Jorge Silva

Jorge Silva, músico e guitarreiro

O elogio da auto-aprendizagem

Orgulhosamente autodidacta o alentejano Jorge Silva começou a tocar guitarra de fado aos catorze anos. Como o próprio diz: «entregaram-me uma guitarra e disseram-me: vê lá se aprendes a tocar isto». Aceitou o repto e, dado que não sabia os acordes, correu a comprar o livro de Eurico Cebolo, talvez o mais conhecido manual de guitarra portuguesa. Como primeira tarefa elegeu a reprodução, um a um, de todos os acordes. Mais tarde, no decorrer da sua vida profissional, Jorge Silva inventaria novos acordes que passaria a incluir nas suas actuações, «porque soavam bem». Nada de novo. Inúmeros músicos fazem o mesmo, acrescentando novos harmónicos e dissonantes aos já existentes e universalmente aceites.

A arte, em si, este guitarrista de Portalegre não a considera particularmente difícil. «É como tudo, no início é complicado. Depois, mãos e instrumento entrosadas, a coisa flui», resume. Admite, todavia, que um dos ponto fracos de um autodidacta é o desconhecimento de determinadas técnicas. No caso específico do fado, por exemplo, a técnica do polegar e do indicador fundamental para «bem fazer a malha do Pedro Rodrigues». A primeira vez que executou esse popular fado, Jorge Silva recorreu à palheta da sua guitarra eléctrica. «Não sabia que existiam unhas próprias, postiças, para dedilhar as cordas da guitarra de fado», confessa.

Ao cabo de vinte e seis anos de actividade, orgulha-se de ter tocado com todos os grandes nomes do fado. Não só partilhou com eles o palco como também as longas e cansativas horas das sessões de estúdio.

Além de músico, é guitarreiro, ou seja, construtor de guitarras. Uma actividade que abraçou espontaneamente. «Comigo é assim. As coisas acontecem sem que me aperceba», exclama.

Entusiasta dos desportos motorizados – motoqueiro nos tempos livres – Jorge Silva não hesita em comparar os instrumentos musicais aos automóveis. Uns e outros precisam de manutenção, de óleos e unguentos, de peças de substituição, de cavilhas, de constantes afinações.

Sempre que os seus utensílios de trabalho precisavam de alguma reparação levava-os aos guitarreiros e ficava a observá-los, «tal como o condutor de um veículo fica atento aos gestos do seu mecânico». Dessa forma foi-lhes aprendendo as técnicas e os truques, questionando-se a toda a hora: Como é que isto se faz? Como é que vou moldar umas ilhargas? Como é que vou colar os fundos? Será que o fundo é inteiriço ou são duas metades? Até certo ponto satisfeito com essa atenta e demorada observação, não pedia quaisquer informações, tão pouco consultava os manuais de referência. Limitava-se – no remanso do lar – a pesquisar na Internet as páginas de guitarreiros e luthiers espanhóis, australianos e norte-americanos, e com eles ia aprendendo. Eram eles que lhe davam novas ideias. «Houve uma noite que não cheguei a dormir, só a pensar como é que havia de desenhar ferramentas próprias que permitissem a construção de uma guitarra personalizada», diz.

À sua primeira guitarra, feita em contraplacado, «para poupar nos materiais», seguir-se-iam muitas outras, com madeiras adequadas, e assim, pouco a pouco, foi surgindo a marca Jorge Silva, actualmente requisitada por um cada vez maior número de instrumentistas.

No processo de construção de uma guitarra portugueses é fundamental o uso de madeiras nobres, «as que menos cedem às variações de temperatura». Para o fundo e as ilhargas o pau-santo indiano, do Madagáscar ou do Brasil, é, de longe, o lenho mais adequado. Quanto ao tampo, servem na perfeição o “spruce” alemão (uma das mais difundidas coníferas do planeta), o pinho nórdico ou o cedro canadiano. «Os espanhóis utilizam muito o cedro local, sobretudo na guitarra de flamengo», informa Jorge Silva, a título de curiosidade.

O tempo de duração na construção de uma guitarra de fado (assim como na de uma viola ou guitarra clássica) é de 200 e 230 horas, excluindo as 24 horas essenciais para a colagem de cada uma das peças. «São inúmeras as peças a colar. E há que respeitar o tempo de colagem de cada uma delas», nota o músico.

Como é sabido não há consenso quanto à origem da palavra “guitarra”. Etimologicamente provém do vocábulo grego “kythara” que os latinos mais tarde converteram em “cithara”, havendo até, para colorir a teoria, um mito que associa a origem do nome a uma montanha situada algures entre a Beócia e a Ática, na Grécia actual. Há também quem acredite que o nome “guitarra” remonta à Idade Média, sendo a sua invenção e construção da responsabilidade de um mouro espanhol chamado Al-Guitar. Todavia, essa corrente – que ao atribuir origem árabe à guitarra assume o mesmo em relação ao fado – é rebatida por diversos autores e instrumentistas. Estes consideram que a associação da guitarra ao fado é bastante mais recente. Assim sendo, a actual guitarra portuguesa resultaria da fusão entre dois instrumentos: o cisto europeu, ou cítara (utilizado na Europa ao longo do Renascimento, e que, em Portugal, se terá expandido a sul de Coimbra) e a guitarra inglesa, introduzida no Porto no século XVII, e que dessa cidade se terá espalhado por todo o norte do País.

Joaquim Magalhães de Castro

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