Uma ilha com nome de país

Memórias e Fortalezas no Leste de África – Parte 4

Uma ilha com nome de país

De manhã cedo, sentado de novo na esplanada da pensão Tropical, aguardo a chegada do “chapa” do Francisco que aparece por volta das sete, como previsto. Ao acomodar-me como posso naquele emaranhado de gente e sacos, noto a presença de um rosto ocidental e de um outro asiático, ambos arrumados no banco de trás. O rosto oriental lembra-me uma das norte-coreanas do aeroporto de Maputo, se bem que a possibilidade seja altamente improvável.

Não é necessário passar muito tempo na cidade para perceber que Nampula conheceu já melhores dias. Deparar aqui com uma mesquita não surpreende, o mesmo não se poderá dizer de uma inesperada igreja ortodoxa, essa sim, aparente carta fora do baralho.Durante a viagem atravessamos diversas aldeias de cabanas de terra batida e tecto de colmo e muitos embondeiros. Primeiro Ancilo e depois Nacavala e Carapira, no distrito de Meconta, onde há mulheres polícias especadas junto à estrada. As pequenas lojas de comércio ostentam nomes do género “Vodacom Tudo Bem”, “Sporting Porfírio” ou então “Cantina D’Heroína”, onde o viandante pode adquirir molhos de camarão por dez meticais apenas. Informam os panfletos turísticos que existem na região – em Macua, para sermos exactos – diversas pinturas rupestres de inegável valor artístico e patrimonial.

Marcam a paisagem admiráveis elevações rochosas a fazer lembrar as montanhas pão-de-açúcar tão características da região do Rio de Janeiro e da província de Vitória, no Brasil, só que aqui encontram-se inseridas num contexto geográfico bastante mais agreste e inteiramente rural. A presença do capim invade a estrada não deixando grande espaço para os inúmeros peões que percorrem o asfalto, quilómetro após quilómetro, em fila indiana, sempre com pesados sacos nas mãos ou na cabeça. Sempre que fazemos uma paragem, por mais breve que seja, somos abordados por aldeões munidos com recipientes de metal e plástico repletos de bananas, feijão verde, quiabos, tomates, amendoins, maçarocas de milho, ovos, abóboras, goiabas, camarão frito, enfim, repletos com tudo aquilo que se produz localmente e está disponível, embora em pequenas quantidades. Haja ou não vontade de comprar, da parte do vendedor ambulante o sorriso mantém-se. Sincero e contagiante.

Junto às palhotas, em bancas improvisadas, cuidadosamente acondicionados em pequenos cestos feitos de folhas de bananeira – verdadeiras obras de arte! – exibem-se belos papos-secos (iguais aos que diariamente saem das padarias portuguesas), doces de banana e caranguejos de carapaça cinzenta atados com fios de capim verde.

Monapo é o nome da última povoação antes de chegarmos à Ilha de Moçambique, ligada ao continente por uma longa e estreita ponte que mais parece um istmo de asfalto e ferro ferrugento. Não sei se são em maior quantidade todos esses pescadores de cana em riste perigosamente debruçados no parapeito da ponte, ou aqueloutros dentro de pequenos batéis recolhendo com expectável lentidão as redes artesanais.

Francisco Chapa – que até aí não proferira uma única palavra – diz-me que durante a preia-mar a travessia do canal pode ser feita a vau.

 

PENSÃO CASA BRANCA

 

Entramos pela parte muçulmana da Ilha, prosseguindo ao longo de um estradão animado com muita gente e que acaba por desembocar junto a um enorme edifício onde, apesar do depauperado aspecto, funciona um hospital. Aqui se apeiam a desconhecida com rosto ocidental e a grande maioria dos passageiros, também eles anónimos. As ruas encontram-se praticamente desertas e as moradias, de clara traça colonial, parecem-me abandonadas, com a honrosa excepção da Casa Branca, uma das pensões mais acolhedoras e mais bem situadas da Ilha de Moçambique. Esse é o local que escolho para alojamento. O mesmo se passa, pelos vistos, com a desconhecida de aspecto oriental. Chama-se Suka, é japonesa e trabalha numa organização não-governamental no vizinho Malawi. Por sugestão sua partilhamos um quarto, «pois assim fica mais em conta». Não me surpreende minimamente esta sua atitude. Por norma, e contra o que se possa pensar, os japoneses, a par com os israelitas, são os viajantes mais bem informados e os mais cuidadosos quando se trata de abrir os cordões à bolsa. Para encontrar locais bons e baratos para pernoitar ou para comer basta perguntar-lhes, ou então seguir-lhes os passos.

Esta ilha que deu nome ao País – não é caso único mas é caso singular – situa-se à entrada de uma bela baía a três quilómetros da massa continental. Mede dois quilómetros e meio de comprimento e, na sua máxima extensão, quilómetro e meio de largura. Pode perfeitamente ser percorrida de lés a lés numa hora apenas. Porém, caso o visitante decida assumir as rédeas do tempo, facilmente aqui estabelecerá um baluarte de sábia resistência à vida de correria e folguedos tolos, já que não é nada difícil ficar rendido aos múltiplos encantos deste pedacinho de paraíso.

Uma clara linha divisória separa a cidade cristã – a cidade de pedra, a norte – da cidade indígena – a cidade de macuti, a sul – constituída pelas palhotas tradicionais africanas, adaptadas ao clima. Amenizando com agradáveis manchas verdes o contrastante espaço arquitectónico, destacam-se nesta micro paisagem urbana os coqueiros, as figueiras-da-Índia e as acácias vermelhas trazidas do Madagáscar.

 

MEMÓRIA DE CAMÕES

 

A frota de Vasco da Gama fez aguada neste local em 1498, mas a ocupação portuguesa só viria a acontecer oito anos depois. Perpetuar-se-ia a memória desse navegador numa estátua erguida em frente ao Colégio dos Jesuítas onde funciona hoje um museu, contíguo à Igreja da Misericórdia, excelente local para apreciar o espólio resgatado ao processo de delapidação do património que sucessivos anos de caos proporcionaram.

«– Os anos que se seguiriam à independência foram os únicos que passei fora da Ilha», recorda Flora Pinto de Magalhães, a proprietária da Casa Branca. A partir de então – condicionalismos da guerra o determinaram – as coisas que funcionavam deixaram de funcionar. As vistosas moradias, orgulho da colónia, entraram num processo de degradação que o tempo depressa confirmaria.

«– Mas isto agora até está melhor», comenta a distante representante do clã de um conhecido banqueiro português com múltiplos e solidificados interesses no Moçambique ultramarino de outrora.

Verdadeiro travão ao confrangedor processo de erosão de uma glória passada, é visível algum investimento da parte de instituições públicas e sobretudo da iniciativa privada – são muitos os estrangeiros que habitam a Ilha já com casa comprada, para residência ou futuras pensões e restaurantes.

No caso de Flora, tudo não passa de uma questão de fidelidade à terra que a viu nascer.

«– Estive apenas uma vez em Lisboa. Fui e vim no mesmo avião», confessa.

A voz desta moçambicana, com óbvias feições indianas, mistura-se com o rumor das ondas do Índico, em fase de maré cheia. Elas insistem em bater, a intervalos regulares, no molhe recentemente restaurado, chapinhando-o com água.

Em frente à Casa Branca está uma estátua de Luís Vaz de Camões, sem qualquer placa que a identifique, embora o vate tenha sido um dos mais ilustres residentes deste local.

«– Está de pedra e cal, não há tempestade que a derrube. E olhe que eu já as vi bastante bravas», garante a senhora Flora.

Ao longe, avista-se a minúscula Ilha das Cobras e a ainda mais pequena Ilha de Goa, de onde se destaca uma praia de areia branca e um farol que à noite raramente se ilumina.

«– Apenas vive aí o faroleiro com a família, e nem sempre há combustível para alimentar o gerador que fornece a energia», informa.

E há necessidade de um farol? Pelos vistos, sim. A moçambicana lembra-me que recentemente um cruzeiro com turistas idosos fez aqui uma paragem, coisa com algum aparato pois justificou a presença da polícia e dos funcionários alfandegários.

A breve conversa com Flora é suficiente para me espevitar a curiosidade. Estou ansioso por explorar as ruas sinuosas, aproveitando o dia que está azul e ignorando o pico de calor, que noutras circunstâncias poderia ser um elemento desmotivador.

A Ilha de Moçambique percorre-se num dia, mas digere-se mal se não permanecermos por aqui, no mínimo, uma semana, tal é o número de surpresas que nos reserva. Pelo menos é o que tenho ouvido dizer acerca dela.

Joaquim Magalhães de Castro

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