Entre Fez e o Atlas

Costa da Memória

Entre Fez e o Atlas

Continuamos em Fez, não muito longe da muralha da cidade. Um homem que transportava uns tapetes entrou no campo de visão da objectiva da minha câmara fotográfica quando esta enquadrava um pormenor do intrincado rendilhado tão próprio da arquitectura local. Nada agradado por eu ter pressionado o obturador no preciso momento em que passava por baixo da arcada em foco, protestou veementemente. Mas a esse bastou um “excusez-moi” bem redondo para lhe devolver à cara o sorriso, se bem que forçado.

Se calhar são mesmo assim, pouco dados, os nativos de Fez. Quem o poderia dizer, se fosse vivo, era o coitado do D. Fernando, cujos ossos moídos estiveram dentro de um caixão pregado à muralha numa dessas afamadas portas. Feito cativo na sequência do desastre de Tânger, aquele que ficou conhecido como o Infante Santo, seria transferido para Arzila e, como o resgate não se fazia (a condição exigida era a entrega de Ceuta), foi levado para as masmorras de Fez, capital imperial de então, onde viria a falecer, em 1443. Depois de lhe terem arrancado as vísceras e enchido o corpo com sal, murta e loureiro, penduraram-no nas ameias da fortaleza, frente ao paço imperial, com as pernas atadas a uma corda presa à muralha e com a cabeça virada para baixo, a servir de alvo a todos os que lhe quisessem atirar com pedras ou com insultos. Deve ter sido numa porta como aquela onde vi um vagabundo deitado, como se estivesse morto – imagem costumeira nas cidades desse Al Magrib de profundos contrastes. A ossada do infante seria resgatada pelo seu tio Afonso V, após a tomada de Arzila, e jaz hoje, como se sabe, no Mosteiro da Batalha.

Mas nem sempre foi conflituosa a relação dos portugueses com Fez. Em 1538 seria assinada a paz entre os dois reinos, uma paz que durante mais de uma década permitiu intercâmbios que ainda hoje perduram. Os bordados produzidos na cidade – sabia-o Hassan e a generalidade dos marroquinos – «são de origem portuguesa». Mas tanto os bordados de Fez como os curtumes de Meknes (outra das capitais imperiais), assim como a cidade santa de Moulay Idriss e as ruínas da romana Volubis, teriam de ficar para uma outra visita, pois o nosso caminho continuava para Sul.

Sefrou, à semelhança de Fez, albergou em tempos uma vasta e abastada comunidade judaica, cujo dinheiro resgatou do cativeiro inúmeros soldados portugueses. Nessa cidade, a uns trinta quilómetros da antiga capital imperial dos merínidas, cumpriam trabalhos forçados, tendo construído, entre outras coisas, aquela que é hoje conhecida como a Ponte dos Cristãos. Enfim, mais uma ponte a juntar às outras. Acrescente-se também, já agora, nova remessa de polícias patuscos com uniformes acima da medida. Desta feita, aguardavam-nos à entrada de uma aldeia chamada Reggada, outro dos topónimos com sonoridade bastante familiar.

Da surpreendente paisagem, havia a destacar os atrevidos cactos crescendo próximo dos sábios pinheiros, sendo essa já flora de transição, pois subíamos para o Médio Atlas que antecede o Alto Atlas e o Anti-Atlas, pois são três os Atlas marroquinos. Em breve chegaríamos a uma pequena floresta de cedros, povoada por macacos-de-Gibraltar, espécie em risco de extinção que apenas subsiste ali e no rochedo britânico que lhes deu o nome. Não se iluda o viandante com a imponência de algumas dessas árvores, pois, infelizmente, morrem aos poucos, também elas em sério risco de desaparecimento total.

Continuava a assistir ali a um Portugal virado do avesso. Depois do Alentejo e das Beiras, era agora a vez de ver retratado Trás-os-Montes, em particular o Parque Natural de Montesinho, em pleno mês de Outubro, com os seus pequenos e românticos bosques de choupos, salgueiros e carvalhos, que nos iriam acompanhar até ao palácio de Inverno do rei Mohamed VI, rodeando-o por completo em tonalidades de amarelo e castanho. Estávamos mesmo em Marrocos? Não propriamente.

Estávamos na dita “Suíça marroquina”, habitada temporariamente pelas elites de Rabat e Casablanca que ali vão fazer esqui, havendo para seu conforto uma estância equipada para a prática desse desporto, um aeródromo e barreiras protectoras e cancelas que de quando em vez fecham a estrada devido à abundância de neve. Falo de uma Ifrane de casas de telhados à europeia onde o panorama é definitivamente alpino. A alguns quilómetros desta “Ifrane suíça” existe uma Ifrane marroquina, talvez a Ifrane original, entre dois pequenos montes com rara vegetação. Aí, num tasco frente à mesquita, três minúsculas saladas e um pires de batatas fritas aos palitos custaram a Hassan uns módicos (e “suíços”) seis euros. Provavelmente, porque se fazia acompanhar por dois caras-pálidas. Ninguém o mandou encomendar comida sem perguntar primeiro; tão-pouco seria obrigado a pagar semelhante enormidade. Em Marrocos – regra número um – pergunta-se sempre o preço, seja o que for que se queira comprar.

Joaquim Magalhães de Castro

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