A chance da Ferrari

Fórmula 1 – Época de 2015

A chance da Ferrari

As próximas duas corridas do Campeonato do Mundo de Fórmula 1 disputam-se na Ásia. Singapura é já este fim de semana, seguindo-se um salto até ao “Império do Sol Nascente”, com o Grande Prémio do Japão a ser disputado, uma vez mais, no Autódromo de Suzuka.

Como curiosidade, o Circuito de Marina Bay foi estabelecido em 1966. Disputava-se, na altura, um Grande Prémio com as mesmas regras e veículos que o Grande Prémio de Macau, ou seja, com carros equivalentes aos Fórmula 2 europeus de então. Até hoje apenas dois pilotos têm a honra de ter vencido três vezes neste circuito. Na sua fase inicial, Graeme Lawrence, um piloto de Singapura que visitava Macau assiduamente, tendo-se classificado em 3º em 1973 e 2º em 1976. E já na fase da Fórmula 1, Sebastian Vettel com a Red Bull Racing. Singapura foi o primeiro Grande Prémio de Formula 1 inteiramente nocturno, tendo a corrida inaugural, nesta sua segunda fase, sido disputada em 2008, sendo vencida pelo piloto espanhol Fernando Alonso, depois de uma controversa saída de pista do seu companheiro de equipa Nelson Piquet Jr. que obrigou à entrada do Safety Car, comprometendo o resultado desportivo da corrida. Singapura tem contrato firmado até 2017, se não houver acordo este fim de semana para um novo período de mais cinco anos.

O Grande Prémio de Singapura é um, se mesmo o Grande Prémio que mais tinta tem feito correr nos últimos anos. Numa altura em que o mundo se vira cada vez mais para as energias sustentáveis e ecológicas, para se reduzir as emissões de carbono, Singapura faz exactamente o contrário. O facto de ser necessário iluminar o circuito durante quatro horas, três dias seguidos, obriga a um enorme dispêndio de energia cuja “assinatura de carbono” é no mínimo fantástica. As associações de amigos do planeta e de todos os tipos de ecologia não ficam muito satisfeitas com o facto…

A corrida deste ano poderá significar o fim do domínio dos carros e pilotos da Mercedes. A ameaça da Ferrari é real. A equipa italiana tem vindo a melhorar os carros de corrida para corrida, tendo-se aproximado dos bólides alemães e mesmo ultrapassado outras equipas que usam o motor germânico, como a Williams, inicialmente a “melhor das outras”. A Ferrari tem, e continuará a ter no próximo ano, dois grandes pilotos, ambos campeões do mundo, Kimi Raikkonen e Sebastian Vettel, este por quatro vezes consecutivas. A Ferrari, aparentemente, sente-se bem em circuitos citadinos e poderá ver Vettel, ou, quem sabe, Raikkonen, no degrau mais alto do pódio. Só precisa de um pouco mais de velocidade de ponta.

A corrida que se segue, no dia 25 deste mês, tem lugar no Circuito de Suzuka, que recupera de uma corrida trágica. No ano passado, Jules Bianchi sofreu ferimentos muito graves durante a corrida, que se disputou muito tarde para poder ser vista com mais conforto pelos telespectadores europeus. A luminosidade era fraca e chovia copiosamente, devido à aproximação do tufão Fanphone. A corrida tinha acabado de ser interrompida, em consequência de um outro acidente com o Sauber de Adrian Sutil. Bianchi acabou por chocar violentamente contra um dos tractores que tentava rebocar o Sauber. Jules Bianchi foi o primeiro piloto de Fórmula 1 a falecer em resultado de um acidente durante uma corrida de Formula 1, desde a morte do grande Ayrton Senna em 1994. Espera-se que a corrida deste ano seja realizada mais cedo e que não haja nenhum tufão na zona.

De notar que neste mesmo circuito, há duas semanas, o nosso André Couto venceu os mil quilómetros de Suzuka, consolidando a liderança do Campeonato de Super GT300 japonês. Também outro dos nossos meninos, Rodolfo Ávila, portou-se muito bem ao vencer a primeira corrida do novo campeonato de carros de turismo “TCR Asia Series”. Se bem que nem estivesse preparado para a corrida, tendo sido contactado à ultima hora, Ávila saiu da “pole position”, controlou a oposição, especialmente do seu companheiro de equipa, e ao fim das dez voltas foi o primeiro a ver a bandeira de xadrez.

De regresso à Fórmula 1, soube-se que o Grande Prémio da Austrália continuará, pelo menos até 2023, em Melbourne, com contrato já assinado, o que retirou qualquer hipótese a Sidney de vir a ter o seu Grande Prémio, pelo menos até 2024. Na constante procura de expansão o Circo da Fórmula 1 continua a olhar para destinos exóticos, esquecendo-se cada vez mais das suas raízes. Depois do Grande Prémio da França e do Grande Prémio da Alemanha, Monza, o mais carismático, mortífero e veloz circuito da Europa, parece estar à beira do fim. Se bem que seja um circuito em que todos os pilotos gostam de correr e, ainda mais, de vencer, a atmosfera parece ter-se perdido. Mesmo o imenso apoio dos “Tiffosi” parece estar a desaparecer. Se tivermos em conta que a Itália chegou a ter metade dos pilotos que alinhavam nas corridas de Fórmula 1 e que foi o último país a receber dois Grandes Prémios – contando com o Grande Prémio de São Marino, em Imola – a possibilidade de desaparecer do calendário é no mínimo triste. A Itália não tem um único piloto na disciplina maior do Desporto Automóvel, desde há três ou quatro anos, e as hordas de “Tiffosi” são muito mais pequenas do que eram, mesmo com os Ferrari da fábrica de Maranello ali ao lado.

Em termos militares, diz-se que expansão sem consolidação leva à derrota. Esperemos que tal não aconteça com a Fórmula 1.

Manuel dos Santos

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