Sevilha a pedalar é um exemplo

Macau pode aprender com a cidade Espanhola

Sevilha a pedalar é um exemplo

O problema do trânsito em Macau é algo que se arrasta desde há muitos anos e que continua sem solução à vista. A construção da Ponte Sai Van, projectada para aliviar de alguma forma essa pressão, não surtiu o efeito desejado, uma vez que a zona do COTAI cresceu desmesuradamente e as estruturas viárias no Porto Interior em nada foram actualizadas.

Desde há muito que o crescimento do território não é acompanhado de medidas que solucionem o problema do trânsito.

À distância, vou vendo serem anunciadas medidas: mais táxis, mais autocarros, mais pontes, mais metro ligeiro… Mais de tudo, e nada resulta!…

Na última visita que efectuei a Macau senti que está estrangulada no que diz respeito ao trânsito em horas de ponta. São demasiados carros para uma estrutura viária que não tem forma de se adaptar ao crescente número de automóveis e outros veículos motorizados. Demorar quase uma hora para ir do terminal de barcos do Porto Exterior até ao centro da cidade é um claro exemplo.

Recentemente visitei uma cidade espanhola que não conhecia e fiquei positivamente surpreendido com o que encontrei. Sevilha, situada a sudoeste da Península Ibérica, é a capital da província de Sevilha e situa-se na Comunidade Autónoma da Andaluzia. É a quarta maior urbe de Espanha, com pouco de 703 mil habitantes. Uma população muito semelhante à de Macau (o censo de 2016 apontava para 650 mil pessoas), mas onde muitos cidadãos não usam carro. Passei ali alguns dias e não me lembro de ver um único engarrafamento no centro da cidade.

Sevilha, famosa por inúmeros monumentos, igrejas e palácios, recebe milhões de turistas durante todo o ano. Assim como tem uma enorme comunidade estrangeira residente que trabalha nos mais variados sectores de actividade.

Nos anos noventa Sevilha enfrentou um grave problema de poluição em todo o seu centro histórico, o que levou os turistas a procurar outros destinos mais saudáveis. Perante o problema, o município teve de encontrar soluções.

Passado quase uma década a primeira medida foi recorrer a transportes públicos movidos a gás, estando estes agora em fase de substituição por autocarros eléctricos. A segunda medida, e possivelmente a que mais impacto teve, foi criar uma rede de ciclovias em toda a cidade. Foi iniciada há cerca de dez anos, sendo que só no primeiro ano construíram oitenta quilómetros. Numa primeira fase, a medida foi direccionada aos turistas que passeavam no centro histórico, mas rapidamente foi alargada a toda a população.

Segundo a Imprensa espanhola, no começo houve resistência e críticas, algo que se foi dissipando até a população aderir à nova realidade. Em Espanha apenas 1,6 por cento da população utiliza a bicicleta como meio de transporte. Em Sevilha este número é de dez por cento (setenta mil pessoas diariamente).

Cerca de 85 por cento do espaço que as ciclovias ocupam foi criado com a remoção de estacionamento nas ruas e os restantes quinze por cento retirado aos pedestres, que foram compensados com a abertura de novos espaços em outras áreas da cidade.

Mas quem governa Sevilha não ficou apenas pela criação das ciclovias. Em 2007 inaugurou-se um serviço público de bicicletas pioneiro em Espanha, o SEVici. Este permite aos usuários alugar bicicletas públicas que estão distribuídas em centenas de estações. É possível alugar as bicicletas por alguns dias ou por apenas algumas horas (uma semana fica em doze euros), podendo-se pegar na bicicleta numa estação, deixá-la noutra e, mais tarde, levantar uma outra bicicleta noutro local. Todas as informações são facultadas ao utente aquando do pagamento do serviço nos quiosques de auto-serviço.

Após a implantação desta política, entre 2006 e 2008, Sevilha viu aumentar em 670 por cento o uso diário da bicicleta.

Nas zonas onde foi possível criar vias exclusivas para as bicicletas estas estão devidamente assinaladas e são respeitadas (até) pelos peões. Nas áreas residenciais e ruas do centro histórico, onde seria mais complicado subtrair espaço de estacionamento ou de passeios, adoptaram uma política de coexistência entre as bicicletas e os automóveis na via pública, com a diminuição da velocidade máxima dos veículos motorizados ou, em alguns casos, proibição de circulação.

Durante a estadia em Sevilha não usei o serviço, pois levei a minha bicicleta para a viagem. No entanto, numa próxima visita, a bicicleta irá ficar em casa e irei aderir ao SEVici.

As fisionomias de Sevilha e Macau não se podem comparar, sendo a cidade espanhola essencialmente plana. Já em termos de centro histórico, há zonas muito parecidas, onde a política do uso de bicicleta poderia ser adoptado. Também o mesmo poderia ser experimentado na Taipa, no COTAI e em Coloane, onde o terreno não é tão acidentado e facilmente podemos deslocar-nos de bicicleta.

Durante os anos que vivi em Macau sempre ouvi dizer – da boca de quem decidia – que o território era muito quente para se andar de bicicleta. Sevilha tem temperaturas muito semelhantes a Macau, se não mesmo até mais quentes durante os meses de Verão, e nem por isso o número de pessoas a pedalar diminui….

João Santos Gomes

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