OS 50 ANOS DA REVOLUÇÃO CULTURAL

Os 50 anos da Revolução Cultural

O novo rumo do timoneiro.

Dongchang, a segunda maior avenida do mundo, divide Pequim ao meio numa linha Este-Oeste com 47 quilómetros de extensão e que muda várias vezes de nome e de cenário. Deixemos as duas extremidades e as centenas de prédios habitacionais e complexos hoteleiros e concentremo-nos no seu miolo: o troço que une o Palácio Cultural das Minorias Étnicas da RPC ao bairro diplomático situado perto do parque Ritan e do mercado da seda.

Esse troço da avenida, e suas imediações, é, porventura, o local da capital chinesa que melhor traduz a história recente da China: da malfadada Revolução Cultural – marcada pela histeria criminosa dos jovens Guardas Vermelhos, inflamados pelos discursos de Jiang Qing (mulher de Mao Zedong) e seus acólitos do Gangue dos Quatro – aos anos dourados do crescimento económico fomentado pelo reformador Deng Xiaoping (iniciado em 1987), durante os quais, voluntária ou involuntariamente, se perpetuaram actos de igual gravidade aos cometidos entre 1966 e 1976.

De ano para ano, a conhecida e aparentemente sempiterna frota velocípede que animava a Dongchang foi-se esbatendo, dando lugar à novel frota automóvel. E quando não foi possível trocar a bicicleta por um carro, trocou-se a velhinha e resistente pasteleira Flying Pigeon, símbolo do proletariado, pelo último modelo de bicicleta de montanha. Finalmente, meio século depois, justificam-se a largura e a majestade das avenidas projectadas a pensar no futuro. Mais. Eram já demasiado estreitas.

Frente à estação central dos caminhos-de-ferro, sob o gigantesco ecrã computorizado ainda por ligar, separados por centenas de grades, que em tempos apenas permitiam entradas e saídas a conta-gotas, aglomeraram-se, durante décadas, as multidões deambulantes da China, esperando oportunidade para adquirir bilhetes. Pobremente vestidos respondiam à máxima de Deng Xioaping “É glorioso ser rico!” que empurrou milhares de pessoas do campo para a cidade em busca de promissoras oportunidades.

Durante muito tempo, os elevados preços das viagens de longo curso visavam dificultar a deslocação regular de chineses para fora das províncias onde habitavam.

Recordo o queixume da senhora Wang, secretária de um advogado canadiano com funções de consultor em Pequim; «Com medidas deste tipo, o Governo faz-nos sentir uns zés-ninguéns. Quem não consiga ser rico que se dane».

Dongchang era o verdadeiro espelho da nova China. Ao longo dos passeios públicos patenteavam-se as grandezas e as misérias da capital. De manhã bem cedo, semidissipados na neblina, velhos faziam tai-chi, e, não muito longe, as equipas de demolição tinham já os motores dos geradores eléctricos a funcionar prontas para derrubar de vez os bairros milenares da velha Pequim. No quarteirão a leste de Wangfujing, avenida chique da capital, o edifício da Mcdonald’s era o único que se mantinha de pé. Fora o primeiro da cadeia a ser construído na China e, por sinal, o único no mundo com polícias a patrulharem as mesas onde clientes sôfregos se deliciavam com a comida da moda.

Intitulados Good Communication Bus, os autocarros estavam estacionados à porta e os enormes painéis publicitários eram proporcionais à grandeza dos edifícios terminados, projectados ou em construção. Um deles previa o aparecimento da nota de mil yuans (o que nunca chegaria a acontecer) acompanhada do tradicional ábaco, e, no armazém Friendship Store, o preço dos livros – um dos produtos tradicionalmente mais acessíveis – disparara em flecha. pelo menos para os turistas. Um conjunto de dez simples postais, que dois ou três anos antes custavam cinco yuans, tinha passado a valer 50.

O hábito de leitura, esse, felizmente, continuava profundamente arreigado. Lia-se enquanto se caminhava na rua, enquanto se esperava pelo autocarro ou à luz dos candeeiros públicos. Era comum deparar com cidadãos anónimos, alheios ao tráfego, a perscrutaram atentamente os jornais afixados nas vitrinas, encimadas por slogans publicitários e um trem futurista feito com latas de Coca-Cola.

Se Dongchang era o meridiano que equilibrava as diferentes secções de Pequim, a praça de Tiananmen era o seu coração. Uma Tiananmen fotogénica durante o dia, visitada por milhares de pessoas vindas das províncias mais distantes da China e do resto de mundo, e, ao cair da tarde, com vendedores de papagaios que perseguiam transeuntes ou os distraíam com demonstrações gratuitas das suas engenhocas.

Enormes bandeiras vermelhas assinalavam o Monumento aos Mártires da Revolução, enquanto em frente, colocado nas paredes do Museu da História e Revolução Chinesa, um relógio electrónico fazia as contagens decrescentes para as passagens de soberania de Hong Kong e Macau, aguardando o seu turno o relógio destinado a Taiwan, na altura, ainda parado.

O turismo na China tinha acompanhado os tempos. Nas cidades, já quase não se via a fatiota-uniforme verde ou azul, e os cidadãos do novo século, de bonés de basebol na cabeça e aparelho fotográfico a tiracolo, deslocavam-se agora em fila atrás do respectivo guia de bandeirola colorida no ar, à semelhança dos bem-comportados turistas japoneses.

Das nove às onze da manhã, uma fila interminável de pessoas deslizava ordenadamente em romagem ao mausoléu de Mao Zedong. O acesso era gratuito, mas havia que pagar para guardar – em barracas de madeira erguidas para o efeito – os sacos e máquinas fotográficas, visto que estavam proibidas as fotografias. O aparato à entrada era grande, e havia quem fizesse a prostração devida no momento de passagem junto à urna. A romagem durava breves segundos. Logo a seguir vinha o convite ao consumo, puro e duro, pois isto de cultos era mesmo só para inglês ver e apaziguar a ortodoxia do Partido. O que interessava era pôr o povo a fazer e a sonhar com cifrões. Fora do mausoléu fui confrontado com um autêntico “mercado Mao Zedong”, onde, em barracas de diferentes tamanhos, se podia adquirir todo o tipo de bugigangas relacionadas, ou não, com o Grande Timoneiro: bonés, t-shirts, estatuetas do líder de braço erguido, crachás de diferentes tamanhos e feitios, e os famosos certificados “eu vi Mao Zedong” com os respectivos data e carimbo.

À noite, a praça de Tiananmen mudava radicalmente de aspecto. Continuavam a afluir os visitantes, só que em número bastante mais reduzido, e acendiam-se as luzes no Palácio do Povo, dando o devido destaque às limusinas negras dos dirigentes estacionadas à entrada.

Joaquim Magalhães de Castro

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