Francisco Fong

Francisco Fong

Uma viagem de despedida

Nascido na freguesia de Santo António, a 10 de Abril de 1943, é um dos rostos por detrás da iniciativa dos encontros de macaenses no Centro de Portugal.

Francisco Fong deixou Macau com 19 anos, indo para Coimbra em 1962, onde se viria a formar em Medicina, com especialidade em cardiologia, e a exercer a actividade profissional no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Durante algum tempo esteve no sector privado da Saúde, mas – como nos confidenciou – rapidamente regressou à exclusividade do Serviço Público.

Fez os estudos entre a Escola Primária Pedro Nolasco e o antigo Liceu Nacional Infante D. Henrique. Quando rumou à Europa, nas suas próprias palavras, «tinha uma imagem muito sonhadora de Macau». Para tal contribuiu o facto de nunca ter saído da terra natal até aos 19 anos, não contando as escassas visitas a Hong Kong. Para ele, na inocência da idade, o território era um local ideal. «Todas as pessoas se conheciam, eram todos amigos, não havia problemas muito graves que não fossem resolvidos dentro da própria comunidade. A comunidade residente em Macau era muito coesa e muito amiga, aos olhos de um jovem que não conhecia outra realidade», disse.

Ao chegar à cidade estudantil o choque foi grande, mas felizmente tinha ali amigos dos tempos do Liceu. A irmã já tinha estudado em Coimbra, o que fez com que a integração fosse mais fácil. Sem esse apoio a adaptação a um ambiente completamente diferente do de Macau teria sido muito mais complicada.

Apesar de Macau ter uma sociedade, nos anos sessenta, “mais aberta” do que a generalidade de Portugal, Francisco Fong encontrou em Coimbra um ambiente moderno e muito avançado para a época. O lado estudantil sempre foi muito liberal e mesmo na comunidade local nunca sentiu qualquer tipo de barreira. Ainda assim, reconhece que o facto de vir a encontrar quatro rapazes da sua juventude e da irmã o ter precedido nos estudos em Coimbra, «em muito contribuiu para que a adaptação fosse fácil».

Quatro anos depois de aterrar em Portugal regressou de férias a Macau para matar saudades, ainda com o curso superior por terminar. Estava no quarto ano de Medicina. Na visita ao território não notou grandes mudanças, pois estas só se viriam a registar com o avanço da Revolução Cultural, o “1,2,3” e tudo o que se seguiu a ponto de moldar o território para sempre.

Terminado o curso superior, foi a vez de cumprir o serviço militar em Angola, ao contrário de grande parte dos seus conterrâneos que prestavam o serviço militar em Macau. O regresso à vida civil trouxe a especialidade em cardiologia e toda a família de Macau para Portugal, sendo que apenas nos anos noventa voltaria a Macau, «se não me falha a memória». A viagem ao passado dar-se-ia por força de um congresso de cardiologia em Hong Kong. Aproveitando a deslocação à então colónia britânica, passou uns dias em Macau e, aí sim, viu a sua Macau completamente alterada.

Sendo um quadro altamente qualificado, e sabendo-se da necessidade de médicos, quisemos saber se nunca fora abordado para exercer no território. Francisco Fong não fugiu à questão, tendo respondido que foi «abordado vagamente», mas o que ouvia falar sobre as condições existentes, especialmente através dos seus amigos e colegas de profissão, «Raquel Alves, Ricardo Conceição e outros», fez com que nunca aceitasse deixar Portugal.

Depois de se aposentar em 2008, esteve em Macau em 2012 com o seu amigo Ricardo Conceição. Contactou de perto com todo o progresso que se tem verificado, principalmente depois da liberalização do sector do Jogo. Aliás, disse que nunca se irá esquecer do episódio que viveu com o seu colega, ao “perder-se” na Taipa.

Para além de todas as mudanças que o progresso trouxe, gostou de ter voltado. Encontrou muitos amigos de infância que o «receberam de braços abertos», mas passado uma semana sentiu que «já era altura de voltar para Portugal».

Francisco Fong recusou-se a fazer comparações com a Macau dos anos 60, embora tenha confessado que ficou «desiludido» com o que encontrou. Pouco viu que o fizesse recuar no tempo, à excepção de sentir que o território é afinal muito mais pequeno do que lhe parecia na juventude. «A minha noção das dimensões mudou completamente ao ter outra visão do mundo», referiu.

Relativamente à comunidade macaense, apesar de ser muito menor do que aquela que o viu crescer, «continua com o mesmo calor e o saber receber que a caracterizam». A comunidade de Macau, na visita de 2012, acolheu-o calorosamente e isso ficou marcado na sua memória.

Sente que se tratou de «uma viagem de despedida». «A minha irmã vive em Macau, mas não tenho qualquer intenção de regressar», vincou.

João Santos Gomes

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