Voluntariado Missionário de curta duração

VOLUNTARIADO MISSIONÁRIO DE CURTA DURAÇÃO

Gestos que transformam vidas

Partir em missão por um curto espaço de tempo é o desafio ao qual centenas de jovens respondem todos os anos, normalmente durante as férias de Verão. Depois da formação adequada, a partida faz-se na certeza de que todos podemos sair e evangelizar.

Quando Jesus Cristo pegou em 72 dos seus seguidores e os enviou, aos pares, às cidades vizinhas para lhes falarem d’Ele, iniciou um movimento missionário que até hoje tem conhecido várias facetas. Há cerca de trinta anos, começaram a surgir em Portugal grupos que se chamavam de voluntariado missionário (VM), ou “Ad Gentes”. «São voluntários que levam também a missão de evangelizar, além dos projectos técnicos que tenham a seu cargo» no terreno de missão, explica-nos Catarina António, responsável pela plataforma de Voluntariado Missionário da Fundação Fé e Cooperação (FEC), a ONGD (Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento) da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que congrega 61 entidades de VM espalhadas por todas as dioceses, incluindo ilhas.

A grande maioria das centenas de jovens que todos os anos participam em acções de voluntariado “Ad Gentes” parte em missões de curta duração, normalmente durante as férias de Verão da faculdade. Entre duas semanas a seis meses, os projectos visam colmatar necessidades de projectos maiores, ou cumprir uma função específica. Este é um cuidado que acontece cada vez mais, para garantir que os projectos são mesmo de desenvolvimento, e não de assistencialismo, como se via acontecer por vezes. «A realidade tem vindo a mudar. No plano de formação da FEC, batalhamos muito nessa questão: os voluntários não vão mudar a realidade, vão contribuir para o que já está a ser feito, e acho que isso tem mudado ao longo dos anos» considera Catarina António.

Foi precisamente isso que Sofia Baptista, de 26 anos, foi fazer à Bolívia há dois anos, integrada num projecto de curta duração. Esteve um mês em Santa Cruz de la Sierra a trabalhar com crianças, jovens e idosos, e foi uma experiência que lhe mudou a vida. «Foram dias e semanas carregados de emoções e histórias bem intensas. Momentos em que o coração ficava bem apertado por lidar com realidades e situações tão duras. Foi aí que aprendi que só o facto de estar presente ali e naquele momento é o suficiente para que todas aquelas vidas com que me cruzei ficassem um pouco melhores», conta-nos a uma distância que lhe permite perceber como tudo aconteceu, deixando-se ainda tocar pelas histórias que recorda. «Não me esqueço da visita à prisão com um grupo de crianças da instituição. A visita realizava-se com os técnicos da instituição e com as crianças que têm familiares detidos, com uma frequência quinzenal. Ver aquelas crianças, com um direito que as deveria assistir, o de crescer junto das suas famílias, e impedidas de o fazer, fez com que eu sentisse um aperto bem grande no coração. Não me esqueci do quão duro era o momento de despedida entre as crianças e as suas famílias. Lágrimas e frases como “o pai nunca se esquece de ti, sabes que estou sempre contigo” foram bastante difíceis de gerir», confessa.

É para sentir estas emoções que a Inês Sousa, uma enfermeira de 22 anos, se prepara para partir para Angola, para o Zango, nos arredores de Luanda. «Nunca questionei muito a razão de ir em missão, foi algo que sempre me atraiu, uma espécie de bichinho latente» diz, enquanto se confessa motivada para «fazer a diferença, na medida do possível».

Não há receios antes da partida, a não ser o receio de «não querer voltar». «Quanto ao resto, penso que me irei adaptar. O ser humano tem como grande característica a capacidade de resiliência e adaptação. Basta ir de coração e mente abertos e sem medo de arregaçar as mangas», afirma, esperançosa.

Muitas vezes, as percepções de quem está para partir colidem de forma muito dura e difícil com a realidade do terreno. Por isso, e também para garantir a apropriada formação «técnica, humana e espiritual», a FEC proporciona aos voluntários uma formação geral durante um ano, que é depois complementada por formações específicas dentro de cada organização.

Catarina António explica que «todos os voluntários têm formação, mesmo os que vão em curta duração, mesmo por 15 dias».

Esta formação incide também numa questão que seria, à partida, das mais tranquilas, como é a vida comunitária dos voluntários que partem, mas que no final se revela das mais difíceis de gerir por quem esta em missão no terreno. «A vida em grupo lá é muito difícil, e é preciso estar preparado para isso, para lidar com a frustração, porque vão sempre com muitos sonhos e projectos e muitos não passarão disso, porque a realidade local não permite executá-los. É preciso trabalhar a nível emocional, e de competências também», considera a responsável da FEC.

Inês Sousa está agora a completar o percurso de formação e concorda que esta foi essencial na sua preparação. «As formações, quer as locais dadas pelo grupo, quer as formações nacionais dadas pela FEC, permitiram desconstruir muitas ideias pré-concebidas e perceber o nosso papel como voluntários: ninguém nos pede para ir, nós é que vamos porque queremos. Então, não nos podemos esquecer que a comunidade para onde vamos tem uma organização e cultura próprias, cujas formações foram importantes para o conhecimento mínimo das mesmas e, assim, não é nosso direito impor valores, ideias, comportamentos pelos quais nós nos regemos neste cantinho à beira-mar plantado».

A inculturação é, aliás, dos desafios mais difíceis para quem parte em projectos de curta duração. Para Sofia, no entanto, a integração na Bolívia foi muito fácil. «A Bolívia é um país extremamente religioso. Aliás, toda a fé cristã que se respira naquele país é impressionante. Considero que, em termos de fé, a Bolívia enriqueceu-me bastante, o que tornou o processo de inculturação bastante fácil», admite.

Uma certeza parece ser a de que ir em missão transforma vidas. «“Eu não sou a mesma pessoa” é a frase que mais ouvimos. Podemos pensar que estas missões curtas não têm impacto, mas têm. Os choques culturais e espirituais são muito grandes, e as pessoas vêm mudadas. Poder ver pessoas que não têm água, ou comida, faz com que os voluntários voltem mais disponíveis, mais abertos, mais perto das pessoas», e esses ensinamentos são depois passados para a vida “normal” que retomam. «Costumo dizer que o regresso é tão ou mais difícil do que a partida. A partida é um momento difícil porque deixamos as pessoas de que mais gostamos. No entanto, o regresso ao nosso país e à nossa casa é um momento muito difícil de gerir», diz Sofia.

Até porque o regresso vem sempre cheio de boas memorias da missão, muito frescas, considerando que foi curto o tempo de permanência lá. «Com o trabalho realizado numa instituição de acolhimento de crianças conhecemos uma criança com uma história de vida muito dura para os poucos anos de vida que tinha. Aquele menino nasceu porque foi “fruto” de uma violação. Devido ao seu nascimento estar associado a um momento negativo para a sua mãe, este pequenote estava completamente abandonado no mundo. Nas épocas festivas ou datas especiais, os outros meninos têm visitas e o “nosso” menino nunca recebe uma visita de ninguém.

Ambas ficámos bastante sensibilizadas com esta história e decidimos fazer algo para que a vida do rapazito se tornasse mais alegre. Durante a nossa estadia em Santa Cruz, levámo-lo a passear, passámos várias tardes com ele e tentamos dar-lhe aquilo que teve muito pouco: carinho e atenção», recorda, com um sorriso que lhe permite afirmar que, lá, ganhou uma «segunda família». «Agora, em vez de uma, tenho duas famílias: a minha família e a família da Bolívia. Uma das melhores coisas que trouxe de Santa Cruz foi a amizade criada com todas estas pessoas. Sabe tão bem estar em Portugal e receber mensagens, fotos e novidades daquele que agora é também o meu mundo», conclui.

Para os interessados em partir, e só clicar em www.fecongd.org e não pensarem que basta fazer as malas e arrancar. «A primeira coisa é que não pensem que vão partir amanhã. É necessária formação, e para isso podem ir ao nosso site e ver a lista de 61 organizações católicas ou ligadas à Igreja e contactar a mais próxima. Ou, se precisarem, podem entrar em contacto connosco e nós ajudamos a encaminhar», promete a Catarina.

RICARDO PERNA

In Família Cristã

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *