A Independência de Israel

A Terra Santa – XIII

A Independência de Israel

Estamos em 1947, em Dezembro. O novo Estado de Israel ainda não nasceu. Mas o sofrimento e a guerra são o quotidiano, perante a impotência britânica. Atentados árabes em Tel Aviv e Jerusalém multiplicam-se naquele fim de ano. Aldeias judaicas são isoladas, massacram-se operários judeus na refinaria de petróleo de Haifa. O ano seguinte começará com este cenário sangrento, com atentados e ataques de milícias árabes a localidades judaicas, cortando até os acessos a Jerusalém. A resposta judaica nunca se fez esperar, refira-se, com massacres e ataques a comunidades árabes. Em Maio está ao rubro a situação. Os britânicos evacuam Jerusalém, sem capacidades para intervir e amenizar a situação que em boa parte ajudaram a criar. Mas Maio será o mês decisivo. A 14-15 desse mês, em 1948, dá-se a proclamação do Estado de Israel. Que foi imediatamente reconhecido pelos Estados Unidos e pela União Soviética. O comissário britânico parte. A jovem nação está a ferro e fogo, até o velho bairro judaico de Jerusalém cai nas mãos da Legião Árabe. Nascia Israel…

Israel nasce. Com ele, começa a Guerra da Independência e um dos mais demorados e sangrentos conflitos da Guerra Fria, da segunda metade do século XX. Uma cronologia dos primeiros anos do jovem Estado não é mais do que uma sequência de atentados, ataques, retaliações, cercos, conquistas, recuos, envolvimentos de milícias e comandos infiltrados de nações árabes vizinhas, com o Egipto e a Síria. Alguns efémeros cessar-fogos, negociações infrutíferas, atolam Israel numa situação dramática, sem capacidade por parte da ONU em intervir ou mediar o conflito no sentido de o resolver ou mitigar.

No Outono do ano da independência parece não haver qualquer esperança para a paz, pois as partes em conflito não cedem, as negociações não resultam. No terreno, Israel lança grandes ofensivas, principalmente no Sul, no deserto do Neguev. Em Dezembro atingem mesmo o Sinai, mas as pressões americanas e britânicas obrigam Ben Gurion a ceder e mandar retirar as suas tropas para as fronteiras definidas na independência. Os britânicos, antigos mandatários, ameaçam intervir militarmente nesse período, mas tal não chegará a suceder. Os egípcios são neste momento o maior inimigo da Palestina judaica, ou seja, de Israel. Em Janeiro de 1949, porém, o Egipto aceita negociar com vista a um cessar-fogo. A Guerra da Independência fazia uma pausa. Na ilha de Rodes, na Grécia, começavam as negociações , em meados de Janeiro de 1949, sob a égide da ONU. Conflitos pontuais não deixam todavia de ocorrer no País: cinco aviões de guerra britânicos foram mesmo abatidos no Neguev, no sul de Israel.

A 7 de Janeiro de 1949 a guerra parou. Israel apresentava-se nas negociações como um vencedor. Militar, diga-se. A força das armas rendeu-lhe um território muito maior do que aquele que a diplomacia lhe outorgara meses antes na independência. Mas pagou caro: mais de seis mil mortos, militares e civis. Os árabes registaram cerca de dois mil mortos, militares. Entre civis ou milícias, não se conhecem números exactos, apenas que foram elevados. Mas mais de 600 mil árabes da Palestina tiveram que abandonar os seus lares, as suas terras, criando um dos maiores problemas de refugiados da História. E derramando ainda mais ódio e gasolina na fogueira das relações israelo-árabes. Israel, jovem Estado, estendia-se desde o Norte, Metula, até Eilat, no Sul, no Mar Vermelho: muito mais do que sonharam os migrantes judeus antes da independência.

 

O NOVO ESTADO

Quando falamos em Estado, temos que pensar na sua organização, nas suas instituições, na sua administração. Israel assim trabalhou no sentido de assegurar um Estado para a Nação. Ben Gurion, o pai da nação, herói e líder da esquerda trabalhista, então hegemónica, resolveu bem o problema das instituições, ainda que com algumas controvérsias. Israel surgiu como uma República democrática parlamentar de tipo ocidental, laica e assente no sufrágio universal, sob o princípio da separação de poderes. Laica, dizíamos, pois entendeu-se que não deveria haver religião de Estado e que a soberania devia pertencer ao povo e não à Torá. Mesmo perante o renascimento do messianismo judaico, que reavivava avatares adormecidos e que agora ganhavam “sentido” com a independência.

Claro está que aqui nasceu um conflito de carácter religioso, dado que existe uma longa tradição histórica em Israel de recusa de separação da realidade nacional da religião que a constituiu e lhe dá parte do sentido que tem. Além do peso dos partidos confessionais e de alguma nuance religiosa na legislação israelita, é difícil dissociar o Judaísmo como religião da Nação, Estado, Povo de Israel. A maioria laica conhece fortes resistências e pressões dos judeus “ortodoxos”, que querem um Israel o mais “judaico” possível.

Mas Israel está acima de tudo em crescimento e consolidação. Durante os próximos vinte anos, o afluxo de refugiados judeus da Segunda Guerra Mundial e também da secular diáspora intercontinental rumam a Israel, mesmo que para viverem em tendas, de forma penosa até, ou envoltos em conflitos e um quotidiano instável. Desemprego, racionamento, empréstimos forçados, contenção salarial, dívida pública crescente, economia complicada, acampamentos de imigrantes que tendem a não desaparecer: assim era Israel nos primeiros vinte anos como nação independente.

Mas uma economia voluntarista, centrada no desígnio nacional e no bem da Nação acima de tudo, nos donativos da Diáspora e nas reparações de guerra da Alemanha (mais de 800 milhões de dólares nos primeiros 12 anos), Israel levantou-se e conheceu até taxas de crescimento de mais de 10 por cento ao ano. Novas cidades, revitalização do Neguev (deserto), industrialização, desenvolvimento agrícola, dos equipamentos e infraestruturas, tudo concorreu para o jovem Estado ressurgir. E fortalecer-se, para as guerras que se avizinhavam e de que era o principal alvo, dos árabes, claro. O apoio dos Estados Unidos era decisivo, em plena Guerra Fria, mas piorava a coexistência com os rivais árabes circundantes, muito acicatados pelo problema dos árabes em Israel (palestinianos e árabes israelitas). O Egipto de Nasser tornava-se entretanto uma potencia regional ainda mais forte. Israel vivia sob ameaça, latente e acutilante. A Terra Santa tinha agora uma entidade política estatal e independente. Mas a factura era pouco pacífica, antes sangrenta e difícil. Como veremos…

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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