O Sínodo sobre a Família

O Nosso Tempo

O Sínodo sobre a Família

A reunião magna de representantes do episcopado católico, que está a decorrer em Roma por convocação do Papa Francisco, tem suscitado, como se sabe, a atenção da Comunicação Social de todo o mundo.

As razões desse interesse e dessa curiosidade – que transcendem em muito o mundo católico – constitui um bom sinal do impacto da Igreja no mundo. E não só no Ocidente.

A Igreja, aliás, está cada vez menos ocidental, no sentido de se dirigir cada vez mais a povos e culturas longe da matriz europeia. Se sempre foi assim, no nosso tempo assistimos a tal evolução, decorrendo perante os nossos olhos. Evolução que teve o seu sinal visível na eleição de um não europeu para a cadeira de Pedro.

 

Um apelo ensurdecedor…

Quando me pergunto a razão desse interesse (diria universal) pelo Sínodo, a resposta não a encontro na personalidade extremamente mediática do Papa; mas, a um nível muito mais profundo, na enorme fome e sede de orientação, de inspiração, por parte dos milhões de cristãos e não só, nas sociedades contemporâneas, órfãs de esperança.

E também não encontro tal importância apenas e principalmente nas questões ditas quentes, como a definição do casamento e o aborto, tal como os media nos querem fazer crer.

A importância do Sínodo reside no que um bispo participante, da África do Sul, chamou de apelo de milhares de famílias a que a hierarquia da Igreja lhes dê a orientação e apoio espiritual para o seu quotidiano de vida, tão difícil no nosso tempo.

Se a recepção ao Pontífice nas suas viagens à Ásia e às Américas é prova indesmentível da imensa adesão popular à sua figura, é o que ela simboliza e transmite que importa a milhões de crentes e mesmo não crentes. Indivíduos e famílias. E é essa intensa energia de milhões de pessoas que “sustenta” e justifica o Sínodo.

 

Um projecto esgotado

Creio que se chegou no Ocidente aos limites do que pode gerar um projecto secular que, a pretexto do respeito pela pluralidade, instila o esquecimento de crenças e valores. Ora, é esse projecto que mais e mais gente não quer.

E aqui nos damos conta de um dos paradoxos da nossa época. De um lado o mundo liofilizado de sociedades sem Deus, e do outro o extremismo pseudo-religioso o mais obsoleto, veículo de muita da violência que ensombra o nosso tempo.

Ora, se um projecto é de rejeitar, o outro é-o por maioria de razão.

De repente, vem-me à mente a cerimónia ecuménica recente, aquando da estada do Papa em Nova Iorque, junto ao “ground zero” das torres gémeas do World Trade Centre, destruídas no famigerado 11 de Setembro.

Aí vimos representantes de várias religiões, acompanhando o Santo Padre nesse recolhimento espiritual, junto do local da tragédia.

Mensagem do encontro? É simples: para além dos extremismos e da sua intolerância, há espaço para a convergência, o respeito, o diálogo.

 

Uma sociedade em miniatura

A família, como microcosmo do que a sociedade é, de forma mais geral, reflecte tudo o que a nossa época contém, nas suas tensões e nas suas pequenas e grandes batalhas, para o que se pretende que seja uma nova definição do homem.

Diria que, no seio da família, se travam as primeiras batalhas dos valores e dos estilos de vida, já que em cada lar está presente essa linha divisória entre gerações que é tão difícil de gerir. Os pais e os filhos, os jovens e os menos jovens, universos de crenças e comportamentos que se distanciam cada vez mais.

 

Reencontro e reconciliação

Lugar de afectos e dos desertos criados pela sua ausência, as famílias são de facto o lugar de muitas feridas… O desafio é cada vez mais que seja o lugar dos reencontros e da reconciliação.

Dos muitos perdões. Tem que ser. Como o Papa Francisco lembra.

De pais que maltratam os filhos, sem querer. De filhos que maltratam os pais, sem querer. De pais que se sentem o centro do universo – e afinal não são. De filhos que se sentem o centro do universo – e afinal não são. De pais que se sentem donos dos filhos, da vida dos filhos, e afinal ninguém é dono de ninguém.

De filhos que querem ser donos das suas vidas, mas que depressa sentem que há tanta solidão no ser dono exclusivo de si que acabam por preferir, muito mais tarde, a carícia desajeitada dos pais, a suportarem o peso contínuo de tal solidão. De pais que feriram os filhos sem querer e que só anseiam reparar essa falta – e não sabem como. E vice-versa.

 

O papel da mulher na Igreja

Testemunhos parcelares dos bispos sinodais dão conta de uma evolução de mentalidades, no interior da Igreja, a propósito do papel da mulher. Ouvi já defender-se o diaconato para as que querem uma maior assunção de responsabilidade. E mesmo uma maior intervenção dos leigos na liturgia.

A síntese será feita em breve, sobre o que o Sínodo reterá como orientações para futuro. Mas fica desde já a certeza de uma grande riqueza do debate.

 

Relembrando o Concílio Vaticano II

A propósito do Sínodo que decorre, lembrei-me naturalmente que tal só é possível porque uma iniciativa arrojada o antecedeu, há meio século, e que abalou as estruturas da Igreja: o Concílio Vaticano II.

O final dos trabalhos conciliares coincidiu com o meu ingresso na Universidade. E lembro-me de ter na altura lido com enorme esperança e optimismo documentos como a Gaudium et Spes e a Constituição Lumen Gentium.

Documentos bem estruturados e ricos em pistas de reflexão, são ainda hoje expressões desse desejo da Igreja de responder aos desafios de cada época, sem negar o essencial da sua mensagem. É nesta linha que se insere o Sínodo

Carlos Frota 

Universidade de São José

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