A Igreja rejuvenesce

Carta da Congregação para a doutrina da fé

A Igreja rejuvenesce

Os dons hierárquicos e os dons carismáticos são “co-essenciais” para a vida da Igreja. É este o conceito fundamental ao redor do qual se desenvolve a carta da Congregação para a Doutrina da Fé “Iuvenescit ecclesia” (“A Igreja rejuvenesce”), apresentada a 14 de Junho na Sala de Imprensa da Santa Sé. A publicação do documento – a 15 de Maio, solenidade de Pentecostes – foi determinada pelo Papa Francisco no dia 14 de Março na audiência concedida ao cardeal prefeito D. Ludwig Müller, que assinou o texto juntamente com o arcebispo secretário D. Luís Francisco Ladaria Ferrer.

A carta é dirigida aos bispos e analisa “a relação entre dons hierárquicos e carismáticos para a vida e a missão da Igreja”. Os primeiros são os conferidos pelo sacramento da ordenação (episcopal, sacerdotal, diaconal), e os segundos são distribuídos livremente pelo Espírito Santo.

Em particular, o texto aprofunda as questões teológicas que derivam da relação entre instituição eclesial e novos movimentos e agregações, insistindo sobre a harmoniosa conexão e acerca da complementariedade dos dois sujeitos, sempre no âmbito de uma “participação fecunda e ordenada” dos carismas à comunhão da Igreja. Portanto, não se trata de “dons que autorizam a evitar a obediência à hierarquia eclesial” nem “conferem o direito a um ministério autónomo”.

Por conseguinte, “dons de importância irrenunciável para a vida e a missão eclesial”, os carismas autênticos devem visar “a abertura missionária, a necessária obediência aos pastores e à imanência eclesial”. Por isso, uma sua “contraposição ou justaposição” com os dons hierárquicos seria um erro. Com efeito, não é preciso opor uma Igreja “da instituição” a uma Igreja “da caridade”, porque na Igreja “até as instituições essenciais são carismáticas”, e “os carismas devem institucionalizar-se para ter coerência e continuidade”. Deste modo, ambas as dimensões “concordam juntas a tornar presente o mistério e a obra salvífica de Cristo no mundo”.

Portanto, as novas realidades devem alcançar a “maturidade eclesial” que inclui a sua plena valorização e inserção na vida da Igreja, sempre em comunhão com os pastores e em atitude de constante atenção às suas indicações. De facto, a existência de novas realidades – frisa a carta – enche o coração da Igreja de “alegria e gratidão”, mas chama-as também a “relacionar-se positivamente com todos os outros dons presentes na vida eclesial”, a fim de que sejam “promovidos com generosidade e acompanhados com vigilante paternidade” pelos pastores para “concorrer ao bem da Igreja e à sua missão evangelizadora”. De resto, “a dimensão carismática nunca pode faltar à vida e à missão da Igreja”.

Mas como reconhecer um documento carismático autêntico? O documento evoca o discernimento, tarefa que é de “pertinência da autoridade eclesiástica”, e indica alguns dos seus critérios específicos: ser instrumento de santidade na Igreja; comprometer-se na difusão missionária do Evangelho; confessar plenamente a fé católica; testemunhar uma comunhão praticável com toda a Igreja, acolhendo com leal disponibilidade os seus ensinamentos doutrinais e pastorais; reconhecer e estimar os demais componentes carismáticos na Igreja; aceitar com humildade os momentos de provação no discernimento; obter frutos espirituais como caridade, alegria, paz, humanidade; observar a dimensão social da evangelização, cientes do facto que “a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade não pode faltar numa autêntica realidade eclesial”.

Além disso, a carta especifica outros dois critérios fundamentais a considerar pelo reconhecimento jurídico das novas realidades eclesiais, segundo as formas estabelecidas pelo Código de Direito Canónico. O primeiro é “o respeito pela peculiaridade carismática de cada agregação eclesial”, de modo a evitar “coerções jurídicas” que “mortifiquem a sua novidade”. O segundo concerne “o respeito do ‘regimen’ eclesial fundamental”, favorecendo “a inserção praticável dos dons carismáticos na vida da Igreja”, mas evitando que eles se concebam como uma realidade paralela, sem uma referência ordenada aos dons hierárquicos.

O documento da Congregação para a Doutrina da Fé evidencia também como a relação entre dons hierárquicos e carismáticos deve considerar “imprescindível e constitutiva a relação entre Igreja universal e Igrejas particulares”. Isto significa que os carismas são concedidos a toda a Igreja, mas que a sua dinâmica “só pode realizar-se no serviço a uma concreta diocese”. Não só: eles representam inclusive “uma possibilidade autêntica” para viver e desenvolver a vocação cristã de cada um, quer no matrimónio, no celibato sacerdotal ou no ministério ordenado. Também a vida consagrada “coloca-se na dimensão carismática da Igreja”, pois a sua espiritualidade pode tornar-se “um recurso significativo” tanto para o fiel leigo como para o sacerdote, ajudando ambos a viver uma vocação específica.

Na conclusão a carta exorta a olhar para Maria, “mãe da Igreja”, modelo de “plena docilidade à acção do Espírito Santo” e de “límpida humildade”: com a sua intercessão, formulam-se votos de que “os carismas abundantemente distribuídos pelo Espírito Santo entre os fiéis sejam docilmente acolhidos por eles e produzam frutos para a vida e a missão da Igreja e para o bem do mundo”.

In L’Osservatore Romano

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