peregrinações.

O CCIC (nº 83) ensina-nos: “A Tradição deve ser distinguida das tradições, teologias, disciplinas, liturgias e devoções nascidas nas Igrejas locais ao longo dos tempos. Estas são formas particulares, adoptadas a diversos lugares e épocas (tempos), nas quais a grande tradição está expressa. Visto à luz da Tradição, as tradições podem ser mantidas, alteradas ou mesmo abandonadas, sob a orientação do Magistério da Igreja”.

A Tradição ou Sagrada Tradição é a soma de um conjunto de doutrinas transmitidas de forma oral pelos apóstolos de Cristo. Jesus Cristo enviou os seus apóstolos para pregarem – é nesta pregação que consiste a Tradição. Como no início da Igreja nada fora escrito de imediato, no que concerne aos ensinamentos de Nosso Senhor, as crenças da Igreja foram extraídas (ou resultaram) de testemunhos orais. De uma perspectiva cronológica, em primeiro lugar encontra-se a Tradição, depois então seguiram-se as Escrituras. Foram as pregações iniciais (a Tradição) que determinaram quais os trabalhos escritos que deviam fazer parte das Escrituras. Estas só são interpretadas correctamente apenas se estiverem de acordo com a Tradição.

E os ensinamentos da Sagrada Tradição foram a escritos em algum lugar?

Em primeiro lugar, na Igreja primitiva, encontramos várias pessoas, muitas das quais santos, que eventualmente anotaram por escrito esses ensinamentos. São os denominados Pais da Igreja ou escritores eclesiásticos.

O que é necessário para ser um Pai da Igreja?

Há quatro requisitos:

1– Ortodoxia: os seus ensinamentos têm que estar em consonância com a Tradição, as Escrituras e o Magistério.

2– Antiguidade: Dever-se-á ter vivido nos primeiros séculos da Igreja.

3– Reconhecimento por parte da Igreja: a Igreja deve reconhecê-lo como Pai.

4– Santidade ou uma vida de santidade.

Há escritores ancestrais que não cumprem com um ou outro dos requisitos. A estes chamamos escritores eclesiásticos. O seu contributo também foi valioso para a Sagrada Tradição.

Em segundo lugar, a Sagrada Tradição também se pode encontrar em textos e práticas litúrgicas que vingaram com a prática desde o início da Igreja. As orações oficiais da Igreja reflectem as convicções dos fiéis. Daí, o axioma (criado pelo Papa Celestino em 422 d.C.) “lex credendi, lex orandi” (é a oração que leva à crença).

Em terceiro lugar, a Sagrada Tradição encontra-se na vida do fiel. O Santo Padre Bento XVI enfatizou que a Tradicao não é uma espécie de letra morta, antes convicção vivida. O Pontífice aprofundou mais sobre o conceito de Tradição na audiência geral de 26 de Abril de 2006: «A Tradição não é apenas a transmissão de coisas ou palavras, uma colecção de coisas mortas. A Tradição é um rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes, o grandioso rio que nos leva às portas da eternidade. E assim sendo, nesse rio, as palavras do Senhor, como ouvimos dos lábios do leitor, são-nos incessantemente concedidas: “estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos” (Mateus 28: 20)».

Pe. José Mario Mandía

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