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Semanário Católico de Macau

Rota dos 500 Anos-Chegados a Bequia
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Chegados a Bequia

É com um misto de prazer e descontentamento que vos digo que já estamos nas Granadinas, mais propriamente na ilha de Bequia. Com prazer, por termos seguido caminho; descontentes, por termos deixarmos uma das ilhas que melhor nos acolheu até agora e onde nada faltava, desde boa comida a bom pão.

Na semana passada explicava que deixaríamos Martinica directamente para o sul da ilha de São Vicente, mas já durante o caminho mudámos de planos e decidimos não parar em São Vicente, vindo directamente para esta ilha antes de seguirmos para Sul daqui a uns dias. Na nossa decisão pesou o facto de estar previsto mau tempo (três ondas tropicais consecutivas que traziam ventos fortes, muita chuva e mar grande) e de ao pararmos em São Vicente termos de ali ficar vários dias, algo que não estava planeado, devido aos ancoradouros não serem seguros. Daí termos decidido vir directamente para Bequia onde ancorámos em segurança durante a noite e no dia seguinte mudámos de local para ficarmos mais protegidos e mais perto da costa. É assim que procedemos sempre que chegamos a um local durante a noite que não conhecemos, não facilitando em termos de navegação. Baixamos âncora logo que temos profundidade suficiente e, durante a luz do dia, mudamos para um local que seja melhor, se tal for necessário.

A velejada de Martinica para Sul foi – como se previa – calma, mas sempre com ventos fortíssimos e mar grande. Saímos depois de jantar e chegámos, no dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, pelo que foram quase 24 horas seguidas de navegação, entre ilhas, sempre acima dos seis nós de velocidade. Para uma tripulação como a nossa é algo muito cansativo. Felizmente, tudo correu bem e nada se partiu.

De Martinica para St. Lucia foram cerca de cinco horas de vela rápida mas tranquila, visto o mar ainda não estar muito agitado e os ventos estarem dentro do previsto, entre os 15 e 20 nós dentro do canal. Em toda a ilha de St. Lucia, durante a noite, tivemos ventos que nos permitiram navegar a 3, 4 nós de velocidade, algo que não esperávamos. Era previsto usar o motor e vela para passar a ilha de St. Lucia e chegar ao canal que separa esta da ilha de São Vicente mas não foi necessário. Na travessia deste canal, conhecido pelos seus ventos fortes e correntes acentuadas, também não foi necessário o uso de motor e as velas andaram sempre risadas ao máximo. Mesmo assim houve alturas em que se chegou aos sete nós! Já a travessia da ilha de São Vicente teve de ser feita à vela e a motor porque os ventos eram muito fracos. A ilha é demasiado alta e corta os ventos vindos do Atlântico.

Quando nos aproximámos do canal que separa São Vicente da ilha de Bequia, e como eram apenas mais 10 milhas e a tripulação estava desejosa de descansar e dormir, decidimos não desligar o motor e seguir com apenas a vela da frente levantada. A vela ia 70 por cento aberta e o “capitão” pensava que fosse suficiente porque o vento estava muito fraco. Acontece que mal deixámos de estar protegidos pela ilha o vento começou a entrar em rajadas tão fortes que o nosso veleiro começou a adornar quase 40 por cento (tudo o que passa de 45 por cento já mete água dentro do barco). Isto deu-se apenas com a vela da frente, imagino o que teria acontecido se a vela principal estivesse também içada.

Estando sozinho no leme e a restante tripulação a tentar dormir depois de termos jantado ainda em tempo calmo, tentei equilibrar o barco apontando mais ao vento e, ao mesmo tempo, tentando manter uma rota que nos levasse directamente ao destino. Afinal eram apenas 10 milhas. Felizmente o vento, apesar de forte (sempre acima dos 30 nós), era estável e constante, o que ajudou a manter uma rota certa. Apesar da inclinação ser acentuada e as ondas muito altas, a navegação até não foi muito desconfortável.

O barulho do barco na água e do vento na vela, juntamente com o barulho do motor que ia ajudando a manter algum equilíbrio também sempre que o vento oscilava um pouco, era ensurdecedor. A minha mulher, passados alguns minutos e já com a bebé a dormir, veio ao poço perguntar se estava tudo bem porque se assustou com a sensação de velocidade que se sentia dentro do barco. Nessa altura íamos a fazer quase nove nós de velocidade, sendo que a velocidade do nosso veleiro (hull speed) é, no máximo, de sete. Fizemos a travessia do canal em menos de 50 minutos.

Entretanto, temos estado a descansar e a tentar esperar que o mau tempo passe para que possamos seguir para Sul. Nos dias seguintes à nossa chegada vimos mais alguns barcos conhecidos chegar também em busca de protecção, nomeadamente um veleiro de uma família brasileira que conhecemos em St. Anne, o Arthi.

Daqui iremos rumar mais ao centro das Granadinas, visitando as ilhas de Canuoan, Union e Tobago Kays. Depois Carriacou e, finalmente, Grenada.

João Santos Gomes

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