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Francisco e os poetas sociais
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O Nosso Tempo

Francisco e os poetas sociais

Contra a globalização da indiferença, os poetas sociais. O título desta crónica pode parecer um pouco intrigante, mas “peço-o emprestado” ao Santo Padre, retirando-o da sua mensagem aos participantes no encontro de 2015 dos Movimentos Sociais Populares.

É um belíssimo discurso que simboliza a revolução pacífica que o Pontífice propõe aos habitantes das periferias pobres, dos “barrios”, das “villas”, das favelas, dos marginalizados, enfim, da sua América Latina, convidando-os a converter a sua resignação de excluídos, num novo protagonismo de participação social.

Com que objectivo? Com o de criar alternativas ao modelo de construção do mundo de hoje que lhes confira real dignidade como pessoas, de modo a superar por essa via, como gosta de dizer, a globalização da indiferença.

A esses construtores da igualdade autêntica o Papa apelidaria de poetas sociais.

 

Retrato de corpo inteiro

De corpo e de alma, diria. Mas estou a antecipar-me e prefiro contar a história desde o início.

Foi nas recentes férias de Natal e Ano Novo que descobri, nos escaparates de uma conhecida livraria digital, um lindíssimo livro (mais um…) sobre o Santo Padre, de autoria de Mark K. Shriver.

O “K”, como inicial de apelido, significa Kennedy, pois Mark é um dos sobrinhos do icónico Presidente americano, o único católico, como se sabe, a exercer tão altas funções nos Estados Unidos.

Mas não é o apelido materno do autor que confere interesse à narrativa. É a sinceridade da investigação a que se entregou Shriver e a profusão das histórias e dos testemunhos que enriquecem as suas páginas.

O título do livro é um convite à descoberta de revelações inéditas, fruto de uma investigação “de detective” a que o autor procedeu: “Peregrinação: em busca do verdadeiro Papa Francisco”.

Isto é, Mark quis descobrir a personalidade real do homem que hoje lidera a Igreja Católica e a prepara para um novo modo de ser e de estar, encaminhando-a para um tempo futuro, para além do seu próprio desaparecimento físico. Será o legado fundamental de Francisco.

 

Trabalho de detective

Para cumprir a missão a que se obrigou, o narrador fez uma peregrinação por todos os lugares decisivos da vida de Jorge Mário Bergoglio, antes daquele momento histórico em que, abeirando-se de uma das janelas da Basílica de São Pedro, Bergoglio se inclinou para receber a benção… do povo que o aclamava!

Foi o primeiro entorse às regras de um código há séculos estabelecido. O Papa abençoa o povo e não o contrário!

Para dizer o mesmo numa linguagem que os politógos tanto gostam, Francisco vergou-se à “soberania do povo”, não no sentido de renunciar ao direito divino da sua escolha, da sua eleição, mas para sublinhar a co-participação de todos no seu “mandato do céu”.

Confirmando, se necessário fosse, o simbolismo da revolução litúrgica pós-conciliar, um Pontífice deste tipo nunca poderia celebrar a missa de costas voltadas para a assembleia… …nem de perpetuar o beija-mão da Corte que não quer.

Fica pois o protocolo da genuflexão reservado aos reis deste mundo, poderia acrescentar-se com algum atrevimento. Francisco prefere o beijo familiar, paternalmente distribuído sobretudo às crianças, aos idosos e aos enfermos. Ou o abraço tão latino que convida à proximidade, encurtando a distância. Ou, finalmente, o aperto de mão e o sorriso rasgado que exprimem fraternidade.

Do Soberano Pontífice, Francisco prescinde na prática do “soberano” (longínquos vão os tempos dos Estados Pontifícios…) para reter tão só, de forma pragmática, o “pontífice”, isto é, o construtor de pontes.

Na sua vida não tem feito outra coisa, esse homem que, em torno de si, congrega gente de muitas religiões, de muitas etnias, de muitas filosofias. Desde muito antes da fama de líder mundial. Desde os tempos de Buenos Aires.

Os palestinos no Vaticano, os rabinos judeus como amigos pessoais, os protestantes como irmãos – que dúvidas pode haver no sentido de tais mensagens?

O “rezem por mim” seria a primeira de muitas originalidades conhecidas desse homem singular. O livro de Shriver conta como ele chegou a esse momento, isto é, como se foi construindo a personalidade que passaria a ser reconhecida pelas vestes brancas, distintivas dos pontífices romanos.

 

A humildade como arma

Se cada um de nós faz uma caminhada pessoal, no decurso da nossa vida, a do Papa é muito mais relevante do que muitas, não pelo seu estatuto de super-homem, mas (diria) quase pelo oposto: pela sua tocante humildade que confunde primeiro – e ilumina depois.

Tal humildade está na base da capacidade que Bergoglio (como a ele frequentemente se refere, no livro, Mark Shriver) adquiriu, de deixar uma fortíssima impressão sobre os que privaram e privam com ele. E de assim exercer a profunda influência que exerce sobre o nosso tempo, nesta segunda década do século XXI.

 

Na lama dos caminhos

É entre Buenos Aires e Córdoba, na sua Argentina natal, que se localiza a origem do mistério Bergoglio. Aí está o seu mapa de referências, a sua geografia.

As imagens sucedem-se. O rapazinho de dezassete anos que, em vez de ir para o baile, entra numa igreja, dirige-se ao confessionário e muda de vida.

O jovem de vocação científica, colaborador inteligente de um laboratório de análises, que emprega na sua vida, e na sua de sacerdote, o mesmo rigor das ciências exactas. E que, todavia, leccionou literatura a jovens seminaristas, ensinando-lhes a gostar de livros e de escritores.

A gostar apaixonadamente. Como o atesta o interesse que soube criar por uma sua iniciativa original: o convite feito ao mais famoso homem de letras do seu país – e um dos vultos da literatura mundial – que aceitaria a ideia de ir falar numa das suas aulas. Nem mais nem menos do que Jorge Luís Borges, já então quase cego.

 

Primeiro os “cartoneros”!

Está tudo nos quatro Evangelhos. A preferência pelos pobres, a sua evocação nas Bem-Aventuranças, a parábola do camelo, mais fácil de entrar numa agulha do que um homem rico no reino dos céus. Mas a Deus nada é impossível, acrescenta imediatamente o evangelista…

Por isso, não nos admiramos quando a Sergio Sanchez, e a mais dois dos seus acompanhantes, é dada preeminência nos lugares da frente, na primeira missa do Papa Francisco, na Praça de São Pedro.

Quem é Sergio Sanchez? É o rosto mais conhecido dos cartoneros(1) de Buenos Aires e amigo pessoal de Bergoglio, como centenas de companheiros na pobreza.

Aos destituídos, aos desapossados são dadas honras de primeiras figuras? É o mundo às avessas, dir-se-á hoje como há dois mil anos.

(1) cartoneros: colectores de lixo (cartones) para reciclagem.

 

O direito a chorar

Os Kennedy não choram, os Kennedy são duros, ouviria o autor do livro toda a sua vida, como frase quase de breviário, de uma família não poupada a múltiplas tragédias e que a elas respondia com a determinação patrícia dos… orgulhosos?

Pois Shriver ouviria discurso oposto, dirigido aos familiares das vítimas de um incêndio brutal, numa discoteca do centro da capital argentina.

Chorem, exprimam a vossa dor, diria Bergoglio aos pais, irmãos, amigos, de quem o fogo da negligência levaria para sempre do convívio dos seus entes queridos.

Que melhor compreensão da natureza humana?

Carlos Frota 

Universidade de São José

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