Chuva de rockets

Síria, A Verdadeira História (7)

Chuva de rockets

Há algumas ruas em que todos sabem que há atiradores furtivos. Aí sabemos que temos de correr. Preparamo-nos numa esquina (mostra a fotografia de um cruzamento) para atravessarmos a rua – duas ou três pessoas juntas – e atravessamos a correr, o mais depressa possível para não sermos atingidas pelos disparos dos “snipers”. Vamos juntos para nos ajudarmos mutuamente. Se alguém cair, os outros podem ajudar ou arrastá-lo(la). Esse era o nosso dia a dia.

E ainda há os ataques com “rockets”, que são mais frequentes. Acontecem com tanta frequência que as pessoas chamam-lhes “chuva de rockets”. Quando os mais jovens conversam perguntam uns aos outros «como foi a chuva de “rockets” este fim de semana no vosso distrito?». «– Oh, choveram cinquenta sobre nós». Os “rockets” são armas artesanais, não muito grandes. O problema é que enchem-nas com objectos que podem dilacerar: pregos, pedaços de metal… O mal não é a explosão em si, que pode destruir um quarto – é a onda de choque que se segue. Durante alguns segundos após a explosão os estilhaços voam em todas as direcções. Quando se está na rua e se ouve este tipo de explosão, que se tornou familiar, já se sabe que há que correr e abrigar atrás de algo sólido para proteger dos estilhaços. Este facto tornou-se tão frequente que os serviços de saúde colapsaram.

Isto não é um filme, onde se vêem explosões, depois vem a polícia, as ambulâncias, e os jornalistas… Ali não é assim. As explosões acontecem a cada quinze, trinta, quarenta minutos, por vezes no mesmo distrito. Há muito tempo que já não se via ambulâncias.

Quando as explosões acontecem aparecem camionetas, como se vê nesta fotografia, e recolhem os restos humanos. Fazem-no rapidamente, com aqueles grandes sacos de lixo pretos… um braço, uma perna… e depois as camionetas levam-nos para a morgue dos hospitais. Sai-se para a rua, para os escombros, e em meia hora a vida continua.

Se for necessário procurar um parente, ou identificar uma vítima, têm que se ir à morgue e abrir os sacos, um por um, para se encontrar alguma parte da pessoa que se procura. Os nossos padres tiveram de o fazer muitas vezes.

Algo aconteceu connosco, que tivemos que viver em situação de risco permanente. Tivemos em risco de morrer em diversas ocasiões. Escapámos algumas vezes por questão de metros, ou minutos. Tivemos uma experiência particularmente trágica com um “rocket” que caiu na nossa área. Esta foto foi tirada do terraço do Episcopado, onde vivíamos, perto da Catedral. O “rocket” caiu a apenas cinquenta metros de nós, muito perto de uma dessas camionetas. A cratera da explosão foi entretanto coberta e a rua nivelada de novo. Na realidade, a rua está pavimentada, mas não parece por causa dos escombros. É uma avenida de três faixas, que tinha vendedores ambulantes, com os seus carrinhos. Aqui vêem-se tendas de refugiados no “campus” da universidade. A explosão matou quatrocentas pessoas, muitas delas estudantes da universidade.

Irmã Maria da Guadalupe Rodrigo

(Tradução: Pe. José Mario Mandía e António R. Martins)

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