Padre Cyril Law Jr.

Padre Cyril Law Jr. sobre os refugiados na Europa e a Igreja na China

Assuntos de Estado.

O padre Cyril Law Jr. considera que o drama dos refugiados na Europa resulta da ausência de poderes agregadores nas zonas de conflito e de políticas solidárias no Ocidente. A estudar em Londres, revela preocupação quanto à crescente preponderância da cultura muçulmana em Inglaterra, interrogando a eficácia da democracia na resolução dos problemas. Quanto à China, defende uma maior aposta na formação dos seminaristas, por forma a combater os interesses instalados tanto na Igreja Patriótica como na Igreja afecta ao Vaticano.

O CLARIMOs refugiados que todos dias chegam à Europa estão a causar crescente preocupação a vários níveis. Que analise faz à situação?

PE. CYRIL LAW JR. – Estranho o número de refugiados que está a deixar a Síria e o Norte de África. Quem são eles? São muçulmanos. E também há cristãos! Por que será que os Poderes não se identificam com o sofrimento das pessoas? Para nós, cristãos, o sofrimento tem valores. Não podemos ignorar o sofrimento. Continuo sem perceber como se permite, por que continua e nem há solução para lidar com o problema dos refugiados, porque todos os dias há centenas de muçulmanos e cristãos a morrer no mar.

CLPassará a solução pelo Médio Oriente e por África?

C.L.J. – Exacto! Por que será que os regimes [do Médio Oriente e de África] e as democracias ocidentais não veem isto como uma chamada de atenção para a Humanidade? Será o egoísmo? Não querem colaborar? Ou não olham para estas vidas como sendo preciosas? O que os estará a bloquear? Talvez seja o Diabo a enganar-nos…

CLEntre os refugiados certamente também andará o Mal…

C.L.J. – Claro que há terroristas infiltrados. Deixando-os entrar [no Ocidente] também entram os problemas.

CLO que devem fazer países como o Paquistão, o Afeganistão, o Iraque, a Síria e o Iémen?

C.L.J. – Há muitos problemas relacionados com as diferentes tribos que lutam entre si. Acontece, por exemplo, na Síria e no Iraque. Em termos análogos, se não houvesse um regime forte na China, como é o caso das dinastias do passado e dos poderes centralizados, que mantêm todos juntos, provavelmente continuávamos em guerra civil. Tira-se a estrutura de vistoria e desintegra-se tudo em tribos.

CLQual a solução para o diálogo entre cristãos e muçulmanos?

C.L.J. – Quem estiver interessado na paz mundial precisa de investir nos jovens porque os mais crescidos carregam um grande fardo histórico de ódio, de atrocidades vividas e de crimes. É muito difícil esquecer este passado. Se possível que levem esses jovens, cristãos e muçulmanos, ao diálogo, a conhecerem-se mutuamente ou a desenvolverem em conjunto actividades de cariz neutro.

CLComo vê a posição das potências ocidentais em relação à ameaça do terrorismo islâmico?

C.L.J. – Não vejo os Governos, ou os partidos políticos ocidentais, a contribuírem com melhorias. Muito frequentemente em qualquer política que ponham cá para fora há sempre uma reacção e não há forma de medir o que é um bom ou mau resultado. Por exemplo, em Birmingham há escolas governamentais completamente “cheias” de muçulmanos com ideologias e agendas particulares, insistindo que as respectivas instituições devem seguir os valores e os costumes islâmicos. É surpreendente que isto esteja a acontecer em Inglaterra. Tratando-se de escolas governamentais devia haver alguma neutralidade e respeito pela liberdade de consciência. A Imprensa descreveu esta situação como o escândalo “Trojan Horse”.

 

Correntes

CLEstá a tirar o doutoramento em Londres. O que aborda a sua tese?

C.L.J. – Estou a comparar o pensamento, a vida e o trabalho do cardeal Newman, que se converteu do Anglicanismo; e de Ma Xiangbo, fundador da Universidade de Fudan, em Xangai, um ex-padre jesuíta [deixou voluntariamente a Companhia de Jesus em Dezembro de 1876].

CLDeve ter uma ideia bastante fundamentada sobre as diferentes correntes do Cristianismo. Estarão irremediavelmente distanciadas? Ou será que se complementam?

C.L.J. – Falando por experiência própria, quando estudei em Roma deparei-me com uma situação deveras única no nosso colégio de formação [Almo Collegio Capranica, fundado em 1457] porque todos os anos tínhamos quatro espaços para seminaristas e padres não-católicos [apostólicos romanos]. Conheci romenos ortodoxos, russos ortodoxos, ucranianos ortodoxos e siro-malabares da Índia. São correntes do Cristianismo que não estão em comunhão com a Santa Sé, mas tivemos muita interacção e tornámo-nos amigos. A amizade é a base da nossa relação. É algo muito único, porque lemos muito sobre Matteo Ricci, que sempre baseou o seu método nas actividades missionárias na amizade. Penso que é o principio básico para lidarmos uns com os outros.

CLE sobre o Anglicanismo em Inglaterra?

C.L.J. – Muitos clérigos anglicanos converteram-se ao Catolicismo. Na verdade, os meus melhores amigos em Londres são todos ex-anglicanos. Tendo estudado Newman e conhecido muitos ex-anglicanos posso dizer que a minha percepção é algo tendenciosa, em vez de objectiva. Até agora ainda não consegui entender a Igreja Anglicana por dentro. Contudo, a minha impressão é que se formos realmente honestos sobre a História e a raiz do Cristianismo, o Anglicanismo é apenas uma religião de Estado. Foi criada pelo Estado para servi-lo, porque a doutrina, as crenças e os usos podem mudar de acordo com a sua vontade. Ainda hoje os bispos diocesanos anglicanos são nomeados pelo Governo e os seus clérigos juram lealdade à rainha britânica antes de tomar posse.

CLÉ uma tarefa difícil o entendimento entre o Vaticano e Pequim?

C.L.J. – Claro que é. As pessoas perguntam-me: qual a solução? Só tenho uma resposta: precisamos ter um Papa Gregório VII.

CLO Papa Francisco não é suficiente?

C.L.J. – A solução do Papa Gregório VII foi a reforma do clero por dentro, enquanto o Papa Francisco propõe a misericórdia como o caminho para a reconciliação. O Governo chinês tem recursos suficientes para se envolver com a Igreja Católica na China. Em primeiro lugar, não quer ver a Igreja unificada porque tal significaria que um grande número de pessoas ficaria sem trabalho na área da vigilância, entre outras. As pessoas esquecem com facilidade que há aqui um factor económico. Depois, a estrutura complexa do departamento religioso em várias províncias também é outra das causas a contribuir para esta delicada situação.

CLQue solução?

C.L.J. – Há que pôr um grande ênfase na formação dos seminaristas, seja da Igreja registada, seja dos que vivem sem o reconhecimento do Estado. É neste momento, com as várias restrições, que temos de lhes dar o senso universal da Igreja e os exemplos sólidos da disciplina religiosa.

 

Entre dois mundos (Caixa)

O padre Cyril Law Jr., proveniente de uma família com origem em Macau, nasceu em Hong Kong em 1983. Na ex-colónia britânica, aos 15 anos, entrou no Aspirantado “Domingo Savio” dos Salesianos, enquanto frequentava o “King’s College”, onde concluiu o Ensino Secundário. Familiares a viver nos Estados Unidos encorajaram-no a estudar na Universidade Franciscana de Steubenville, no Ohio, onde tirou o mestrado em Filosofia. Passou também quase dois anos com os cónegos regulares em Saint Louis, mas como aconteceu com os salesianos sentiu que não era a sua vocação. A decisão de voltar a Hong Kong foi tomada após um retiro. Teve ainda em consideração a opinião do seu guia espiritual de então. Em Hong Kong foi docente do Ensino Secundário no “Queen’s College”, ao mesmo tempo que ajudava os padres dominicanos que tinham à sua responsabilidade alguns estudantes do Myanmar. Com a vinda dos noviços dominicanos para a Universidade de São José, o ainda leigo Cyril Law Jr. foi encorajado pelo padre Solís, também dominicano, a vir para Macau, onde a partir de 2007 leccionou as disciplinas de Latim, Filosofia e Canto Gregoriano no Seminário de São José. Em 2009 fez o pedido formal a D. José Lai para se tornar sacerdote da Diocese de Macau. Entre 2011 e 2013 estudou em Roma. Foi ordenado padre em Julho do ano passado na Sé Catedral de Macau. Presentemente está a concluir o doutoramento no “Heythrop College”, em Londres.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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