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«A liberdade religiosa continua a deteriorar-se»
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Catarina Martins, Responsável pela Secção Portuguesa da Fundação ajuda à Igreja que sofre (AIS)

«A liberdade religiosa continua a deteriorar-se».

O relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo foi apresentado no passado dia 22 de Novembro. O documento mostra que há mais países onde esta liberdade está ameaçada ou não existe, e que a situação se está a deteriorar, inclusivamente na Europa. Catarina Martins, responsável pela secção portuguesa da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), que é a entidade que elabora este relatório, em entrevista à Família Cristã fala de uma situação preocupantes em todo o mundo, que apenas melhorou no Iraque e na Síria, uma vez libertos da ocupação do Daesh.

FAMÍLIA CRISTÃO que se destaca neste relatório?

CATARINA MARTINS– Este relatório faz a análise da liberdade religiosa no mundo entre Junho de 2016 e Junho de 2018. Infelizmente chegamos à conclusão que a liberdade religiosa continua a deteriorar-se em muitos países. Fazendo uma comparação com o último relatório, há mais quatro países em que a liberdade está a deteriorar-se.

FCE não melhorou em nenhum dos outros que estavam negativos?

C.M.– De forma significativa não. Há uma ligeira melhoria no Iraque e na Síria, pois como houve libertação do espaço ocupado pelo autoproclamado Estado Islâmico, houve a possibilidade de regresso das famílias cristãs e de outras minorias a suas casas. É uma ligeira melhoria, mas não podemos dizer que a situação tenha mudado significativamente. É talvez uma das poucas boas notícias deste relatório, a libertação da planície do Nínive onde a comunidade cristã vivia, porque era uma situação que não prevíamos em 2016. Mencionávamos, aliás, que se a situação continuasse como estava naquela altura, poderíamos estar a assistir ao fim da presença do Cristianismo nesta zona do globo num espaço de cinco anos. Essa perspectiva mudou e neste momento estamos com boas perspectivas de que a situação se possa restabelecer, mas sabemos como o Médio Oriente é uma situação complexa e a verdade é que a comunidade cristã continua sem trabalho e sem segurança.

FCE que mais mostra o relatório?

C.M.– Este relatório mostra-nos que aqui na Europa há um aumento da islamofobia, do anti-semitismo; de uma maior perseguição no continente africano, em que há cada vez mais um maior número de grupos radicais a actuar, em que a filosofia é muito semelhante ao autoproclamado Estado Islâmico, onde nenhuma minoria pode estar presente. Estes dois anos foram anos de agravamento da liberdade religiosa, num ano em que estamos a assinalar setenta anos sobre a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em que a liberdade religiosa está contemplada. Estamos, passados setenta anos, a viver uma situação extremamente delicada, como o anti-semitismo vivido há setenta anos na Europa. Há muitos judeus a decidirem sair da Europa e ir viver para Israel.

FCE porque é que, setenta anos depois, continuamos a incorrer nos mesmos erros?

C.M.– Porque estamos a viver tempos muito complexos, em que a liberdade religiosa – é outra das conclusões deste relatório – é vista com uma cortina de indiferença pelo Ocidente. Aqui na Europa a religião é uma coisa do foro pessoal, não é para estar no espaço público. Todas as demonstrações públicas de fé estão a ser reprimidas. Cada vez é menos olhada com bons olhos esta presença da religião no nosso dia a dia. Estamos a assistir a um retrocesso em muitas situações. Os refugiados que chegam são olhados não como um ser humano que precisa de ajuda, mas como alguém que vem tomar o meu espaço. Estamos a viver tempos em que o respeito pelo outro está a degradar-se por toda a evolução que o mundo tem tido nos últimos anos. Os conflitos mundiais provocam estas massas de pessoas que se deslocam de um país para o outro e que provocam conflitos dentro dos países de destino, porque as coisas não são bem explicadas, porque não há uma política de olhar para estas pessoas que precisam de ajuda, porque não temos conseguido resolver estes problemas que a nossa sociedade tem. Quem concebeu a Declaração nunca pensou que setenta anos depois poderíamos estar a viver de novo problemas de anti-semitismo na Europa. Acho que o mundo evoluiu de uma forma que nos levou a que esta questão esteja novamente na ordem do dia e não haja respeito pelo outro.

FCUma perseguição religiosa que não se limita aos cristãos?

C.M.– Não, não. Embora os cristãos sejam o grupo mais perseguido, temos casos de outras religiões que são perseguidas. Este relatório, que olha para 196 países do mundo, começa por analisar a Constituição e o que dizem os documentos de cada país sobre a liberdade religiosa. Depois, vê os incidentes que podem haver em cada país, e as perspectivas para a liberdade religiosa. Todo este relatório refere que a liberdade religiosa está ameaçada em muitos países do mundo, e de ano para ano são mais os países. Neste ano, em comparação com 2016, temos mais quatro países onde a liberdade religiosa está a deteriorar-se para todas as minorias. Quando somos uma minoria num país, acabamos por ser mais frágeis, vulneráveis e expostos a estes perigos. Nesta sociedade em que cada vez mais há radicalismos, não só em relação à religião, mas em vários dos tópicos em cima da mesa, cada vez somos mais fundamentalistas e temos menos respeito pela diferença do outro.

FCHá correlação entre países com menos liberdade religiosa e aqueles cuja Constituição se envolve mais na religião?

C.M.– Nem sempre, porque temos países em que a Constituição não se envolve na questão religiosa e depois, na prática, há pouca liberdade, porque há grupos fundamentalistas. Mas sim, quando a Constituição determina uma religião, há menos liberdade religiosa, porque só há uma maneira de ver as coisas, muito estrita. Estou a pensar nos países em que a lei islâmica está na Constituição e a sharia rege todo o país. Nesses países, todas as minorias estão em perigo, não apenas os cristãos. Muitos deles nem podem exprimir livremente a sua religião, porque são logo um alvo de ataque, perseguição e discriminação.

EUROPA CONTINUA A SER UMA «LUZ NO MUNDO»

FCO que podemos fazer para construir uma realidade diferente?

C.M.– Bom, antes de mais cumprindo a Declaração dos Direitos Universais do Homem. Eu tenho de respeitar a diferença do outro e olhar para todas estas pessoas sem as desrespeitar. Tem de haver uma mudança de atitude na forma como os jovens são educados na escola, na forma como os políticos encaram estas questões da religião. Não será fácil, pois estamos a chegar a um ponto no mundo com todos estes extremismos… e vemos todas estas pessoas que estão a ser eleitas e são mais radicais. Este relatório é importante, e é por isso que o vamos entregar na Assembleia da República e fazer chegar ao Governo e ao Presidente da República, porque é preciso que os nossos políticos tenham consciência do que é a realidade, para podermos depois mudar e actuar da melhor forma. Na minha humilde opinião, é começar pelos jovens e incutir desde pequenos o respeito pelo outro. Só assim podemos fazer. Se continuarmos como estamos, o clima de falta de liberdade religiosa em tantos países vai continuar. Se continuarmos neste caminho, vamos ter no próximo relatório mais quatro ou cinco países até chegarmos a uma altura em que não haverá respeito pela liberdade religiosa e convicções de cada um.

FCPorque é que este relatório deve interessar aos portugueses, já que no nosso país a questão da liberdade religiosa coloca-se bastante menos que noutros países?

C.M.– Porque vivemos num mundo global e temos de olhar para este relatório e ajudar. Um dos pontos que o relatório menciona é a forma como estes povos olham para nós, Europa, porque nós continuamos a ser uma luz no mundo, no sentido em que continuamos a respeitar os direitos dos homens e o básico está assegurado pelo Estado. Temos segurança, tanto quanto, mas continuamos a ser o melhor continente para viver. Todas as pessoas que vivem com estes problemas olham para nós como alguém que pode ajudar e resolver as situações dos seus países. Em Portugal há liberdade religiosa, mas já começam a aparecer sinais de alguma discriminação relativamente à comunidade cristã e, apesar disso, continuamos a ser um país onde temos liberdade para expressar a nossa fé. Temos essa responsabilidade e dever para com os países que não a têm, e defender e batermo-nos para que todos os outros possam ter e as pessoas possam expressar livremente a sua fé. A ignorância é terrível, e se não soubermos o que se passa no mundo não podemos actuar. Por isso, levar este documento a estas entidades oficiais é fundamental para que as autoridades possam actuar nas instâncias próprias em que cada Governo tem poder de influência.

FCTemos assistido a um aumento de nacionalismos e populismos. Teme que em alguns anos possa haver mais países da Europa neste mapa?

C.M.– Se continuarmos como estamos hoje, temo que sim. Se olharmos para os casos de discriminação e perseguição de determinado grupo na Europa, eles têm aumentado na Europa. Por isso, a continuar isto, dentro de alguns anos teremos mais algum país nesta lista, sem dúvida!

FCE isso assusta-a?

C.M.– Assusta sempre, porque na nossa geração vivemos sempre em paz, sempre com a sensação de liberdade, de agirmos como queremos, com respeito pelo outro. Pensar que podemos ser identificados pela nossa religião no passaporte, como acontece no Iraque, é assustador. Sei o que se passa em tantos países do mundo, em que este desrespeito pode levar à morte dos elementos dessa comunidade. Assusta vermos uma Europa que renasceu depois de duas guerras mundiais tão violentas para a Europa, assusta perceber que nos esquecemos de tudo o que se passou e estarmos a cometer os mesmos erros. Honestamente, espero estar enganada e tudo não passar de um susto e as coisas se resolvem, mas digo muitas vezes o que um bispo do Paquistão me disse uma vez: «Temo que a Europa só acorde de vez quanto tiver martírio no próprio continente». A primeira vez que ele me disse eu duvidei, mas a verdade é que estamos a caminhar para essa situação, em que só despertamos quando o problema estiver em nossa casa. Se calhar este bispo disse-me isto há sete ou oito anos, e de facto as coisas parece que se encaminham na direcção que ele disse, e é terrível porque eu também tenho responsabilidades. Cada um de nós tem esta responsabilidade de nos batermos contra esta situação.

DESTAQUE:«Se continuarmos como estamos, o clima de falta de liberdade religiosa em tantos países vai continuar. Se continuarmos neste caminho, vamos ter no próximo relatório mais quatro ou cinco países até chegarmos a uma altura em que não haverá respeito pela liberdade religiosa e convicções de cada um»

Ricardo Perna

 Família Cristã

Fotos: Ricardo Perna e Fundação AIS

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