TNR para quê!?

Olhando em Redor

TNR para quê!?

Macau é desde há séculos o local onde o Oriente se cruza com o Ocidente, mas também com outras culturas asiáticas.

Em pleno século XXI, quando os valores humanistas deviam prevalecer, até porque o Governo da RAEM está apostado em transformar a cidade num centro internacional de turismo e lazer, eis que aparecem deputados a defender que os Trabalhadores Não Residentes (TNR) estão a ocupar postos de trabalho que deviam pertencer aos locais e que os filhos e familiares a residir há décadas no território não devem ser financiados pelo Governo caso frequentem os estabelecimentos de Ensino Superior.

Infelizmente, o deputado Si Ka Lon não entende que há pessoas a viver há mais de uma década em Macau, que embora não sejam residentes permanentes, é onde têm raízes culturais, identidade física e aprenderam as línguas maternas (Cantonense, Mandarim, Português ou Inglês).

Si Ka Lon foi eleito pelo sufrágio directo através da lista de Chan Meng Kam (Associação dos Cidadãos Unidos de Macau), pela qual também concorreu a deputada Song Pek Kei, cujas declarações públicas contra os TNR são bem conhecidas. Por aqui depreende-se o que pensará Chan Meng Kam sobre os TNR.

A base de apoio desta lista tem sido a comunidade originária de Fujian, constituída por muitos potenciais eleitores de segunda e terceira geração. Quem vai à Zona Norte da cidade, mais concretamente à paróquia de Fátima, percebe qual o estrato social destes cidadãos com raízes em Fujian.

Salvo raras excepções, tanto em Macau como noutras partes do mundo, mais do que tentar resolver os problemas da população, quem está na política tem como primordial objectivo assegurar a prevalência dos seus interesses pessoais, que invariavelmente se sobrepõem ao bem comum. Para a Associação dos Cidadãos Unidos de Macau tudo passa por manter o eleitorado fidelizado. Isto partindo do princípio que a esmagadora maioria dos fukinenses são trabalhadores residentes…

No caso da Assembleia Legislativa – não me refiro agora exclusivamente a Chan Meng Kam, a Si Ka Lon e a Song Pek Kei – tenho assistido a coisas inacreditáveis. Ou é determinado deputado que defende certa medida para dar uma “mãozinha” a um amigo arquitecto, ou é porque determinada ideia “vendida” a Pequim vai ajudar a manter o rol de negociatas que por cá se fazem.

Pelas posições defendidas por algumas pessoas com grandes responsabilidades na sociedade percebe-se que os TNR estão a mais.

É justo dizer a todos os cidadãos filipinos, indonésios, vietnamitas e tailandeses, mas também aos portugueses, americanos, australianos e britânicos, entre outros que tenham “blue card”, que devem abandonar o território porque, segundo tais mentes iluminadas, andam a tirar o “pão” aos nossos residentes permanentes. Como se Macau fosse auto-suficiente em termos de recursos humanos e muitos residentes permanentes tivessem predisposição para serem mal pagos a fazer camas em quartos de hotel, a servirem à mesa em restaurantes ou em estabelecimentos de comidas, a zelarem pela segurança de edifícios nos sectores público e privado, ou que estivessem aptos a exercer cargos de gestão com competência…

Ironias à parte, contribuir para a harmonia da sociedade não é confundir a população com uma agenda dúbia, mas sim esclarecê-la por que razão os TNR são vitais para a Economia local. Até porque sem eles o plano do Poder Central para Macau vai literalmente pelo cano abaixo.

 

À maneira americana

Compreendo muito bem o recente desabafo de Sheldon Adelson, quando disse que a introdução do limite de visitantes não era exequível e «faria colapsar» a indústria de exposições e convenções em Macau.

O patrão da Las Vegas Sands apontou que tal medida não corresponde a uma posição do Governo, mas sim a uma sugestão de um «só homem», indiciando estar a falar de Alexis Tam, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura.

É compreensível porque numa empresa capitalista, como é o caso da Sands China, onde as receitas brutas têm vindo a cair nos últimos meses, nada melhor do que criar pressão onde ela é mais necessária para que o negócio continue a ir de vento em popa.

Custa-me muito acreditar – seria mesmo um grande tiro no pé – que Alexis Tam viesse a público defender uma ideia sem ter a garantia, ou o “feedback” favorável, quanto à sua execução.

Em suma: Macau não é Las Vegas, nem a República Popular da China é os Estados Unidos da América, por isso Sheldon Adelson tem mais dificuldade em fazer lóbi.

 

O lóbi

Pondo de lado Sheldon Adelson, fiquei estupefacto com a bombástica novidade da semana passada, com vários Órgãos de Comunicação Social norte-americanos a noticiar que Hillary Clinton se terá aproveitado do cargo de secretária de Estado para recompensar quem ajudou as causas humanitárias da Fundação Clinton.

Mais grave ainda é que Bill e Hillary Clinton poderão ter-se aproveitado das suas posições para financiarem a Fundação e enriquecerem pessoalmente, enquanto recompensavam doadores com declarações políticas de apoio ou decisões políticas, incluindo a transacção de urânio norte-americano para uma empresa russa, que alegadamente terá revendido parte desse produto ao Irão.

Convém reter o essencial sobre o que nos tem chegado dos Estados Unidos: para um europeu com mentalidade asiática, como é o meu caso, o lóbi conforme está instituído nos Estados Unidos é altamente permissível, pois dá azo a que muitas situações possam desembocar em práticas de corrupção ou em tráfico de influências. Decididamente, este não será o melhor exemplo a seguir por um país dito democrático.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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