Jornal O Clarim

Semanário Católico de Macau

“Se é Deus, vamos matá-Lo!”
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O Demónio Tenta Semear a Divisão, a Fé Alimenta o Espírito de Unidade

“Se é Deus, vamos matá-Lo!”

Quem assistiu à Eucaristia no dia 23 de Janeiro ouviu contar um episódio (Marcos 3, 1-6) difícil de compreender para os humanos, fácil de entender para o demónio. Era um sábado, instituído por Deus como dia de descanso e de oração. Os fariseus desesperavam por um pretexto para acusar Jesus de blasfémia. Nisto, apareceu na sinagoga um homem com uma mão atrofiada. Parecia o cenário ideal para apanhar Jesus em falso… Infelizmente, para os fariseus, eles deviam saber que ninguém consegue passar rasteiras ao Mestre.

Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada: «Levanta-te e vem aqui para o meio». E desafiou directamente os fariseus: «Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la?».

Os fariseus calaram. A vida não lhes estava a correr bem. E piorou, quando Jesus os fitou com indignação. A seguir, Jesus disse ao homem: «Estende a mão». Ele estendeu-a e a mão ficou curada.

Até aqui, o episódio parece normal. Jesus faz mais um milagre, os fariseus não gostaram, mas não o conseguiram impedir. O habitual. A surpresa vem a seguir: os fariseus saíram dali para se reunir com os herodianos e deliberarem como haviam de O matar.

O argumento é muito simples: Jesus é Deus e portanto não podemos deixar que seja o Senhor do sábado.

Se Jesus não fosse Deus, não havia problema. Não tinha feito nenhum milagre, não tinha feito nada. A questão é que os fariseus não acreditavam nisso! Uma mão atrofiada não se cura sozinha! Eles sabiam que Jesus tinha realizado o milagre! Nunca desconfiaram de mais ninguém. Por outras palavras, os fariseus sabiam que Jesus fazia milagres e era Deus! Queriam matá-lo justamente porque tinha sido Ele a fazer o milagre. Perseguiam Deus em nome do dia dedicado a Deus!

Para um demónio, isto é a coisa mais natural do mundo, por mais que o consigamos entender.

Na sexta-feira passada celebrou-se em toda a Igreja a festa da Conversão de São Paulo, aquele momento em que Saulo percebeu que andava atrás da pessoa errada. Ele queria perseguir cristãos, contudo Deus pergunta-lhe: «Saulo, Saulo, porque Me persegues?». Saulo não estava a perceber: «Quem és Tu, Senhor?». E Deus confirmou a mensagem: «Eu sou Jesus, a Quem tu persegues». Ups! Saulo pensava que perseguia a Igreja em nome de Deus e afinal…

Paulo não tinha a perversidade dos demónios, percebeu o equívoco e converteu-se.

Nos oito dias que antecederam a festa da Conversão de São Paulo, os cristãos de todo o mundo rezaram e jejuaram pela unidade da Igreja, perturbada pelas oposições de dentro e de fora, tantas vezes em nome de Deus, com lógicas que só o demónio entende. O próprio Papa presidiu a abertura destes dias de especial oração.

Nas Jornadas Mundiais da Juventude, que decorreram até Domingo, no Panamá, Francisco falou aos jovens de unidade. Disse-lhes que o demónio tenta semear a divisão, a fé alimenta o espírito de unidade. Que o pai das mentiras prefere pessoas divididas e a brigarem e não gosta de pessoas que aprendem a trabalhar juntas. «O verdadeiro amor não elimina as diferenças legítimas, mas harmoniza-as numa unidade superior – e acrescentou –sabem de quem é esta frase? Do Papa Bento XVI, que está agora a ver-nos na televisão! Saudemo-lo todos, aplaudindo o Papa Bento!». Francisco deu a pista e a multidão, do Panamá e de todo o mundo, correspondeu com o máximo de algazarra. Felizmente, no meio de tanto desconcerto, no mundo e na Igreja, por vezes saboreamos a grande alegria da unidade.

A Jornada Mundial da Juventude terminou no Domingo de forma memorável, com o Papa a anunciar que a próxima edição vai decorrer em Portugal.

José Maria C.S. André 

 Professor no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa

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