O Deísmo moderno

Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – LVII

O Deísmo moderno

O Deísmo existe desde a Antiga Grécia, pelo menos desde o século V a.C. Era, porém, colocado não em relação a um só deus, mas a vários deuses, pois a cultura e religião eram politeístas. Passou para Roma, onde o encontrou o Cristianismo, que o absorveu, igualmente. Permaneceu oculto durante séculos, submerso na cultura cristã, mas latente entre alguns filósofos. Mas será a partir do século XVII que o Deísmo atingirá a sua plenitude, marcando autores como Hobbes, Rousseau e Voltaire, mas também o sentimento religioso dentro da Igreja Católica. Robespierre, no violento “período jacobino” (1793-94) da Revolução Francesa, iniciada em 1789, decretou mesmo o “culto ao Ser Supremo”, marcadamente deísta, frente ao ateísmo. Nos Estados Unidos, “pais fundadores da nação” (1776), como J. Adams, E. Allen, B. Franklin, Th. Jefferson, J. Madison, G. Washington e Th. Paine, foram fortemente influenciados pelo Deísmo, que teve grande influência nas estruturas políticas americanas, como a separação da(s) Igreja(s) e do Estado, ou a liberdade religiosa.

No Deísmo acredita-se em um Deus. Mas não se acredita que se possa afirmar que se conhece a vontade de Deus, a Sua Palavra ou a forma como Ele quer que ajamos do ponto de vista moral. A ciência não o prova, também, afirmam os deístas. Por isso, usam a lógica para explicar estas questões metafísicas. As religiões que o provem ou afirmem conhecer são invenções, segundo os deístas. Estes acreditam que existe um criador, na lógica da complexa estrutura do universo. Mas o Deísmo não é marcado pelo Absoluto em termos de explicações ou de concepções: os deístas têm liberdade de interpretação. Com efeito, uns consideram Deus um criador, activo, transcendente; outros tornam-nO passivo, neutro, sem transcendência, um gerador do Universo, que mantém. Alguns concebem-no como mortal, uma entidade tecnológica.

O grande filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant, na sua “Crítica da Razão Pura”, escreveu sobre o Deísmo: “Como estamos acostumados a entender, pelo conceito de Deus, não apenas uma natureza eterna, actuando cegamente, como raiz das coisas, mas um Ser supremo, que deve ser o criador das coisas pela inteligência e a liberdade, e só este conceito nos interessa, poderíamos em rigor negar ao deísta toda a crença em Deus e deixar-lhe apenas a afirmação de um ser originário ou de uma causa suprema. No entanto, como ninguém deve ser acusado de pretender negar inteiramente alguma coisa, só por não se atrever a afirmá-la, é mais justo e indulgente dizer que o deísta crê num Deus, ao passo que o teísta crê num Deus vivo (summa intelligentia)”. Kant, em plena moda do Deísmo, devolve a Deus a sua posição de criador em inteligência e transcendência, activo e supremo, não passivo e relativizado. Mas nem todos pensavam assim…

 

Um Deus “a la carte”?

Para os deístas, o problema da existência de Deus é uma questão de razão, não de revelação (divina), dogma, mistério ou tradição. Deus não intervém no mundo, revela-se apenas nas leis da natureza, na ciência. Por isso criticam as religiões reveladas, onde Deus é activo e interventor, considerando irreligiosos os que creem num Deus assim… Por exemplo, no que toca à vida após a morte, cada qual deve formular a sua opinião, pois não existem provas que confirmem ou refutem. Cada pessoa é um livre pensador, individualizado e diferente, apenas tendo a aceitação do princípio da não interferência de Deus como comum a todos os indivíduos. Deus provavelmente nem sabe da existência dos homens, diziam alguns deístas, Deus que não é, aliás, nem castigador nem juiz do mundo… Há, na realidade, uma variação de conceitos e ideias entre os deístas, todos diferem entre todos, embora tenham alguns valores comuns, como a crença que anjos e demónios são fraquezas da mente humana, que a lógica deita por terra facilmente. Voltaire falava de uma Providência geral, em vez de Deus, sendo o conceito de interferência mais aceite entre os deístas. Em suma, não existe religião no Deísmo, ou entre os deístas, além de assumirem que Deus não interfere e é passivo, é ciência e lógica. A interpretação é livre e individual, natural, portanto.

Muitos são os cientistas e pensadores conotados com o Deísmo, como Galileu (1564-1642) e Newton (1642-1726/7). Hobbes (1588-1679) e Spinoza (1632-1677), entre outros, contribuíram para desenvolver as teorias deístas, além de as difundir. Edward Herbert (1583-1648), o “pai do Deísmo inglês”, resumiria assim o Deísmo: “Deus existe, e pode ser cultuado pelo arrependimento e por uma vida de tal modo digna, que a alma imortal possa receber a recompensa eterna em vez do castigo”. Na sua senda, outros defenderiam que não existe mistério no Cristianismo, ou na ideia de Deus, pois tudo pode ser equacionado e validado pela razão. O que não for comprovado pela razão, não existe ou deve ser rejeitado. Mas será no século XVIII, auge do Iluminismo, ou Ilustração (ou Luzes), que o Deísmo se tornará preponderante no meio científico. Voltaire trouxe-o de Inglaterra, em 1726, difundindo-o na França e nos meios filosóficos europeus. Estava-se na Era da Razão, da Liberdade, num contexto propício às ideias deístas. Converteu-se ao longo de Setecentos numa corrente de pensamento muito importante, mas que declinaria no século seguinte. Embora as crenças e ideais tenham permanecido até aos dias de hoje.

O Deísmo chegou a influenciar os ateus, surgindo o Ateísmo deísta. Os ateus, nesta concepção, consideram-se como deuses, cada qual o deus da sua própria vida, mas não como transcendente, omnipotente ou metafísico. A ausência de grilhões a dogmas ou mitologias tornou o Deísmo sedutor para muitos ateus e também para os cientistas, muitos lhe restando culto no altar da Razão. O cepticismo (questionar crenças com base no método científico) está também associado ao Deísmo, como o Panteísmo (tudo e todos são um Deus, Deus e Universo são idênticos) e o Pandeísmo (Deus é o Universo e vice-versa), a “mistura” de Deísmo e Panteísmo.

A Igreja claro assestou baterias contra esta relativização, livre e individualista, da concepção de Deus e da própria religião, da fé, portanto. Muitas campanhas foram ácidas e verrinosas, anti-racionalistas até, no esforço anti-deísta que muitos católicos e protestantes moveram contra o Deísmo. Foi mesmo considerado como ateu por muitos cristãos, o que criou confrontos ideológicos e debates históricos.

O relativismo do mundo contemporâneo criou novos suportes para uma adesão ao Deísmo, embora poucos saibam o que é ou se assumam como tal. A liberdade de cada um intuir e definir Deus e a moral – as velhas frases “eu cá tenho o meu Deus”, “eu cá tenho a minha fé”, “a minha moral”, etc. – definem a corruptela em que o Deísmo caiu nos tempos modernos. Os verdadeiros deístas, conhecedores do Deísmo, são menos do que a enorme multidão que tudo relativiza e individualiza, num tempo em que cultura e religião nem sempre estão bem definidas ou mesmo devidamente articuladas, sem confusões….

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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