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Imigrantes e refugiados ou a parábola do (bom?) samaritano

Imigrantes e refugiados ou a parábola do (bom?) samaritano.

As linhas que se vão seguir não pretendem ser respostas definitivas ao complexíssimo problema dos refugiados na Europa. E nem sequer respostas são, antes o pôr em causa todas as peças do puzzle, para compreender melhor essa magna questão. Compreender, desde logo… eu!

O grande debate sobre a questão dos refugiados e dos imigrantes económicos, hoje, na Europa, se coloca os líderes políticos nacionais perante difíceis questões por resolver, suscita também, nos cristãos europeus, inevitáveis problemas de consciência.

Oscilando entre a mais generosa abertura à aceitação de refugiados, como é o caso de Portugal, e a rejeição mais firme, como a da Hungria, não nos falta a nós (cristãos europeus em geral; e a nós católicos, em particular) todo um leque de opções para analisarmos, de país para país, conforme as conjunturas nacionais.

 

A VOZ DO PAPA

E faço menção a nós católicos em particular porque o Santo Padre tem sido inequívoco e insistente na única posição possível para a Igreja, hierarquia e leigos, todos: o acolhimento sem reserva e a integração.

Ingenuidade ou EXIGÊNCIA? Apelo às responsabilidades de todos, ou mero jogo de palavras para cativar audiências? Bem se sabe que este é o tipo de desporto a que não se dedica o homem íntegro que é Jorge Mario Bergoglio.

Ora, esta posição de fotal abertura é rejeitada por muitos líderes, mormente da Europa Central, alguns invocando mesmo, paradoxalmente, o quanto está em perigo a identidade cristã das respectivas nações.

Apetece dizer ,desde logo, quase em tom de desabafo, que se o próprio Papa não sabe interpretar a necessidade de preservação da identidade cristã (residual?) em sociedades aceleradamente descristianizadas… quem o faz melhor que ele? Líderes demagógicos que exploram, para fins políticos, o medo das pessoas, medo que eles ampliam para puro ganho político?

Mas não é hoje, na própria Itália, sede territorial da Igreja, que o discurso político mudou, com a tomada de posse da coligação de direita populista?

Enquanto no Vaticano o Pontífice ensina a generosidade, nos conselhos de ministros italianos e nas declarações públicas de Matteo Salvini, Luigi di Maio & Cia., decide-se e defende-se o oposto.

A oposição entre Igreja e Estado, em Itália, não podia ser mais radical. E enquanto alguns celebram e reivindicam a autonomia dos políticos e da política, neste tempo pós-cristão, apontando para a obrigação do pragmatismo, como resposta a uma sociedade inquieta, outros, uma minoria, procuram ainda o coração, no acolhimento dos refugiados. Mas no seu lugar encontram só intolerância e mesmo xenofobia. Provocadas. Deliberadas. Como instrumentos de poder.

 

Percepção e realidade

Foi a rapidez do fenómeno que assustou muita gente. Foi a chegada desordenada de milhares e milhares, vindos de todo o lado, que ampliou o mal estar e alimentou muita da rejeição. E pior: foi tudo isto acontecer no contexto da luta contra o radicalismo islâmico, culminando nas sucessivas batalhas contra o ISIS, no Médio Oriente, e as suas repercussões terroristas na Europa.

Mas.. perante a quase paralisia e o manifesto embaraço das autoridades nacionais e europeias, a lidar com o fenómeno, quem se aproveitou do vazio? Resposta: a extrema-direita europeia, a mesma que hoje se pretende organizar como polo alternativo ao projecto europeu – que visa destruir. E que dá os seus passos nesse caminho, apesar de alguns reveses eleitorais como em França, mas com novos fôlegos, com as vitórias na Áustria, na Hungria e agora na Itália.

Com ou sem crise dos refugiados, o extremismo de direita nunca esteve adormecido na Europa. Basta recordar o percurso da Frente Nacional francesa, fundada e liderada por um homem, Jean Marie Le Pen que sempre aliou xenofobia e sentimentos anti-Islão.

O caso francês é paradigmático a vários títulos. A França tem a maior comunidade muçulmana da Europa. E onde tal comunidade nunca esteve verdadeiramente integrada, por culpa (muita!) das sucessivas equipas políticas no passado, longínquo e mais recente.

 

A resposta dos políticos

Convenha-se pois no que é óbvio. A Europa não estava preparada. Nem psicológica, nem politicamente, para acolher tantos refugiados ao mesmo tempo. Ou em vagas sucessivas, num curto lapso de tempo.

De súbito, observam os europeus surpreendidos, este fluxo de refugiados e de imigrantes económicos chegam às catadupas, buscando o Velho Continente como terra da última esperança.

Podem não ser muitos, estatisticamente, diluídos nos quinhentos milhões que constituem a população global do continente. Poderão não ser muitos, se distribuídos equitativamente pelos diferentes países, solução que muitos já recusam.

Mas as primeiras perguntas ainda persistem: por que é que vêm em tão grande número? Por que é que vêm AGORA? Por que é que se misturam, no rol de deserdados, os refugiados da guerra na Síria com os pobres do Mali ou da Gâmbia?

A muitos ocorre a ideia de que às condições estruturais de pobreza em África e às condições conjunturais de um conflito tão devastador, como o da Síria, se juntou o grande negócio de mafias de traficantes que, beneficiando do caos na Líbia, montaram empresas externamente lucrativas de transporte clandestino de imigrantes ilegais.

São numerosas as narrativas de que muita desta pobre gente acabou vendida em autênticos mercados de escravos, por alegadas dívidas aos traficantes!!!

Quais as respostas da Europa a este caos?

A Europa NÃO TEM resposta única. Porque não soube ou não pôde actuar a tempo e deu azo a que saltassem sobre essa oportunidade as extremas direitas nacionais anti-União Europeia.

E agora? Angela Merkel, contestada interna e externamente pela sua política de abertura, poderá estar em risco de perder o poder na Alemanha, e o País pode ser levado mesmo a eleições antecipadas…

A França de Macron não pode liderar sozinha, em nome da Europa, um processo que largamente ultrapassa um só país, de estabilização do fluxo migratório e de instalação dos já chegados por todo o continente.

A rixa de Macron com o Primeiro-Ministro italiano Guiseppe Comte, felizmente ultrapassada, é sinal de alerta de quanto os diferentes líderes mais liberais têm que usar pinças ou luvas (ou ambas) para lidarem com um problema que pode quebrar a já frágil unidade europeia.

 

Um mal maior

O Santo Padre pede um coração aberto aos europeus e a extrema-direita pede poder… Mais poder.

Assim, perante o ideal e a realidade, tem que navegar o centro político europeu, olhando para os desesperados que vão chegando do Mediterrâneo, mas também para a temperatura das opiniões públicas, manipuladas grandemente pelos extremos.

Se a Europa das camisas castanhas não é já para o mês que vem, CUIDADO! A História pode repetir-se…

Termino estas linhas, por imperativos da dimensão do texto para publicação, com a sensação de que tudo ficou por dizer. Mas uma coisa para mim é certa: não é apenas o debate entre europeus que vai dirimir a questão dos refugiados na Europa. Forças há, estou convencido, que apostaram usar esta carta decisiva para pôr de joelhos uma Europa unida, próspera e em paz. Uma Europa inclusiva, multicultural, respeitadora das diferenças. Uma Europa que dê mais poder aos cidadãos.

Mas a União Europeia sobreviverá a este teste. E nesse contexto reforçará as sociedades para que integrem os refugiados, em vez de os colocarem em centros de detenção.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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