Padrão Bojador

Costa da Memória

Padrão Bojador

Uma barreira de recifes que se estende mar adentro, prolongando o promontório conhecido, durante o período colonial espanhol, como “cabo Joven”, é o verdadeiro estigma da costa do Bojador. As águas ali são agitadas e adivinha-se um fundo traiçoeiro. Com um pouco de sorte, a navegação à vela para Sul não constitui problema, pois as correntes mostram-se favoráveis. O problema está no retorno, impossível de fazer ao longo da costa. Este impedimento encontra-se bem expresso nas palavras de Duarte Pacheco Pereira, numa época (primórdios do século XVI) em que os portugueses dispunham de embarcações bem superiores às do período henriquino, além de uma longa prática das técnicas de navegação. Recomendava Pereira, no seu roteiro “Esmeraldo de Situ Orbis”, que se fizesse a viagem muito ao largo, “porquanto este Cabo Bojador é muito perigoso por causa de uma mui grande restinga de pedra que dele sai do mar mais de quatro ou cinco léguas, no qual já se perderam alguns navios por mal aviso”.

Não admira que para a primeira ultrapassagem do Bojador, acontecida em 1434, com Gil Eanes, fossem necessárias quinze tentativas. O feito de Eanes viria pôr termo a uma série de mitos da Antiguidade associados a esta região: monstros marinhos, a água que fervia, a terra que ardia, o fim do mundo; enfim, o impossível. E tal tarefa só se concretizaria graças ao uso desse “invento” revolucionário, a caravela, munida com duas velas latinas que lhe permitiam navegar contra os ventos ou com eles cruzados.

Dirigi-me até a um paredão junto ao porto pesqueiro. Numa das rochas, um homem tentava apanhar polvos recorrendo a um sistema rudimentar de captura. Um pouco mais adiante, jovens ociosos fumavam haxixe de olhar fixo na imensidão do mar. Sonhavam, provavelmente, com as Canárias, onde demandaram muitos dos seus compatriotas, após viagens atribuladas, quase nunca legais.

Do mar alto chegavam pequenos barcos, preparando-se para ganhar a barra. Tarefa bastante ingrata, como pude constatar. Houve quem tivesse de esperar o desfecho de uma série de ondas, para, no intervalo que antecedia a próxima vaga, entrarem em segurança na baía, puxando depois o barco para a praia onde estavam varados dezenas de outros, todos de madeira, todos de cor verde, ocupando o areal na totalidade. O pescado que ao longo do dia ali se descarregava era de imediato comprado por revendedores que o levavam até à lota, situada a menos de cinquenta metros, de onde, carrinhas com arcas frigoríficas, o transportavam para bem longe.

Todos ali tinham o seu espaço, a sua função. Carroças de madeira puxadas por cavalos e mulas transportavam as redes e os motores, das casas dos pescadores para a praia e desta para aquelas. Quando algum dos barcos se avariava, recorria-se aos botes de borracha disponibilizados pelos serviços de apoio portuário.

Na praia, vendedores de bebidas e de peixe grelhado com sopa de marisco asseguravam o alimento, pois havia quem passasse ali o dia todo. Muitos dos pescadores mostraram relutância em serem fotografados. Se um me encorajava a disparar o obliterador, logo outro dizia para não o fazer, pois «estamos no Saara Ocidental» e «aqui as fotografias não são permitidas». Na verdade, não sabia muito bem como reagir a tudo aquilo.

Eram muitas as casas desocupadas numa cidade dominada por um farol que os locais, curiosamente, designavam “castelo dos portugueses”. Diante dele, implantada numa praceta situada entre a biblioteca e o maior dos vários quartéis da cidade, erguia-se uma réplica de um padrão português, ali colocada por iniciativa da Câmara Municipal de Lagos, cidade geminada com Bojador. Lamentavelmente, o monumento não tinha uma única explicação indicativa da importância deste ponto da costa africana e do grande feito que foi ultrapassá-lo.

“Vontade política para negociar de boa-fé”; “solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável”; “aplicação das resoluções do Conselho de Segurança 1954 e 1983”. Foi com cadernos de intenções desse teor que, em 2006 e 2007, sob os auspícios da ONU, se desenrolaram três ciclos de negociações, entre as partes interessadas na questão do Saara Ocidental. Apesar do reencontro, após um interregno de sete anos, e de um novo périplo pelo território de Peter van Walsum, enviado pessoal do secretário-geral da ONU para o Saara Ocidental, as reivindicações não tinham mudado.

De um lado, tínhamos Marrocos a propor – no que considerava como uma “ocasião histórica” – a negociação de um plano de autonomia que previa um Governo, um Parlamento e um sistema judicial no Saara Ocidental, reservando para o Estado marroquino os atributos de soberania (moeda e bandeira), assim como a Defesa e os Negócios Estrangeiros. O ministro marroquino Taib Fassi Fihri fazia depender o acordo das garantias de segurança. «Paira sobre nós a ameaça terrorista. Temos todo o interesse em acelerar a solução do problema para trabalhar depois conjuntamente sobre a estabilidade da região», dizia. Nesse seu desiderato, Marrocos contava, como sempre, com o apoio da França.

Joaquim Magalhães de Castro

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