Para uma nova utopia da vida

O Nosso Tempo

Para uma nova utopia da vida

Foi com esta ideia, consagrada no livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marques, o grande escritor colombiano e prémio Nobel da Literatura, que o Santo Padre começou “a sua conversa” de cinco dias com os colombianos. E isso, logo na cerimónia de boas-vindas, ao lado do Presidente Juan Manuel Santos Caldéron.

É que a necessidade de uma nova utopia da vida e da esperança aplica-se particularmente ao país visitado, desta vez a Colômbia. Que tem tudo para simbolizar, ou melhor, para exemplificar concretamente o oposto: a morte, a destruição, o desespero. Donde agora os grandes desafios resultantes dos sofrimentos múltiplos provocados pela guerra civil. E pelas feridas duradouras por ela abertas. Erros da História, para cuja superação muito se exige do espírito humano. E, primeiramente, por parte dos líderes políticos. Mas não só.

E neste ponto o Papa Francisco fez um apelo sereno, sem dedo acusador para ninguém, mas sem equívocos também. Que os líderes colombianos se lembrem dos mais pobres e não se deixem aprisionar pela lógica e as ambições dos interesses particulares ou de grupo.

Só através de uma política económica verdadeiramente social, estava implícito na mensagem de Francisco, a pensar nos mais esquecidos, nos mais desprotegidos, se consegue evitar a marginalização que conduziu ao recrutamento fácil para a guerrilha. Conforme o testemunho pessoal, aliás, de homens e mulheres apanhados no torvelinho da luta armada, porque a alternativa era a miséria.

Depois, dirigindo-se a todos, o Papa apelou a que as transformações sociais sejam abraçadas colectivamente – mais, sejam protagonizadas por todos – senão tais medidas têm o destino infeliz das meras boas intenções. E estas não alteram o status quo.

Todos são importantes e ninguém pode ser excluído! – repetiu o Papa de modos diferentes, durante a estadia em Bogotá, em Nedelin e noutros lados, para marcar a importância de cada um e de todos na reconstrução dos laços de uma comunidade nacional, em paz consigo mesma. Aliás, as visitas a segmentos da população mais pobre e vulnerável teria esse mesmo sentido.

E outro ideia sublinhou, completando a síntese do pensamento de Francisco: não à lei do mais forte, mas sim à força da lei para todos!

Proteger, pois, e ajudar os mais fracos. O tom da visita estava definido.

 

Mensagens para todos

Sabe-se que Francisco foi visitar os colombianos num momento particularmente sensível da história do País, no último meio século.

Tratava-se de ajudar a finalizar, com sucesso, um processo de reconciliação entre irmãos, apartados por um conflito armado de muitas décadas, mas cuja paz, agora concluída, trouxe ao País o termo da guerra civil. Paz que para ser efectiva não se queda na cessação da actividade desestabilizadora das guerrilhas.

O grande desafio agora, para os colombianos como para os povos em idêntica situação histórica, é conseguirem fazer a paz dentro de si. O que significa isto? Pois uma reconciliação efectiva. Quer dizer: um perdão genuíno das vítimas para com os perpetradores da violência, dita “revolucionária”. E um profundo arrependimento dos algozes.

Foi possível ver a complexidade de tal caminhada na Oração pela Reconciliação, cerimónia a todos os títulos comovente que contou com o depoimento de várias pessoas, vítimas da guerra, no seu corpo, no seu espírito, e nos muitos lutos sofridos, por familiares, pais, esposos, filhos, torturados e mortos pela guerrilha ou pelo exército nacional.

 

Uma palavra especial aos bispos

O apelo à autenticidade pessoal e apostólica, por parte do episcopado colombiano, foi palavra que certamente tocou os destinatários. Teve que tocar. Pela sensação de despojamento de todo o poder pessoal que a presença do Papa continuamente transmite.

E tal palavra traduz a visão franciscana do jesuíta Bergoglio. Uma Igreja pobre, impulsionada exclusivamente no poder da Fé que obriga a dar prioridade absoluta a quem mais precisa da solicitude da Igreja.

Os bispos têm de ser sempre as imagens vivas dessa energia profética que vai beber aos Evangelhos. Nem mais nem menos.

É tudo. E é muito!

 

Em conclusão…

Nas suas mais de duas dezenas de viagens apostólicas, de um pontificado ainda curto, Jorge Mario Bergoglio já viu muita coisa.

Sente repetidamente, aliás, o pulso do mundo, nas muitas situações sociais e humanas calamitosas. E também, por que não dizê-lo, nos erros evidentes de liderança política.

Isto é, de desajustamento entre o que pretende o poder e o que almeja a população, como é o caso gritante o da vizinha Venezuela, com cujos bispos o Papa se encontrou, no decurso da sua estada em Bogotá.

Nicolas Maduro chegou a pedir a mediação da Santa Sé, mas perante o medo de ter de abrir mão do poder, ou de o ter que partilhar, perdendo a direcção do processo de transição (o que viria dar ao mesmo, como a sua astúcia detectou), recuou e preferiu construir, com quem o apoia, instituições paralelas às legitimamente constituídas.

Sem consenso nacional – e por isso sem reconciliação que a todos congregue – o resultado está à vista. Uma economia arruinada, o êxodo em massa da parte mais dinâmica da população, e um país politicamente de costas voltadas, desde logo, para os seus vizinhos e tradicionais parceiros latino-americanos.

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Mais uma deslocação, pois, do Papa Francisco ao estrangeiro, saindo dos muros do Vaticano, para continuar a cumprir o essencial da sua missão, como Sucessor de Pedro: ir ao encontro dos povos. De todos os povos. E a todos tentar tocar com as verdades fundamentais da Palavra, de que ele é, essencialmente, o grande mensageiro. Não é o único. Mas, no nosso tempo, seguramente o maior.

Simbolicamente, na pasta preta que frequentemente o acompanha, esse grande trabalhador do Evangelho leva, além dos documentos do seu ministério, as palavras de não resignação e de esperança que, quando associadas à sua proverbial modéstia, o transformam num poderosíssimo instrumento de Fé, através do testemunho pessoal.

Assim o sentem tanto os líderes mundiais, com quem conversa e a quem se dirige, mais formalmente, nos seus discursos – como os milhões de pessoas anónimas, humildes, que, nas estradas e nas praças de todo o mundo, o recebem com o carinho e o fervor que as televisões repetidamente nos mostram. Carinho espontâneo, genuíno, que não engana e não deixa dúvidas sobre o seu significado profundo. Para reconforto moral da maioria, mas criando sentimentos menos nobres a alguns….

Carlos Frota 

Universidade de São José

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