Órfãos de pais vivos

Órfãos de pais vivos

A entrada das mulheres no mercado de trabalho conduziu a alterações na organização familiar cujas dimensões estão ainda longe de poder ser compreendidas.

Trabalhando marido e mulher fora de casa, num primeiro momento coube à mulher, a par da responsabilidade profissional, o cuidado dos filhos e os afazeres domésticos, reservando-se ao pai um papel de menor intervenção na vida de família.

As mulheres passaram a ter dupla profissão: trabalho fora e trabalho em casa. E o estado de exaustão feminino, decorrente do desempenho de duas profissões igualmente absorventes, não terá sido alheio ao aumento do número de divórcios, à queda da natalidade facilitada pelo uso generalizado dos anticonceptivos, à recusa de muitas mulheres em aceitar cargos de maior responsabilidade na vida social e política e, mais importante ainda, ao esbater da presença do pai na vida familiar.

E se inicialmente, enquanto os pais trabalhavam, os avós iam cuidando dos netos, esse privilégio durou menos de uma geração. Creches e infantários proliferaram em resposta à necessidade de cuidar das crianças mais pequenas.

Num segundo momento, marido e mulher começam a entreajudar-se na educação dos filhos e nos trabalhos domésticos, mas passam a maior parte do dia fora de casa.

Os filhos ficam entregues à escola e a outras instituições quando não deixados sozinhos em casa, com a companhia das sempre disponíveis “baby-sitters”: a televisão, o computador, a internet e outros “gadgets”.

Os media e a escola passaram a ser os pais e mães destas crianças com os riscos inerentes porque nenhum deles está destinado à maternidade ou à paternidade.

Quando chegam a casa marido e mulher estão muito cansados, a resiliência diminuída para o esforço requerido na educação dos filhos: as refeições deixam de se fazer em família e as conversas e brincadeiras são adiadas para os fins de semana ou as férias, quando, porque o tempo não espera, já perderam a oportunidade.

Deste modo, sobretudo nos aglomerados urbanos, muitas crianças têm vindo a crescer sozinhas, sem figuras paternas (pai e mãe) que lhes ensinem os caminhos da vida, afectivamente à deriva e por conseguinte com sérios prejuízos na definição da sua identidade. Eram e são filhos órfãos de pais vivos.

Homens e Mulheres são imprescindíveis em todas as estruturas sociais e temos o dever e o direito de prosseguir as profissões com as quais melhor nos identificamos.

Por este motivo, a forma racional de resolução do problema não é a saída das mulheres ou dos homens do mercado de trabalho. Isso seria, para todos os efeitos, um retrocesso civilizacional. São as estruturas produtivas que devem adaptar-se à forma de ser da família.

Agora, a meados da segunda década do séc. XXI, é imprescindível o retorno do pai e da mãe aos filhos e à família É preciso reinventar a família e as relações com as estruturas produtivas. As gerações futuras têm direito a um pai e uma mãe presentes.

Maria Filomena Santos 

Advogada

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