Rota dos 500 Anos – Estamos de luto

Estamos de luto

A semana passada ficou marcada por uma triste notícia: o desaparecimento do até há pouco tempo director d’O CLARIM. O nosso jornal está de luto pela morte do padre Albino. A notícia chegou-me pelo padre Domingos. Fiquei perplexo e sem palavras, apesar de não muito surpreendido, visto que já estava doente há algum tempo, mesmo que muitos não o soubessem, pois não gostava de revelar a sua vida privada. Conhecia-o desde 1997. Era – e continuará a ser – um mentor e um Homem Bom. Que a sua alma descanse em paz e os seus ensinamentos façam escola em Macau e noutros lugares.

Aos mais curiosos informo que o novo fogão do barco já está instalado e a funcionar. Foi montado um novo sistema de gás e os respectivos dispositivos de segurança que acompanham estes aparelhos sempre temidos nas embarcações. Apenas tive de fazer um único furo, o que me deixou muito satisfeito porque sou contra buracos em barcos.

Agora só falta substituir os calços de madeira que suportam o fogão, para que possa ser usado durante a navegação. No entanto, mesmo sem poder balançar, já cozinha e faz assados, bolos e outras iguarias. Andamos todos, finalmente, bem alimentados. Até agora reinava a fome, como devem imaginar. Só eu perdi dez quilos.

Decidimos regressar a St. Thomas, nas Ilhas Virgens Americanas. Aqui deixam-nos ficar por seis meses e ninguém tem problemas com vistos ou certificados sanitários. Desde que entrámos em “território” ultramarino europeu os problemas foram mais que muitos, ora por causa do cachorro, ora por causa do passaporte tailandês… Já me estava a sentir mal com a burocracia do Velho Continente.

Neste aspecto (e não só) os Estados Unidos e as suas “dependências” têm-nos surpreendido pela positiva pelo profissionalismo e forma simples de abordar as questões burocráticas. Eu, que sempre fui um pouco crítico do Tio Sam e das suas políticas, começo a gostar cada vez mais deste estilo de vida. Só não me consigo habituar a tanta comida rápida e a porções que dão para uma família inteira.

No regresso a St. Thomas tivemos vento a favor e mar grosso. A média rondou os seis nós, o que para nós foi um recorde absoluto. Nunca o Dee tinha navegado tão depressa. Fizemo-lo apenas com a vela principal e ajuda do motor, visto que a praga das velas rasgadas ainda não nos deixou. Assim que abrimos a genoa, uma das adriças encalhou no enrolador e não deu hipótese de a recolhermos, acabando por rasgar devido ao forte vento. Mais um problemazito que tem de ser resolvido e que na nossa cabeça já tem solução. Até lá, se houver alguma empresa ou instituição de Macau que queira ver o seu logótipo inflado pelos ventos do Caribe, pode contactar-nos.

St. Thomas é a maior ilha que os americanos compraram aos dinamarqueses no princípio do século XX. No passado dia 14, Dia da Tomada da Bastilha, fomos visitar a French Town e ficámos a saber um pouco mais da sua peculiar história. Algo que sempre me tinha despertado curiosidade era o facto de haver franceses em St. Thomas, sem que a ilha tenha sido alguma vez território gaulês…

Depois de uma visita ao pequeno museu que existe na vila francesa ficámos a saber que os primeiros franceses vieram da ilha de St. Barthelemy, esta sim administrada por França. O êxodo deveu-se às catastróficas condições em que viviam naquela ilha, devido à passagem de diversos tornados, o que os obrigou a procurar melhor porto para sobreviverem. O nascimento da French Town de St. Thomas resultou assim da simples necessidade de encontrarem um local onde a fome e a doença não fosse tão acentuada.

Quando George Washington decidiu comprar as três ilhas (St. Thomas, St. John e St. Croix) à coroa dinamarquesa todos os residentes passaram a ser, automaticamente, norte-americanos, algo que todos os franceses aceitaram de bom grado. A Europa vivia tempos difíceis com o final da Primeira Grande Guerra e os Estados Unidos eram a potência emergente para onde todos queriam emigrar. Curiosamente, também aqui é falado um patuá, mas de origem francesa.

Há uns dias, pela primeira vez, “arrastámos âncora”. Ancoramos sempre com todo o cuidado mas, possivelmente por ser a segunda vez no mesmo local e estarmos a usar o novo enrolador de corrente, o excesso de confiança fez soar o alarme. Depois do almoço estávamos a adormecer a Maria quando ouvimos um bote a aproximar-se enquanto gritava o nome do nosso veleiro: «– Dee, Dee, está aí alguém?» Subi ao exterior e deparei com os proprietários de um iate a motor que estava a algumas centenas de metros ancorado atrás de nós. Explicou-me que estávamos em movimento! Olhei em redor apercebi-me que tínhamos passado entre dois veleiros, a mais de 200 metros do local onde inicialmente tínhamos ancorado. Ainda não refeitos do susto, ligámos as baterias, colocamos o motor a funcionar e recuperámos a âncora e a corrente. De seguida, demos duas voltas à zona da baía (Long Bay) e decidimos ancorar num local que não tivesse ninguém atrás de nós, não fosse o diabo tecê-las…

Se este episódio tivesse ocorrido durante a noite, provavelmente teríamos encalhado nas rochas.

A partir de agora, sempre que o vento estiver mais levantado, alguém terá de ir ao exterior verificar se está tudo em ordem. Nunca mais iremos confiar piamente no facto de conhecermos o local onde estamos. O excesso de confiança é a mãe de todos os erros.

Nota final: com orgulho informamos os leitores que a tripulante mais nova já começa a dizer palavras inteiras, como avião em Português, duche em Tailandês e gelo em Inglês!

João Santos Gomes

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