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Uma narrativa incompleta (II)
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O Nosso Tempo

Uma narrativa incompleta (II)

O inventário parcial a que me propus, do ano que agora finda, ficará concluído (se assim posso exprimir-me) com esta crónica.

E não posso deixar de começar esta segunda parte com um tema que atravessou todo o ano, com a regularidade própria das séries televisivas, mas com pessoas reais a viverem sofrimentos e angústias reais. Refiro-me à questão da dívida grega.

O fantasma da Europa solidária

Não vivi este tema, devo confessar, com a indiferença olímpica de quem debate uma questão académica ou uma tese universitária, mas como um problema antes de mais social – e não apenas económico.

Não consegui ver só, ou principalmente, através dos algarismos, alinhados em colunas de deve e haver, pois através dos números via sempre rostos humanos, e não necessariamente dos mais ricos.

Claro que parti para esta questão com alguns preconceitos que assumo:

– que os povos têm direito às suas diferenças;

– que a excessiva homogeneização da Europa leva à sua perda… como no passado, é verdade, a sua fragmentação em nacionalismos exacerbados conduziu à catástrofe. Onde se situa pois a justa medida? – é questão a formular…;

– que as instâncias decisórias, internacionais e europeias, no plano financeiro, foram demasiado cúmplices dos desmandos do chamado capitalismo global para se arvorarem em defensores virtuosos de uma qualquer ortodoxia;

– e que o meu próprio país estava a braços com gravíssimos problemas, de idêntica natureza, qualquer que fosse a distância que o nosso Governo de então quisesse colocar entre os casos português e grego, por mera estratégia negocial com Bruxelas. E, fatalmente, por estratégia pré-eleitoral.

A eleição do Syrisa suscitou grandes esperanças e grandes receios. Esperanças em quem acreditava que a mera força da palavra chegava para derrubar muros de cinismo e de interesses instalados. E receios nos que temiam o efeito de contágio de tal convicção, neutralizando o mérito político de medidas de austeridade, impostas num quadro que parecia, a tais governantes, sem alternativas.

Foi para mim penoso ver como o entusiasmo do professor Varoufakis se defrontava com a dureza ameaçadora do ministro Schaubel, representando os eleitores vigilantes da Senhora Merkel. Os eleitores comuns e os outros, de bolsos recheados. Os que passam cheques e também aos cofres do partido, dos partidos.

E a opinião pública grega (e não só) passou a ver em Herr Schaubel a face severa dessa Alemanha trabalhadora e séria, triste no fatalismo dos Invernos sem fim, contra o far niente alegre (insultuosamente alegre) dos helenos, indolentes adoradores do Sol.

Se tudo acabou, para este Syrisa fragmentado e reformatado que agora governa a Grécia, num meter o rabo entre as pernas, e num fazer a vontade de Bruxelas-Berlim, repercussões longínquas dessa luta desigual podem encontrar-se eventualmente, agora, na situação pós-eleitoral portuguesa.

Como? Tendo preparado os espíritos da esquerda menos moderada para arranjos pontuais, de modo a recuperar o que é possível, depois do tratamento de choque da Troika.

 

De novo em Teerão

Os britânicos foram os primeiros a correr para o Irão e a reabrir a sua embaixada, logo que se assinou o acordo nuclear com a equipa do Presidente Rouhani.

E quando todos esperavam a grande reaproximação entre a Administração Obama e o regime dos ayatollahs, tal não aconteceu.

Por que razão ou razões?

Desde logo porque a Arábia Saudita amuara, recusando mesmo o seu lugar de membro não permanente no Conselho de Segurança, fazendo assim sentir fortemente que não apreciava mesmo nada a mãozinha que Washington estava a dar aos xiitas para voltarem ainda com mais força ao xadrez regional, depois de Bush filho lhes ter dado o Iraque de bandeja.

Depois, ou antes, não importa, porque Benjamin Netanyahu não se calou contra o acordo, utilizando todos os palcos disponíveis, desde a Assembleia Geral das Nações Unidas até ao Congresso americano (grande desfeita a Obama que o não convidou e que nessa ocasião não visitou), denunciando o pseudo-sucesso as negociações como uma ameaça de morte contra o Estado hebreu.

Finalmente, porque os russos capturaram a seu favor a parceria com Teerão, tendo como ementa comum a defesa conjunta do regime de Assad.

Conclusão quanto à estratégia americana no complicadíssimo Médio Oriente? Zero resultados, no que se refere ao fim das negociações com a República Islâmica.

Mas se não ganha a política, ganharão certamente os negócios. De ambos os lados. Incluindo o dos tapetes persas…

Do lado de Israel e dos territórios palestinos ocupados, fala-se entretanto já da possibilidade de uma terceira intifada, como resultado do bloqueio político da situação.

Sombria perspectiva, pois, a deste dossiê para 2016.

 

Um mensageiro da paz

Dos Balcãs às Filipinas, dos Estados Unidos ao continente africano, das sociedades mais afluentes aos países mais pobres, por muitos passou já o Papa Francisco, numa contínua peregrinação pelos lugares do mundo onde a sua presença é “exigida”.E tem público para todos os assuntos que aborda, esse homem cujas preocupações têm a dimensão do mundo.

Nos Estados Unidos falou dos avanços de uma civilização em mudança que se podem traduzir em recuos de civilização… enquanto no Quénia alertou para os perigos de se querer imitar um modelo esvaziado da seiva das suas raízes.

Na Albânia falou de liberdade religiosa enfim readquirida, no Brasil de como canalizar a esfuziante alegria dos jovens para as obras da paz e do bem.

Sentado na mesquita de Bangui com o imã da capital da República Centro-Africana, no seu périplo de Novembro último por três países africanos, o Santo Padre vai consolidando o estatuto mundial de mensageiro de paz que é, representando a primeira religião do mundo pelo número de crentes, no seio dos quais é quase unanimemente reverenciado e seguido.

Pois é este homem vestido de branco que tem a ousadia de querer ajudar a superar as grandes contradições do mundo em que vivemos. As suas visitas pastorais em 2015 são o exemplo de uma coragem e energia hercúleas que a idade não detém, nem o magro resultado, muitas vezes, das suas exortações, pedidos, conselhos e mesmo súplicas.

Fica para 2016 uma agenda que confirmará propósitos e caminhos a percorrer. Se Deus quiser.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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