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Padre Armindo Vaz
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Padre Armindo Vaz, Professor de Sagrada Escritura

«A Bíblia é literatura… sagrada».

A Igreja Católica dedica o corrente ano litúrgico ao evangelista São Lucas e a diocese de Macau convidou um dos maiores especialistas bíblicos da actualidade, o padre Armindo Vaz, a explicar o que distingue o Evangelho de Lucas dos restantes três. O professor convidado da Universidade de São José diz que o evangelista – o único autor da bíblia sem sangue hebreu – oferece uma perspectiva muito particular da vida de Cristo e da História da Salvação. É o legado e o Evangelho de São Lucas que o carmelita se propõe abordar durante três noites, no final do mês, na Sé Catedral. O catedrático português em entrevista.

O CLARIMA teologia e os estudos teológicos são cada vez mais procurados por leigos e por católicos não ordenados. O futuro da Igreja passa cada vez mais por mecanismos de adopção da Palavra de Deus por parte da comunidade leiga?

PADRE ARMINDO VAZ– Sim. Sem dúvida que passa. Desde o Concílio Vaticano II que tem vindo a crescer nos leigos o interesse pela teologia e pela leitura da Bíblia. Este fenómeno acontece por própria recomendação do Concílio que convidou os leigos a ler assiduamente as Sagradas Escrituras. Os leigos foram percebendo que essa é uma tarefa importante para eles. Sentiram e sentem que a vida não se pode reduzir à materialidade e que é necessário algo mais para alcançar um sentido último. O futuro da Igreja passa muito pela mão dos leigos: eles têm que exercer o seu próprio ministério, mesmo que não se trate propriamente de um ministério ordenado. Sem eles a Igreja não pode chegar de uma forma capilar até às extremidades, até às pessoas que deveriam beneficiar do dom gratuito de Deus que é a fé.

CLÉ costume dizer-se que a Bíblia é o livro que mais circula no mundo, que é o livro mais publicado. É também o mais lido? Os católicos conhecem bem a Bíblia?

P.A.V.– A Bíblia continua, realmente, a ser o livro mais adquirido, mais lido e mais traduzido, e as pessoas percebem que há razões para que isso aconteça. A Bíblia é interessante para toda a Humanidade – e não só para os crentes – na medida em que os seus autores tiveram a percepção da história humana à luz do Divino, à luz da transcendência. Isto é, procuraram ler os acontecimentos da história humana à luz de Deus, vendo Deus a intervir na história humana. A intervir não de forma intervencionista, material e física, mas pela fé. Aquilo que nós encontramos na Bíblia é, realmente, um diálogo aprofundado entre teologia e antropologia. Ou seja, um diálogo entre uma concepção de Deus a partir do ser humano e uma concepção do ser humano a partir de Deus. A Bíblia dá-nos a capacidade de termos a mais elevada ideia sobre o ser humano e isto é algo que acontece desde a primeira página da Bíblia, em que o ser humano é concebido como tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus. Esta é uma maneira nobre e elevada de colocar a existência humana ao mais alto nível: dizer que o ser humano foi feito por Deus.

CLA exegese bíblica, o conhecimento da Bíblia, é suficientemente cultivado no seio da Igreja?

P.A.V.– Sem dúvida que é. Os últimos Papas – Pio XII, Paulo VI e, particularmente, João Paulo II e Bento XVI – deram importância fundamental às técnicas, às regras, aos princípios e aos métodos de interpretação da Sagrada Escritura. Foi o Magistério da Igreja que nos recomendou, que nos entregou e nos recomenda o uso de uma metodologia adequada para a leitura das Sagradas Escrituras para que evitemos cair na armadilha de ler a Sagrada Escritura à letra, como se aquilo que é narrado na Bíblia tivesse que ser lido como tendo acontecido tal e qual ali está escrito. Não se pode ler a Bíblia desta forma. Isso seria cair no atoleiro do fundamentalismo. Os métodos da exegese bíblica que são propostos pelo próprio Magistério da Igreja levam-nos a ser rigorosos, a perceber que a Bíblia não é história factual. A Bíblia é literatura…

CLLiteratura com uma mensagem fundamental…

P.A.V.– É literatura sagrada, descreve uma história sagrada. Isto é, uma história impregnada pelo próprio espírito de Deus. A exegese bíblica deve trazer à superfície a mensagem espiritual e humana de cada texto, mas sem que se pense que o mais importante é perceber que aquilo que está descrito – por exemplo, no relato dos Magos vindos do Oriente para adorar Jesus, se isso aconteceu ou não aconteceu tal e qual como é descrito. É claro que uma análise rigorosa do texto vai-nos fazer perceber que isso não aconteceu tal e qual, e que portanto não é história propriamente dita, como não é história propriamente dita que os israelitas ou os hebreus saídos do Egipto tivessem atravessado o Mar Vermelho, que se teria aberto de par em par para os deixar passar. Isso é fundamentalismo. Isso é literalismo.

CLVai ministrar, no final do mês, uma acção de formação sobre o Evangelho de São Lucas, que está um tanto ou quanto à parte dos restantes evangelistas por várias razões. O que é que o Evangelho de São Lucas trás de diferente ao Novo Testamento?

P.A.V.– Vou fazer uma apresentação genérica do Evangelho de Lucas, mostrando as características muito próprias e específicas que ele tem relativamente aos outros três Evangelhos. Lucas é muito particular, desde logo pelo facto de ele ser o único autor bíblico que não é judeu. Ao que parece, Lucas seria um helenista convertido ao Cristianismo. Isso é, por si só, uma particularidade. Mas há outras e algumas delas surpreendem-nos. Ficamos surpreendidos quando encontramos no seu Evangelho narrativas, textos, versículos, pormenores que não encontramos nos outros evangelistas. Aquilo que vou dizer é que ele, Lucas, tem uma visão muito particular da vida de Jesus e também da História da Salvação. Uma história da salvação que ele, obviamente, encontra já delineada nas escrituras judaicas, naquilo que os cristãos chamavam e continuam a chamar de Antigo Testamento. Lucas tem uma particular sensibilidade para o universalismo da salvação que Jesus vem trazer, definindo-o como o seu ponto culminante.

CLComo mencionava há muito, o Evangelho de Lucas foi escrito muito após a ressurreição de Cristo, lá pelos anos 70, 80… De que forma é que o Evangelho de Lucas reflecte algo que estava já em marcha na altura e que é a projecção da mensagem de Cristo para além das fronteiras da terra de Israel?

P.A.V.– Lucas, mais do que Mateus e Marcos, sublinha o universalismo da mensagem e da salvação de Jesus. Ele promove este aspecto de muitas formas, sublinhando, por exemplo, que Jesus se dedicou muito particularmente aos pagãos que ia encontrando, aos samaritanos – que eram consideradas pagãos para os judeus – e mostrou misericórdia e compaixão para com aqueles que vinham de fora, que vinham da periferia de Israel. Este universalismo está, de resto, no início do próprio Evangelho, quando Lucas coloca os magos do Oriente, pagãos, a virem adorar Jesus. Vêm, chegam a Jerusalém e os judeus não se tinham apercebido que tinha nascido o rei dos judeus. Esses magos do Oriente são postos por Mateus, que era judeu, a dizer: “Onde é que nasceu o Rei dos Judeus? Onde está? Nós vimos adorá-lo”. Ninguém sabia de nada. Mateus sugere que, enquanto que os judeus não se aperceberam do nascimento do Messias, que eles esperavam, os pagãos vêm adorá-lo e acolheram-no, veneraram-no como o seu rei. O texto diz que se prostraram diante dele. Ou seja, aceitaram-no como o seu rei e aperceberam-se que a mensagem de Jesus é uma mensagem para toda a Humanidade.

Marco Carvalho

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