A ocupação muçulmana

A Terra Santa – VII

A ocupação muçulmana

A Palestina sob o domínio romano nunca foi um território pacificado. Os judeus mantiveram a sua indómita resistência, agrupados em comunidades centradas nas sinagogas numa nova ordem judaica. Com a divisão do Império Romano em duas partes, Ocidente e Oriente, de forma definitiva a partir do imperador Teodósio (379-395), a Palestina fica na segunda, a partir de então cada vez mais designada de Império Romano do Oriente ou Bizantino. Assim se manteve até 636, quando se assiste à conquista muçulmana do território.

A região viveu desde então e até 636, pode-se dizer, uma continuada prosperidade e também crescimento demográfico. O domínio bizantino acentuou a predominância cristã entre os seus habitantes, também por ser a religião oficial do Império Romano do Oriente. Mas é de assinalar a presença judaica na região, que sempre se manteve, apesar da diáspora que se não deixou de se registar. A predominância cristã manter-se-ia até 1187, quando Saladino conquistou a Palestina. Antes dos muçulmanos recorde-se ainda a ocupação do território pelos persas sassânidas, que a dominaram até à conquista árabe. Em 638 toda a Palestina estava dominada pelos muçulmanos. Primeiro, instalou-se a Dinastia Omíada (661-750), advindo depois destes o Califato Abássida, que subjugou a região até 1017, quando os turcos conquistam a região. Na prática, o Islão dominará a região até 1917.

As Cruzadas adviriam mais tarde, depois do ano mil cristão. O objectivo era impor o domínio da cristandade europeia sobre os Lugares Santos, que coincidiam, em grande parte, com a Palestina Judaica. Esta, em boa verdade, estava dominada, todavia, pelo inimigo figadal dos cristãos: os designados “infiéis” muçulmanos. O conceito geopolítico e religioso de Terra Santa desenha-se a partir de então, embora ainda não tanto toponimicamente, pois só a partir de 1759 é que um mapa inglês assim designaria em termos cartográficos: “The Holy Land, or Palestine”.

Em 1098 a primeira Cruzada, convocada três anos antes, veio ainda mais agitar a região do ponto de vista militar e criar mais tensões. O Califado Fatímida passaria a procurar dominar a Palestina. Onde permaneciam ainda comunidades judaicas históricas, activas e afirmativas. Aliás, refira-se que o impacto da conquista islâmica não teve muito mais expressão para além dos titulares do poder: do ponto de vista social e até administrativo quase tudo permaneceria como antes da conquista. Os fatímidas revelar-se-iam, contudo, devastadores para muitas comunidades judaicas, perseguindo também os cristãos que viviam na região.

 

Das Cruzadas aos Otomanos

Até 1171 os fatímidas oscilaram entre a ameaça latente ou a devastação e conquista de regiões da Palestina. Na sequenciada primeira Cruzada aproveitam a derrota dos turcos seldjúcidas perante os cristãos para ocuparem Jerusalém. Os cruzados recuperaram a cidade e ali estabeleceriam entre 1099 e 1187 o reino de Jerusalém. Dos setenta mil judeus que viviam na cidade, sobreviveriam trinta mil, pois os demais ou foram dizimados ou deportados, novamente para o Egipto, além da Europa. Mas no resto da Palestina subsistiam comunidades judaicas, há quase três mil anos.

Eis então que entra em cena uma das maiores personagens históricas da Idade Média: o grande Saladino (c. 1138-1193), sultão da Dinastia Aiúbida do Egipto e da Síria. De origem curda, este grande estratega militar não deixaria no meio dos seus domínios o enclave cruzado do reino de Jerusalém. Conquistou-o em 1187. Mas Saladino distinguiu-se também pela tolerância, pela nobreza e honradez: após a conquista permitiu que os cristãos e os judeus pudessem voltar a viver em Jerusalém, uma cidade tão importante para os seus credos. Nem sempre os governantes tiveram esta visão inclusiva e tolerante, de respeito, como o grande sultão aiúbida Salah ad-Din (Saladino). A sua dinastia governaria Jerusalém e a maior parte da Palestina – onde várias comunidades judaicas se reestabeleceram, como Nablus – até 1250, quando um novo ocupante muçulmano, de origem turca, os mamelucos, ocupariam a Palestina. Onde se mantiveram até 1516, deixando pesadas e tristes marcas.

Ao contrário do grande Saladino, destruíram muitos lugares sagrados cristãos e infligiram uma existência dura e penosa aos judeus, sobre quem impuseram pesados impostos anuais. Enfrentariam ainda, embora não tanto como os aiúbidas, as Cruzadas, que terminariam em 1272, resumindo–se a um fracasso. Em 1291 o reino de Jerusalém seria mesmo extinto, apesar de já quase não residirem reis cristãos na grande cidade. Cada vez menos cristãos ali perseveravam, mantendo-se os judeus, embora sem a pujança de outros tempos.

 

Os Turcos Otomanos

Selim I conquistou Jerusalém e a região envolvente em 1516. A Palestina caí no domínio dos turcos otomanos, que a subjugaram até 1915-17, substituindo os mamelucos.

Entre meados do séc. XVI e o séc. XVII a Palestina seria governada por uma espécie de aliança entre dinastias locais, ridwans, turabays e farrukhs, mas sempre subordinados à “Sublime Porta”, a designação do Governo imperial otomano, com sede em Constantinopla (actual Istambul). A conquista não foi difícil, foi quase uma transição com episódios por vezes mais animosos. A governação otomana no início manteve a mesma organização administrativa e política dos mamelucos.

O termo Palestina caiu em desuso na dominação otomana da região. A maior parte dos duzentos mil habitantes da “Palestina” otomana, cifra que se mantinha já desde o tempo dos mamelucos, vivia em aldeias ou comunidades pequenas. Jerusalém e Gaza eram as maiores cidade, com cerca de cinco mil habitantes. Longe ia o esplendor antigo da grande Jerusalém. As populações judaicas na Palestina mantiveram-se, mais ou menos discretas ou silenciosas, por vezes mais ou menos ameaçadas, mas nunca a sua velha marcha de vida milenar na região se extinguiu – sempre se acenderam menorás no Hannukkah (Dezembro, festa das Luzes, similar ao Natal) e se rezou pela vinda do Messias. E não só, pois também se aspirava ao renascimento da Pátria, ou Estado…

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *