O Andrómeda e os Almeidas

Os Kristang da Península Malaia

O Andrómeda e os Almeidas

Em 1820, a sede da José de Almeida Carvalho & Ca foi transferida para Calcutá. A sua condição de sócio obrigava José de Almeida a efectuar frequentes viagens entre Macau e a cidade indiana a bordo do Andrómeda, do qual era comissário. Dessa forma foi acumulando lucros que lhe permitiriam comprar terra na colónia inglesa de Singapura, acabada de fundar por Raffles. O primeiro lote comprou-o no Kampong Glam, onde construiu casa, que em 1878 seria arrendada para servir de escola de raparigas e mais tarde viria a ser adquirida pelo rei do Sião. Macau vivia na altura uma agitação política entre absolutistas, liderados pelo ouvidor Manuel Arriaga, e os liberais, chefiados pelo tenente-coronel Paulino da Silva Barbosa. Estes sairiam vitoriosos, e como José de Almeida era assumidamente absolutista acabaria por ser deportado para Goa. Dali rumou a Singapura onde se estabeleceu em definitivo, numa casa em Beach Road, em pleno centro da cidade. Abriu consultório no Commercial Square, hoje Raffles Place, e a sua reputação de clínico está bem expressa nas palavras do escritor G. W. Earl, no seu livro “The Eastern Seas and Singapore”: «Não há talvez nenhum chefe indígena ou nakhodah que, ao visitar a colónia, não vá, ao menos uma vez, apresentar os seus cumprimentos ao Dr. Almeida, que tem mostrado ser seu sincero amigo e benfeitor».

Mas José de Almeida era, acima de tudo, um comerciante. A origem da sua fortuna deve-se a um simples episódio, do qual soube tirar o melhor proveito. Ei-lo: Devido à monção, dois navios de grande calado, um português e outro espanhol, com destino a Macau e a Manila, respectivamente, viram-se obrigados a permanecer no porto de Singapura durante quatro ou cinco meses. José de Almeida dispôs-se logo a servir de agente para ajudar os seus responsáveis a vender parte da carga que transportavam para cobrir as despesas da estadia. Com os lucros obtidos estabeleceria, também no Commercial Square, a firma José d’Almeida & Sons, que, por altura da sua morte, em 1850, era uma das maiores e mais importantes firmas comerciais da então colónia britânica.

Se em Macau a Casa de Seguros de Macau abria falência, em Singapura os negócios prosperavam a olhos vistos. No seu livro “Portugal em Singapura”, monsenhor Manuel Teixeira escreve: «o mercado prestava-se para muitos artigos da indústria e fabrico chinês, e durante a primeira guerra da China a firma fez um esplêndido negócio em seda e outras mercadorias chinesas». Um negócio que seria prosseguido pelos seus dois filhos, José e Joaquim de Almeida. Teixeira refere que «a casa do Dr. José de Almeida, na Beach Road, era um centro de reunião de todos os talentos musicais da colónia», e lembra que o português se «associara como o Dr. Montgomerie na exploração da guta-percha», já que era também um «incansável agricultor, cultivando açucareiros, cafezeiros, coqueiros, algodoeiros», tendo chegado inclusive a introduzir algumas variedades de frutos, «tais como uma espécie de banana chamada pisang d’Almeida». Para além disso, experimentou «a cachonila, a baunilha, o cravo e trouxe da Índia e da China cercetas e codornizes».

Em 1857, documentos do Conselho Ultramarino davam conta da “relação de minas existentes em Timor” e mencionavam “a concessão da exploração das minas de Birak à firma José de Almeida & Filhos de Singapura”.

Agraciado com a comenda das Ordens Militares de Cristo e da Conceição, pela rainha D. Maria II, e nomeado cônsul geral de Portugal nos Estreitos, no decorrer da sua visita à Europa em 1842, o comerciante cirurgião passaria a ser conhecido como Sir José d’Almeida.

Singapura preservou a memória deste seu ilustre cidadão, dando-lhe o nome de uma rua, D’Almeida Street, e uma lápide funerária no cemitério católico de Fort Canning. Também lá estão sepultados alguns filhos e netos, parte de uma vasta prole resultante de dois casamentos.

O filho mais velho, Joaquim de Almeida, nasceu em Macau em 1811, casou em Calcutá com uma inglesa e sucedeu, após morte do pai, no cargo de cônsul de Portugal nos Estreitos. Seu irmão, José de Almeida, nascido em Macau um ano depois, viu o seu nome imortalizado numa rua onde vivera, no sopé do Mount Victoria. É hoje a Almeida Road. Irmã de Joaquim e de José, Mariana de Almeida, também ela nascida em Macau, casar-se-ia em Singapura com Thomas Crane, maçom bastante activo, de quem teve catorze filhos. Jorge de Almeida, neto do comerciante e filho de Joaquim, destacar-se-ia como arquitecto de renome, sendo responsável pelo desenho de afamados edifícios de Singapura, muitos dos quais lhe pertenciam.

Outros dos portugueses de Singapura foi António Feliciano Marques Pereira, cônsul de Portugal no Sião, que em 1875 ficou também com as dependências consulares de Malaca e Singapura. Chegou a Macau em 1859, onde se casou e se notabilizaria como escritor e investigador histórico. Apaixonado pelo jornalismo, que exercera em Lisboa, foi redactor do Boletim do Governo de Macau, de 1860 a 1862, e fundou e dirigiu o semanário Ta-ssi-yang-kuo que se publicou em Macau de Outubro de 1863 até Abril de 1866. Publicou vários livros e, a nível administrativo, exerceu o cargo de superintendente da emigração chinesa e de procurador de assuntos sínicos. Foi ainda nomeado secretário da missão diplomática à corte de Pequim, da qual era chefe o Governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, e, dois anos mais tarde, deslocar-se-ia de novo a Pequim, desta feita numa missão chefiada pelo Governador Coelho do Amaral. Escreve a seu respeito Manuel Teixeira: «Em 1869, demitiu-se do cargo de procurador de negócios sínicos para se defender das graves acusações que lhe eram assacadas pelo redactor do Echo do Povo».

Joaquim Magalhães de Castro

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