Quem se faz ao mar…

Rota dos 500 Anos-Quem se faz ao mar...

Como tínhamos prometido, o sábado de manhã foi passado com o senhor madeirense que produz e vende legumes e frutas aqui perto do local onde nos encontramos ancorados.

Aproveitámos e convidámos a família portuguesa do catamaran El Caracol, que chegou alguns dias depois de nós, também vindos de Bonaire, a nos acompanhar. Para quem não se recorda, é uma família que viveu em Macau durante alguns anos, sendo a senhora filha de uma conhecida arquitecta residente de longa data no território.

A visita à venda de legumes e frutas obrigou a uma caminhada de quase vinte minutos. Valeu a pena, não só pelo convívio mas também pela qualidade e preço dos produtos que adquirimos. Na volta ao veleiro fomos agraciados com umas lulas pescadas mesmo ao lado do barco. É a segunda refeição que fazemos com lulas apanhadas por nós ao final do dia. Da primeira vez cozinhámo-las grelhadas ao estilo tailandês; desta vez foram panadas. O peixe é que tem andado fugidio. Nos primeiros dias ainda apanhámos um “ong iao” (peixe avermelhado muito comum também na China e que os pescadores à cana de Macau bem conhecem das pescarias de outrora na ilha da Montanha).

Também esta semana, com a chegada do catamaran português, confirmámos que a nossa entrada na ilha não está completamente finalizada. Quando estivemos na imigração e na alfândega perguntei se era necessário ir à autoridade portuária, porque sempre ouvimos que era preciso pagar uma licença de vela, como é usual em muitos países. Na imigração e na alfândega garantiram-nos que não, mas afinal temos mesmo que pagar. Esperamos fazê-lo no início desta semana para evitar complicações mais tarde.

Entretanto, já decidimos como proceder relativamente à renovação do passaporte da Maria. Graças aos incansáveis préstimos do cônsul honorário de Portugal em Curaçao, eu e a Maria vamos voar para Caracas, possivelmente no final deste mês. Sairemos de Curaçao de manhã cedo, por forma a chegar à capital da Venezuela e tratar de todos os trâmites até à hora de almoço. Se for necessário, ainda teremos a parte da tarde para resolver mais alguns assuntos, regressando a Curaçao à noite. Quando for para levantar o passaporte voarei apenas eu, indo e voltando também no mesmo dia.

A solução encontrada só é possível devido às diligências que o cônsul honorário tem feito, de modo a que o passaporte seja renovado no mais curto espaço de tempo. Havia a possibilidade de emitir, localmente, um passaporte temporário, mas que seria válido por apenas um ano. Esta solução ainda foi ponderada, mas devido ao preço e ao prazo de validade do documento – até o cônsul se mostrou desapontado com o preço que Portugal cobra pelo passaporte temporário – optámos por arriscar e viajar até à Venezuela, dado que fica somente a duas horas de voo. Assim fossem todos os nossos representantes diplomáticos e os nossos cidadãos espalhados pelo mundo estariam muito melhor servidos.

Quanto aos problemas a bordo que têm de ser resolvidos antes de rumarmos ao Panamá, a semana foi ocupada a reparar a vela principal. Foi retirada do mastro e da retranca e estendida na parte da frente do convés. Desde então as manhãs e as tardes têm sido ocupadas a cortar tecido e a reparar pequenos furos, com muita costura e cola à mistura. Felizmente tudo parece andar bem, estando a tripulação satisfeita com o rumo que o trabalho está a levar. Penso que mais dois ou três dias de trabalho e a vela estará pronta para ser içada e usada normalmente. O grande teste será feito quando navegarmos com ventos fortes junto à costa da Colômbia, a qual teremos de atravessar se quisermos chegar ao Panamá. Depois de terminar o trabalho da vela principal iremos retirar a vela grande e proceder ao reforço da faixa de protecção, que em alguns sítios está descosida.

Concluída a tarefa das velas, iremos proceder à manutenção do motor do veleiro. Vamos retirar a bomba de gasóleo e verificar se está em boas condições, e proceder à limpeza do tanque de gasóleo para retirar alguma borra que se tem acumulado devido ao uso de combustíveis de qualidade duvidosa…

Por último, vamo-nos concentrar em melhorar a vida a bordo, que é tão essencial como as velas e a parte mecânica. Queremos substituir os plásticos de dois painéis da cobertura do poço. Em Guadalupe tínhamos substituído a janela de estibordo, tendo chegado o momento de substituir a janela de bombordo e a janela central. Se ainda houver tempo, iremos construir duas janelas laterais que possam ser usadas quando o vento estiver a incomodar ou a chuva for mais intensa. Tal irá contribuir para manter a zona do poço seca, para que seja possível ali permanecer mesmo em dias de chuva. Até agora, quando chove, temos de ficar no interior. Os painéis laterais estão a ser planeados de forma a que possam também ser utilizados como colectores de chuva, para que a água seja encaminhada para os tanques do veleiro.

JOÃO SANTOS GOMES

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