Rota dos 500 Anos

Rota dos 500 Anos

Não uma, mas duas passagens de ano

Há opções forçadas que por vezes nos surpreendem, apesar de não serem a nossa primeira escolha. Neste tipo de vida – dependente dos caprichos dos elementos naturais – muito frequentemente tal acontece.

A nossa estada em Curaçao já deveria ter terminado, mas devido a ventos fortes e condições pouco confortáveis para rumarmos a Norte, foi prolongada por mais uns dias. Pelos planos actuais deve estender-se até 8 ou 9 de Janeiro.

Primeiro foi a complicação com o atraso das peças do motor antes do Natal, o que nos forçou a celebrar a quadra nesta ilha. Fizemos a festa em família com um jantar tipicamente português: bacalhau cozido e bolo-rei cozinhado no forno do barco. Houve troca de presentes no dia 25 de manhã e um passeio na praia à tarde.

Cumpriu-se mais uma semana até ao Ano Novo e, desta feita, decidimos convidar os veleiros à nossa volta para se juntarem a nós na celebração da passagem para 2019. Chegámos a ser treze pessoas no poço do Dee já depois da meia-noite. Antes do réveillon falámos com diversas pessoas que vivem na ilha, tendo todos referido que o fogo-de-artifício em volta do ancoradouro era o melhor espectáculo da noite. Também nos aconselharam a dar uma volta na capital, pois havia festa nas ruas, com diversão em vários pontos da cidade.

Depois de conversarmos com os vizinhos de dois barcos holandeses e com um da Austrália e outro de Aruba, decidimos a meio da tarde ir até à cidade para ver os festejos. Para nossa surpresa descobrimos que aqui festejam, não uma mas duas passagens de ano. É que assinalam a mudança de ano no horário da Holanda, o que por aqui correspondeu às 20 horas, e à meia-noite.

Após passearmos pelo meio de milhares de pessoas, vermos o fogo-de-artifício à meia-noite da Holanda e comermos alguns petiscos locais, reunimos o nosso grupo de oito pessoas e regressámos ao ancoradouro para preparar a nossa passagem de ano. Eram 22 horas e 30 minutos quando quatro amigos holandeses, uma amiga australiana e nós os três nos sentámos no poço do Dee, de luzes acesas, para bebermos e comermos o que cada um trouxe. Enquanto esperávamos o espectáculo gratuito, “oferecido” pelos ricos proprietários de centenas de mansões que bordejam a lagoa de Spanish Waters, fomos comendo filhoses, sandes de atum, bolo de canela australiano, bolachas de água-e-sal com queijo holandês, entre outras iguarias, acompanhadas por cerveja chinesa e local, vinhos tintos e brancos dos Estados Unidos e do Chile, e água e sumos variados.

À meia-noite em ponto, já todos preparados com as doze passas na mão – tradição que fizemos questão de explicar a quem não estava familiarizado com este hábito português – esperámos ansiosamente pelas explosões de cor e som em redor do barco. Foram momentos de suspense, que sinceramente valeram a pena. Imaginem o fogo-de-artifício lançado no Ano Novo Chinês em Macau, multiplicado por cem vezes, todo ao mesmo tempo, à volta da lagoa, numa visão privilegiada de 360 graus que no veleiro ninguém quis perder, movimentando-se constantemente no convés para tentar gravar os melhores momentos com telemóveis e câmaras digitais. O espectáculo pirotécnico durou quase 45 minutos, com um barulho distante e um efeito de luz impressionante, sendo de destacar o facto de não ter sido organizado. Tratou-se apenas de famílias, nos jardins das suas casas ou nas praias, a festejarem a entrada em 2019.

O fogo-de-artifício, segundo nos explicaram, é uma tradição trazida pelos europeus. Com a vinda de milhares de comerciantes e investidores chineses para a ilha ganhou outra dimensão. Actualmente todo o “arsenal” vem da China e os tradicionais panchões, alguns com centenas de metros de comprimento, são usados da mesma forma que em Macau, tanto pelos chineses como pelos locais. Quando fomos à cidade vimos vários panchões a serem preparados e outros a rebentarem com o tradicional barulho ensurdecedor. A pequena diferença é que estes panchões não terminam com o tradicional estrondo a que estamos acostumados em Macau. O “tapete” vermelho que fica no chão e o cheiro a pólvora queimada são em tudo iguais ao que ficámos habituados depois de dezassete anos de Ano Novo Chinês.

Terminado o fogo-de-artifício os nossos amigos puxaram de instrumentos musicais e começaram a tocar no poço do Dee. Um espectáculo só para nós, com acordeão, guitarra e clarinete, em que todos participámos – tocando, cantando ou simplesmente batendo palmas. Ao mesmo tempo, íamos continuando a assistir a explosões tardias de fogo-de-artifício que continuavam a iluminar os céus.

Já depois da uma da manhã chegaram mais convidados: a família do veleiro de Aruba, dois adultos e três crianças que ficaram na cidade para verem o fogo-de-artifício à meia-noite e acabaram por lamentar não terem estado connosco no veleiro. Contudo, como vêm a Curaçao todos os anos por esta altura, garantiram que daqui a um ano irão ficar no veleiro deles para poderem testemunhar, com os próprios olhos, o espectáculo que todos havíamos presenciado.

Quanto aos nossos planos, devemos deixar Curaçao rumo a Aruba ou seguiremos directamente para o Haiti. Se as previsões meteorológicas nos derem uma semana de bom tempo, possivelmente apostaremos em fazer a travessia sem parar em Aruba.

João Santos Gomes

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