O antiteísmo – I

Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XCIV

O antiteísmo – I

Já nestas páginas falámos várias vezes de Deísmo, uma concepção filosófica naturalista que defende a criação do universo por uma inteligência superior, a qual pode ser Deus (ou deuses), mas também pode não ser. Essa acção criadora exercera-se através da razão, do livre pensamento e da experiência pessoal, não através dos sistemas usados pelas religiões teístas como a revelação ou a tradição. Aqui surge uma vez mais o conceito de Teísmo, a crença na existência de deuses, seja um (monoteísmo), vários (politeísmo) ou um acima de todos os demais, supremo (henoteísmo). É uma crença, não uma religião, o suporte desta do ponto de vista da assunção da ideia de Deus(es). As religiões podem ser, assim, teístas, deístas ou panteístas, por exemplo, entre outras formas.

O conceito de antiteísmo aparece pela primeira vez em 1788. A primeira definição é de 1833, pelo “Oxford English Dictionary”, que considera antiteísta todo “aquele que se opõe à crença na existência de divindades”.

Na sua evolução, a concepção antiteísta baseia-se no princípio de autoridade formulado pelo anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Este sustentava que o poder político se apoia na crença num deus que origina, encima e lidera a hierarquia da dominação, divindade essa que seria o reflexo e justificação da existência de Governo, e vice-versa. A autoridade, isto é, a predisposição para a obediência ao Estado, estriba-se na crença da existência de um ser superior, supremo, a qual cria uma dependência do ser humano em relação a essa entidade transcendente, a que designam por Deus. Nessa predisposição para a obediência e submissão, o homem não poderia assumir a sua própria humanidade e, desta forma, coartaria a sua liberdade. A religião, o sistema de suporte dessa entidade superior, negaria, ou limitaria, deste modo, a realidade do próprio homem e aliená-lo-ia, na forma do desprezo da realidade, da natureza, em detrimento de uma adoração e valorização de metafísica irreal.

Estas concepções anarquistas são o fundamento do antiteísmo.

Contra a religião

Os anarquistas não apresentaram o antiteísmo como obrigatório ou incontornável. Antes o vêem como parte da educação e consciencialização voluntária do ser humano, no quadro de uma filosofia naturalista e de uma educação baseada em valores racionalistas. A fundamentação do anarquismo foi desenhada por filósofos como o russo Mikhail Bakhunin (1814-1876) e o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), para além do citado Proudhon. Neste viveiro anarquista medrou com efeito o antiteísmo.

Mas então o que é o antiteísmo? É uma concepção que defende que não somente Deus não existe como também é contra a ideia da existência de Deus. Ou seja, para um antiteísta, Deus não existe de forma alguma, nem como ideia nem como conceito. Há, pois, uma clara oposição à religião. Mas refira-se que, conforme existem vários tipos de ateus, como veremos brevemente, também existem diferentes tipos de antiteísmo. Alguns dos adeptos deste último, opõem-se à ideia de Deus, mas tão apenas isso, afirmando que qualquer crença em Deus é prejudicial à sociedade, pelo que o correcto, para esses antiteístas, será atacar e denunciar as crenças teístas, de forma a erradicar qualquer tipo de religião. Ou pelo menos reduzir os danos que a religião traz, asseveram. Estes antiteístas assumem que é assim que está correcto, reduzir o dano das religiões acabando com estas, agindo em função disso. O grande problema reside no facto de que não existem “normas” ou princípios morais absolutos no antiteísmo, como no ateísmo, de certo modo, pois é o relativismo que impera.

Os ateus não acreditam em qualquer deus ou deuses que sejam, enquanto os antiteístas operam contra a ideia da existência de Deus, naquilo que se designa de “ateísmo forte”. Todos os antiteístas são ateus, mas nem todos os ateus são antiteístas, todavia.

Qual a diferença entre ateus e antiteístas?

Existe uma diferença entre ambos, sim. Antes de tudo mais, existem vários tipos de ateus. Só para mencionar alguns tipos, para além dos que apenas afirmam que são, há os que afirmam, mas não sabem o que é, mas há também os que declaram que lhes falta crer em Deus, ou não sabem como crer. Outros, não sabem o que é acreditar tão pouco. Mas aos que lhes falta crer, por exemplo, conclui-se que assim nem afirmam nem negam a existência d’Ele, acabando por não sustentar qualquer posição. Há ateus que, por seu turno, não sabem se Deus existe, acabando por estar entre os que duvidam da Sua existência. Duvidam… Portanto, no ateísmo há os ateus mais convictos, mais fortes e teoricamente mais sólidos, há os mais hesitantes e com dúvidas, no que toca a negar ou crer que Deus não existe. Muitos ateus referem a falta de evidências da existência de Deus, ou nem sequer precisam de evidências. Outros relacionam apenas Deus com o Antigo Testamento, por exemplo, tornando-o antiquado e anacrónico, totalitário, sem mais. E por isso afastam-se d’Ele, ou negam-nO, tomando apenas por esse filtro literal e sem contexto, actualização e, acima de tudo, conhecimento. Associar algo assim de forma simples é, no mínimo, simplório e errático, associar a culturas antiquadas é anacrónico e abusivo, ferindo de todo qualquer argumento.

Por agora, o antiteísmo é o nosso tema de eleição. E não o devemos confundir com anti-religião ou com o ateísmo. O antiteísmo é, na essência, a oposição activa ao teísmo. As aplicações do termo são várias, além dos contextos epocais e geográficos, das conjunturas históricas. Em contextos seculares, ou laicizados, o antiteísmo refere-se à oposição directa e crítica à religião organizada ou à crença em qualquer deidade, enquanto que em contextos teístas (normalmente politeístas) pode assumir oposição, por vezes, a um deus ou deuses específicos. O antiteísmo é a oposição activa e de viva voz à crença em qualquer deus ou deuses, bem como às instituições criadas em redor de uma crença numa deidade. Aqui temos o plano institucional, as igrejas, os cultos e rituais, as formas organizadas históricas de culto.

O antiteísmo não é uma forma de ateísmo passivo, como por vezes se insinua, pois comprazem-se na acção de denúncia dos pretensos erros, absurdos e das pretensões dos teístas. Todos os deuses são falsos e todo e qualquer benefício que resulte da acção ou da crença dos/nos deuses não compensa pelo dano que essa mesma crença provoca nos indivíduos e na sociedade. Alguns antiteístas não negam que possam existir alguns benefícios para algumas pessoas devido à sua crença em deidade, mas negam em absoluto que a fé em ideias ou escritos religiosos possa ser algo bom.

Vítor Teixeira 

 Universidade Católica Portuguesa

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