Procissão do Santíssimo Sacramento regressou ao Calendário Litúrgico de Macau

PROCISSÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO

Um só corpo, uma só Igreja.

Com D. Stephen Lee a Igreja em Macau recuperou uma tradição perdida há 44 anos: a procissão Corpus Christi ou do Santíssimo Sacramento. Centenas de fiéis afluíram às igrejas da Sé Catedral e de São Domingos no passado Domingo, numa manifestação de unidade promovida pelo bispo de Macau.

Desde Junho de 1973 que o dia dedicado à Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo não era abrilhantado com a procissão do Santíssimo Sacramento. No passado Domingo, por iniciativa de D. Stephen Lee, bispo de Macau, a igreja da Sé Catedral voltou a engalanar-se e a encher-se de fiéis, para juntamente com o prelado da Diocese, os sacerdotes e as pessoas consagradas adorarem o Santíssimo Sacramento e acompanharem o andor no centro da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.

Dirigindo-se à assembleia, D. Stephen Lee deixou uma mensagem aos fiéis: «Estamos todos unidos em Cristo. Macau, Hong Kong e a China estão unidas numa só Igreja».

No adro da igreja, um tapete de flores cobria a escadaria, ladeada por voluntários vestidos de branco, e a banda do Corpo de Polícia de Segurança Pública aguardava junto da entrada do Paço Episcopal.

Concluídas as primeiras orações, um grupo de acólitos saiu da Sé Catedral, empunhando os estandartes das paróquias de Macau, como que dando o mote para o início da procissão.

Ao som da banda do CPSP e das vozes do Coro da Igreja de Nossa Senhora do Carmo (Carmo Choir), o cortejo seguiu pela Rua da Sé, Travessa do Roquete e Largo do Senado, até parar no Largo de São Domingos, antes de entrar na igreja com o mesmo nome.

Durante o percurso, O CLARIM encontrou António Robarts, que disse lembrar-se «perfeitamente da última procissão do Corpo de Cristo, em 1973, um ano antes de deixar Macau».

Para ele, «o reavivar desta procissão é extremamente importante porque se trata do Corpo de Cristo. Todos nós somos um corpo único e devemos pensar nessa unidade que é a paz, a fraternidade e o amor entre todos os povos. No actual momento que o mundo atravessa, precisamos de paz e de estabilidade, tanto em termos sociais como políticos. Penso que o mundo só pode estar bem se estivermos ligados com o nosso universo, que existe pela mão de alguém que é Deus».

Questionado se a introdução de mais uma procissão no calendário da Diocese não poderá dispersar os fiéis, respondeu: «As procissões são importantes. Fazem-nos relembrar e reviver a nossa condição de católicos. É uma forma de agradecimento pelo facto de Cristo estar connosco e fazermos parte do Seu corpo. Ao recebê-Lo unimo-nos a Ele. Esta procissão nunca estará a mais. Penso que o bispo teve uma ideia esplendida ao reactivar esta procissão».

No interior da igreja de São Domingos a custódia foi colocada no altar, em frente à imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos e ao lado de uma representação de Nossa Senhora. Após ser rezada uma oração, D. Stephen Lee traçou a cruz com a custódia e abençoou os fiéis que se encontravam ajoelhados.

De seguida, o cortejo prosseguiu pela Rua de São Domingos até à Sé Catedral, tendo a custódia voltado a ser colocada no altar da igreja matriz.

Entre cânticos foi adorado o Santíssimo Sacramento e rezado o Terço da Divina Misericórdia: “Tende misericórdia de nós e de todo o mundo, pela Sua dolorosa paixão…”. A cerimónia terminou pouco depois.

Na sacristia, D. Stephen Lee não escondia o contentamento: «Sinto-me muito abençoado. Peço que o Senhor abençoe a diocese de Macau e toda a região ao nosso redor, especialmente a China. Espero que Macau se reúna em Cristo, para que através do Seu amor possamos dar amor a toda a sociedade e aos nossos países vizinhos».

Numa breve análise à larga afluência de fiéis, referiu que «as pessoas têm sede de amor, sendo que o amor de Deus está no coração de todos os fiéis. Esta é uma maravilhosa oportunidade para se manifestarem num dia especial como o de hoje – o Dia do Pai – para virem até à igreja com as famílias e provarem que Cristo une as pessoas».

Segundo o bispo de Macau, o Corpo de Cristo está num patamar superior: «Na nossa fé católica, Cristo e a Eucaristia estão sempre em primeiro lugar. Depois, tudo o resto, em que se incluem as procissões, faz sentido. É por isso que temos de reavivar o sentido de Cristo. Não podemos alimentar a nossa fé acreditando apenas em Maria e nos santos. É com a paixão de Cristo e com Maria que as procissões ganham significado».

À saída da Sé Catedral, Maria do Rosário Amaral, de 87 anos de idade, aceitou revelar a’O CLARIM o que lhe ia na alma: «Senti muita comoção ao ver tantas pessoas devotas, especialmente chinesas – não era costume serem tão devotos, mas hoje em dia há muitos chineses católicos e que são bons católicos».

Prevendo já a resposta, perguntámos se a procissão veio acrescentar algo mais à Igreja em Macau. De olhos bem abertos, afirmou sem hesitar: «Com esta procissão a Igreja tornou-se mais rica. Com tantos fiéis, tantas pessoas devotas, está hoje mais forte. Vêm mais católicos à igreja». E aproveitou para dar o seu testemunho pessoal como exemplo: «Este ano fui à procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos, à procissão de Nossa Senhora de Fátima e à procissão de Santo António, que este ano se realizou no dia 11 de Junho. Desde criança que canto na igreja. Já cantei em todas as igrejas de Macau. E agora, com 87 anos, continuo a cantar. E tenho voz; Deus não me tirou a voz».

Caminhando lentamente para o adro da igreja ainda acrescentou: «Nossa Senhora do Rosário de Fátima é a minha madrinha. Daí o meu nome».

José Miguel Encarnação

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