O deserto dos Azenegues

Costa da Memória

O deserto dos Azenegues

Os portugueses embrenharam-se também pelo interior do País. Nas trocas comerciais efectuadas saliente-se o papel de pessoas como o já conhecido Antão Gonçalves que esteve ao comando de um pequeno navio destinado a ir carregar peles e óleo de lobos-marinhos a lugares já bem conhecidos da costa africana, entre os quais o Rio do Ouro, onde em 1436 tinha chegado Gonçalves Baldaia, o descobridor oficial desta região. Antão Gonçalves era o protótipo do mercador navegante, bem mais empenhado na actividade comercial do que na descoberta de outras geografias e de outros povos, como era desejo do infante D. Henrique. Foi ele o primeiro a entrar pela foz do rio do Ouro – como escreve o cronista Gomes Eanes de Zurara, “umas quantas léguas acima” – e depois de ancorado ter ficado ali uma semana sem ter qualquer “recado nem vista de nenhum morador da terra”. Aguardava o resgate. Pelos dois cativos que tinham feito anteriormente foram-lhe entregues dez homens e mulheres de diversas partes e um pouco de ouro em pó; ainda pouco que fosse, sempre era significativo.

Na viagem seguinte fazia parte da tripulação João Fernandes, que por sua livre vontade, “somente para ver e trazer novas ao infante”, quis ficar em terra e partir com os locais “para particularmente ver coisas daquele sertão, que habitam os azenegues, e delas dar razão ao Infante, confiado na língua deles que sabia, o qual tornou depois ao reino”.

Azenegue é uma palavra do dialecto local que significa “fazer regressar os camelos”. Ou seja, os azenegues eram os pastores de camelos. Também eram conhecidos, eles e outros nómadas berberes autóctones, como bafours, convertidos pelos árabes invasores no século VII quando estes ocuparam todo o Norte de África. Nas primeiras crónicas dos descobrimentos os bafours são referenciados inúmeras ocasiões, assim como os zanagas ou azenegues.

Terá sido também nessas redondezas que, anos mais tarde, o “lançado” João Fernandes foi recolhido, após sete meses de vida em comum com os berberes locais – os tais azenegues – daí que um desses promontórios fosse durante séculos conhecido como o Cabo do Resgate.

Duas dessas tribos, os zenatas e os sanhaja, resultantes dessas conversões, embora rejeitassem os invasores, adoptariam os preceitos morais e religiosos do Islão. E de tal forma que esse seria o primeiro movimento de unidade que levou à criação da dinastia dos Almorávidas, que islamizaria a Península Ibérica.

A hierarquia social destas sociedades é muito rígida. Existem primeiro as tribos guerreiras – os hassan ou árabes; depois as tribos de marabutos (monge ou sacerdote muçulmano) – os zawâyâ; e finalmente as tribos tributárias (os lhama ou aznâga, de onde deriva a palavra portuguesa azenegue). No fundo, é o sistema feudal, ainda hoje presente na sociedade local. Só que as tribos tributárias, os azenegues, emanciparam-se entretanto formando uma burguesia que adquiriu riqueza com o comércio.

Dunas de areia junto à costa e povoações-fantasmas ou recentemente construídas para acolher militares e futuros colonos, foi o contínuo panorama com que deparamos naquele deserto branco e de uma enorme beleza.

Não muito longe da Baía de Cintra, uma vez mais vislumbravam-se amontoados de pedras intrigantes. Seriam fortins provisórios que não mereceram menção nos nossos textos antigos? Difícil a investigação. A não ser que se perca o amor à vida. Placas de metal, nem sempre explícitas, mas invariavelmente ferrugentas, alertam para a presença de minas. Ao promontório que encerra a baía, onde a areia chega a cobrir importantes troços da estrada, chamam-lhe Ponta Negra.

Consta que nos lugarejos abandonados de Ain Bida e em Sabkhat Faras, nomes mais a condizer com a realidade local, existiram outrora importantes minas de extracção de sal.

A proximidade da praia era entretanto maior. Ondas apetecíveis a menos de cem metros do asfalto. O paraíso tão perto e tão inacessível, não fora as placas de metal desmancha-prazeres que continuavam a avisar: Danger! Mines!

Olho o mapa, e lá estão: a Baía de São Cipriano e o Cabo Barbas. Porque lhe terão chamado assim?

Parámos ali mesmo, para prestar assistência a um veículo italiano conduzido por Luca Gallianotti, um entusiasta dos grandes espaços selvagens.

«– O deserto é de tal forma fascinante que nos obriga a regressar. Uma, duas, três, as vezes que tivermos oportunidade para isso», dizia ele. Luca conduzia uma furgoneta de fabrico russo com tracção às quatro rodas. «– Há ainda muitas destas carrinhas no activo no Afeganistão», informava.

Sim, claro. No Afeganistão, na Mongólia, em todos os países do bloco soviético além-Urais, e claro, nas mais distantes província da mãe Rússia. Conheço-as bem, as incontornáveis UAZ-452, assim chamadas por serem produzidas na unidade Ulyanovsk Automobile Plant, também conhecidas como “pão de forma”. Na minha opinião, um dos veículos mais capazes no confronto com o terreno hostil. E só não as vemos por toda a parte porque consomem combustível como nenhuma outra.

Luca viajava acompanhado de um amigo de oitenta anos e que há mais de trinta espiolhava todos os cantos e recantos do Saara. E não parecia cansado. Pode dizer-se que o deserto é aditivo? É. E também é agregador de pessoas.

Joaquim Magalhães de Castro

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