Ajuda preciosa

O nosso amigo Jeff, do veleiro Selah, já nos entregou o rádio de onda curta. Como prometido, veio preparado para o ligarmos ao computador e, assim, termos acesso ao sistema Winmor para envio e recepção de e-mails em alto mar, principalmente quando atravessarmos oceanos. Não servirá, ao contrário do que poderão já estar a pensar, para enviar fotografias ou e-mails muito extensos, nem para verificar o Facebook. Para nós, que vivemos “fora da rede” e à margem do que a sociedade moderna nos pode oferecer, o acesso à Internet serve, essencialmente, para sabermos os prognósticos da meteorologia. O Facebook e as fotografias podem esperar até estarmos em terra.

Ainda não instalámos nem testámos o rádio, mas o mais importante foi conseguido: encontrar um especialista em electrónica que procedesse à alteração do aparelho. Infelizmente não temos dinheiro para comprar um novo. Os rádio-amador de barcos custam dezenas de milhar de patacas, sendo que nenhuma das três empresas de telecomunicações de Macau (CTM, Three e Smartone) nos apoiou quando solicitámos apoio para as ligações telefónicas e de Internet.

Com a preciosa ajuda da tripulação portuguesa do veleiro Maião abordámos outro problema que vinha a ser adiado, também devido às nossas restrições orçamentais.

O sistema de arrefecimento dos motores a gasóleo dos veleiros é constituído por um circuito de água doce (ou líquido de refrigeração similar ao dos automóveis) e por um sistema de água salgada, que funciona injectando água salgada através de uma bomba (mecânica ou eléctrica) que passa por um conjunto de tubos internos – primeiro dentro do bloco do motor e do sistema de arrefecimento por água doce, passando depois para o exterior através de tubos que misturam a água salgada com o fumo do escape. A mistura dos diferentes elementos sai pela popa do veleiro. A cor do fumo é um dos melhores indicadores do normal, ou anormal, funcionamento do motor. O Dee, por exemplo, depois de atingir a temperatura normal de funcionamento continua a expelir algum fumo branco junto com a água, sinal de que está a consumir óleo em maior quantidade do que o normal, o que terá de ser resolvido atempadamente. O problema pode estar relacionado com a injecção do gasóleo.

O misturador que junta a água ao fumo era feito de alumínio e os tubos exteriores de ferro, revestidos com amianto – um material isolador de calor, pois as temperaturas ultrapassam os cem graus centígrados. Devido ao desgaste um dos tubos estalou e deixava sair fumo. Quando o interior do compartimento do motor quebrou, recorri a um pedaço de mangueira, que ficou seguro com umas braçadeiras, sabendo de antemão que teria sempre de resolver o assunto de forma definitiva.

Com a ajuda da tripulação do Maião, composta por um mecânico e um serralheiro mecânico, colocámos a obra em marcha. Utilizámos tubos de canalização em ferro por onde o fumo é misturado com a água do mar, tendo em atenção que a água injectada não poderia entrar no bloco do motor, devendo ser enviada directamente para a panela de escape. O ideal seria que a água ajudasse a arrefecer o fumo, desde o momento em que este saísse do bloco do motor, mas a extensão do tubo acabou por ficar mais longa do que o necessário, pelo que tivemos de isolar o tubo para que não emanasse temperaturas elevadas para dentro do compartimento do motor. O isolamento foi feito com fibra, igual à que se utiliza para isolar as condutas de ar-condicionado, e coberto com uma cinta de fibra-de-vidro resistente a altas temperatura. Ainda assim, a temperatura atinge perto dos cem graus centígrados. Para já não foi possível adquirir mais material isolante, mas assim que houver disponível irei voltar a esta empreitada. Quanto menor for a temperatura do ar no compartimento do motor, melhor será o rendimento do mesmo.

O “novo” sistema de arrefecimento e de mistura do fumo com a água do mar ficou em pouco mais de cem dólares americanos. Se tivesse de comprar um novo não desembolsaria menos de mil e 500 dólares.

É também esta camaradagem entre quem vive no mar que leva muitas pessoas a mudarem de vida todos os anos. Temos desfrutado por diversas vezes da ajuda de amigos e desconhecidos, dando-se quando é mais necessária. Claro que também estamos sempre disponíveis para ajudar quem precisa da nossa ajuda, sem esperar nada em troca. Já interrompi refeições ou deixei de descansar para prestar auxílio a um amigo ou a um barco em dificuldades. Recentemente ajudei dois amigos que estavam com problemas num gerador eólico e num motor fora de bordo, respectivamente.

Entretanto, nas conversas tidas durante as refeições e nos momentos de descanso ao final do dia, decidimos rumar a Guadalupe no final do mês de Abril, para que não haja pressa em chegar a Pointe-à-Pitre, onde iremos receber um casal de amigos portugueses, a 16 de Maio.

Nos próximos dias continuaremos os trabalhos de limpeza e de arrumação do veleiro, para além de começarmos a estudar a meteorologia com o objectivo de encontrar uma boa janela de ventos favoráveis para rumarmos a sul.

JOÃO SANTOS GOMES

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