O historiador Fernando Assunção

Memória viva de Portugal no Uruguai

O historiador Fernando Assunção

Fernando O. Assunção, historiador uruguaio, filho de Octávio Assunção, um emigrante de Fão, Esposende, é um nome fundamental para todos os que se interessam pela história da região do Rio da Prata, pois era reconhecidamente uma sumidade na matéria. E, como tal, o Estado português convidou-o a estar presente no congresso sobre o Património de Origem Portuguesa que decorreu em Coimbra em 2006. Infelizmente, essa seria a sua última viagem. Morreu no nosso país, fulminado por um ataque cardíaco. Assunção, além de historiador era antropólogo, etnólogo e artista plástico, tendo publicado vasta obra sobre as tradições gaúchas. Na casa onde vivia, num oitavo andar de um prédio em Bexura, no bairro de Pocitos, uma das zonas residenciais de eleição da capital uruguaia, visitei a viúva e a filha.

As lágrimas saltam dos olhos de Margarita Corallo de Assunção assim que fala do marido, cujo retrato, incrustado num medalhão, traz ao pescoço. Ao seu lado está a filha, Margarita Assunção de Garretano, “licenciada em Letras”, como indica o seu cartão-de-visita, e que tudo tem feito para resgatar e dar a conhecer a obra do seu pai. A acção de Assunção foi fundamental para que a UNESCO atribuísse a tão apetecida distinção a Colónia de Sacramento. «Foi um trabalho de mais de trinta anos de investigação e recuperação da área histórica, numa união de esforços com o arquitecto António Cravotto», diz Margarita, em bom Português.

«Nem imagina o trabalho que isso representou para ele» diz, por sua vez, a viúva Margarita que, «apesar de não me correr sangue português nas veias», vive com muita intensidade toda esta história da diáspora portuguesa, antiga e recente, no Uruguai. Como prova disso entrega-me um livro de mesa, «o mais importante jamais feito sobre Colónia de Sacramento», com fotografias de um dos mais destacados fotógrafos do Uruguai, Alfredo Testoni. Os textos históricos são da autoria do marido.

«Colónia é como uma pedra de muito valor incrustada no Rio da Prata», conclui Margarita, a filha.

Da viagem que fez a Portugal com o marido em 1967, Margarita Assunção recorda a amabilidade dos portugueses, o vinho verde e o bacalhau. Parecem lugares comuns, e se calhar são, mas não se pode negar as virtudes dessas iguarias. Nem do Vinho do Porto. O sogro dela recebeu-a com um copo desse néctar. «Gostava de morrer a beber um copo de Vinho do Porto», proclama a viúva, como quem diz, «o chá-mate, nós, os uruguaios, temos todo o tempo do mundo para o beber».

Assunção deslocava-se a Portugal duas ou três vezes por ano, onde tinha contactos e amigos no mundo académico. Esse trabalho mereceu-lhe inúmeras distinções. A filha acompanhou o pai por altura da Expo 98, já que este tinha sido nomeado comissário do pavilhão uruguaio. «Fizemos um itinerário longo e muito completo», diz Margarita. «Partimos de Évora e subindo pelo interior do País. Posso dizer que conheci alguma coisa do país real».

«O nome Assunção é, muito provavelmente, de origem judaica, como muitos outros nomes desta região», informa. E relata depois a saga do patriarca da família: «O meu avô Octávio veio para o Brasil com os seus irmãos, mas como não se adaptou ao clima do Rio de Janeiro decidiu apanhar o comboio para a Argentina. Em rota, fez uma paragem em Montevideu, que nessa altura, início do século XX, atravessava um período muito próspero. Ele gostou muito da cidade e ficou por lá. Encontrou aí um amigo de infância e esse foi um factor determinante para tomar a decisão de montar negócio e estabelecer-se nessa cidade».

Sobre a quantidade de portugueses existentes na região do Rio da Prata, nada melhor que transcrever o que registou a quase centenária escritora argentina Virginia Carreño no seu livro “Estancias e Estancieros”: “Muito pouca gente no Rio da Prata sabe até que ponto é de origem portuguesa. O português pertence ao pouco claro princípio de tudo, à conquista, à introdução do gado bovino, ao primeiro comércio destas costas atlânticas…, a influência artística, a contribuição na formação do carácter, e a decisiva participação na actividade comercial foram aceitas e integradas no dia-a-dia das nossas repúblicas. Por isso, uma enorme quantidade de apelidos, palavras, modos, usos e costumes, cujas origens buscamos complicadamente têm uma única e só explicação: é um legado português”.

O consagrado escritor Jorge Luís Borges, também ele descendente de portugueses, traduz esse sentir com uma frase lapidar: “Nada ou muy poco sé de mis mayores portugueses / los Borges, vaga gente que prosigue / en mi carne, oscuramente, / sus hábitos, rigores y temores, / indescifrablemente forman parte del tiempo / de la tierra y del olvido”.

Joaquim Magalhães de Castro

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