José Manuel Simões

José Manuel Simões, Coordenador do Departamento de Comunicação e Media da Universidade de São José

Macau perde gente muito qualificada.

O curso de Comunicação e Media da Universidade de São José, inspirado na máxima de Confúcio “aprender, fazendo”, equipara as potencialidades dos alunos locais com as dos estudantes provenientes do estrangeiro, assume José Manuel Simões, para quem o método de ensino que privilegia a memorização cria uma espécie de letargia ao nível das ideias, dos sentimentos e da análise. Referindo que o mercado local não dá continuidade aos alunos estrangeiros de excepcional qualidade, o coordenador do Departamento de Comunicação e Media da USJ sustenta terem caído em “saco-roto” as promessas para resolver o impasse sobre o recrutamento de alunos da China continental.

O CLARIMA Universidade de São José disponibiliza a licenciatura em Comunicação e Media. No próximo ano lectivo vai implementar o mestrado na mesma área. Que importância têm ambos os cursos para Macau?

JOSÉ MANUEL SIMÕES – No contexto das universidades de Macau é um curso com grande sucesso, derivado essencialmente de dois aspectos fundamentais: Primeiro, a USJ é a universidade mais internacional de Macau, ao receber o maior número de alunos estrangeiros. São 430! Segundo, a nossa licenciatura, por sua vez, é o curso mais internacional da Universidade de São José. Representa termos alunos com bom “background”, que sabem pensar, analisar e criticar, além de serem fluentes em Inglês.

CLComo se pode equiparar os alunos locais com os estrangeiros?

J.M.S. – A forma que encontrei, herdei-a de Confúcio. É a ideia do “aprender, fazendo”. É aí, nessa prática do “fazendo”, que os alunos locais se revelam, ao conseguirmos equipará-los aos alunos estrangeiros em muitas áreas – na multimédia, no desenho gráfico, na fotografia e fotojornalismo, na rádio, no áudio, nos “audiobooks”, no vídeo, nas curtas-metragens, no jornalismo e nas relações públicas. Mesmo nas cadeiras mais teóricas, peço aos professores para nunca descurarem a componente prática. No máximo, meia aula de teoria. E depois, colocar essa teoria em prática.

CLA USJ está impedida de recrutar alunos da China continental. É por ser uma instituição de matriz católica?

J.M.S. – Não me compete analisar esse assunto, mas acredito que seja essa a principal razão. Confesso ser algo que me causa algum melindre.

CLHá fundamento para a recusa?

J.M.S. – Falando do curso que coordeno, não temos rigorosamente nenhuma cadeira com ligação à Teologia. Não está na génese, nem é nossa preocupação [no âmbito do curso de Comunicação e Media] formarmos alunos nessa área. Em termos morais, éticos e comportamentais, sim! Está inerente a todos os professores e a todo o ensino. A religião, em si, não é um tema transversal à maioria das cadeiras dos cursos da USJ. Por isso, não me parece sensato, nem justo, haver esta discriminação.

CLQual o ponto da situação?

J.M.S. – Sei que já nos foi prometido [que o assunto iria ficar resolvido], mas tal nunca aconteceu.

CLPor quem?

J.M.S. – Faz um ano que fomos a Pequim. Fui com o padre Peter [Stilwell], vários colegas, alunos e ex-alunos. Deparámo-nos com uma cortês abertura nesse sentido. Criámos parcerias, mas a verdade é que nada se concretizou… Tal como afirmou recentemente o doutor Alexis Tam [secretário para os Assuntos Sociais e Cultura], não existem motivos para a Universidade de São José não receber alunos da China continental…

CLSerá que foram palavras de circunstância?

J.M.S. – Não sei. Não posso julgar o que é dito pelas outras pessoas.

CLNo curso de Comunicação e Media também formam futuros jornalistas. Será algo bastante sensível para o Poder Central e para o Governo de Macau, visto a USJ ter um currículo próprio nesta área, até mesmo “sui generis”?

J.M.S. – Sim, mas esse currículo próprio, esse currículo “sui generis”, como bem disse, traz vantagens, e não desvantagens. Deveria ser privilegiado e tornado como uma mais-valia pelo Governo chinês e pelo Chefe do Executivo [Chui Sai On]. Há aqui outro problema…

CLQual?

J.M.S. – O mercado local não dá continuidade aos alunos estrangeiros. Repare! Entre os melhores alunos da turma de finalistas do ano passado do meu curso, um era de Israel, outro da Serra Leoa, outra da Venezuela e outra das Filipinas. A média deles cifrou-se nos 17 e nos 18 valores. São alunos de excepcional qualidade em qualquer universidade do mundo. A menina filipina veio para Macau quando era bebé e os outros vieram propositadamente para estudar. Qualquer um deles, assim que terminou o curso, foi obrigado a sair de Macau.

CLQue desvantagens aponta?

J.M.S. – Macau perdeu a possibilidade de ter nos quadros das empresas, dos casinos, das televisões, enfim, de qualquer área, quatro alunos de excepcional qualidade. O rapaz de Israel, agora a tirar um mestrado em Portugal, é dos alunos mais brilhantes que já conheci em quinze anos de actividade enquanto docente. Como é que Macau não aproveita estes talentos e os deixa ir embora? Ao invés, assim que terminam o curso, dá-lhes quase como que uma ordem de despejo. É correcto? Não! É justo? Não! Desta forma perde-se gente muito qualificada.

CLFalou em alunos de eleição. E os de Macau?

J.M.S. – Uns são bastante capazes e talentosos, outros chegam à Universidade com lacunas ao nível da análise crítica e de abertura, provocadas pelo método de ensino que transportam desde o jardim-escola. É um método de ensino que privilegia a memorização. O decorar faz com que os alunos criem uma espécie de letargia que, em alguns casos, os torna incapazes de expressar ideias, sentimentos e de analisar; por vezes até mesmo de sentir. Na maioria dos casos, regozijo-me de terem essa lacuna preenchida quando terminam a sua formação na nossa universidade.

CLÉ autor de várias obras. Para quando o lançamento da próxima?

J.M.S. – Em Julho vou lançar um romance histórico em Portugal e depois em Setembro vou apresentá-lo em Macau. Chama-se “Deus Tupã”, com chancela da editora Media XXI. Tupã é o nome que os indígenas dão a Deus. É um termo que deriva do tupi-guarani para trovão. O livro conta a História pelo lado do colonizado indígena, dando a conhecer um fascinante “modus vivendi”. O romance histórico vai desde 1550 até aos nossos dias e intercala os acontecimentos mais relevantes de quase cinco séculos na sociedade portuguesa e brasileira, entrando no âmago, nas particularidades e essência do “bom selvagem”. Em Novembro vou lançar outro livro, em Macau, que resulta do meu pós-doutoramento em Ciências da Comunicação. Trata-se de um estudo de caso sobre a Imprensa Portuguesa em Macau, no qual revelo algumas conclusões que até a mim me surpreenderam.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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