Myanmar

Crisma entre bayingyis

No palco que momentos antes servira de altar a uma missa rezada por um padre descalço montava-se uma bateria e ligavam-se os cabos de duas guitarras eléctricas. Mas antes do espectáculo, D. Alphonse U Thang, sotaina bordada a vermelho, fez o discurso das boas-vindas, destinado também aos que professavam diferente doutrina, e apresentou os convidados que trouxera consigo de Mandalay. Eu, em representação do Portugal longínquo que lhes legara o culto, e Dragon, o enviado do País com planos de desenvolvimento agrícola na região. Foram muitos os aplausos, e quatro meninas de longas tranças trouxeram-nos presentes. A nós, e à freira que tinha ajudado a montar a festa, senhora de uma beleza perturbadora. Nunca vi religiosa tão bonita…

O espectáculo prolongou-se até depois da meia-noite. Sucederam-se versões birmanesas de êxitos ocidentais e alguns temas originais, tantos e tão variados que se tornava difícil diferenciá-los. Como seria de esperar, também sobrou para nós. Sugeriram-nos que interpretássemos um tema dos nossos países. Não pudemos recusar. Toquei-lhes um Maria Faia; o Dragon um Johnnie Be Good roqueiro e com direito a performance de palco e tudo. Foi o delírio. No final, vieram espetar-nos na camisa um alfinete com a nota de dez kyat, como é tradição entre os birmaneses.

Pernoitámos num espaço comum com três camas. Uma para o bispo, outra para Dragon e a terceira para mim. Se estava difícil convocar o sono naquela noite da canícula, impossível tarefa se tornou depois de o bispo ter desligado a ventoinha com medo que apanhássemos uma pneumonia (maleita que afecta muita gente por estas paragens) assim que a madrugada chegasse. Resultado: não preguei olho durante toda a noite.

A propósito do calor infernal que se fazia sentir, D. Alphonse contaria mais tarde a seguinte anedota: Consta que durante uma das visitas que Belzebu fez a um dos latíbulos do inferno, simplesmente por uma questão de rotina, deparou com um pecador encolhido a um canto, embrulhado num cobertor, transido de frio. «– Por que razão estás assim tão agasalhado dentro desta fornalha?», questionou o demo. «– É que eu tenho muito frio», respondeu o homem. «– Donde vens?», insistiu o mafarrico, com a curiosidade acrescida. «– Nasci e cresci em Mandalay, senhor das trevas», retorquiu o pecador.

Na manhã seguinte, mal despontara o sol, e já miúdos e miúdas ensaiavam as frases que deveriam proferir na cerimónia prevista. As meninas traziam véus brancos na cabeça, muito bem compostos, e flores no cabelo. Nos lindíssimos rostos a tanakha intercalava com outros cosméticos menos naturais e brilhavam os olhos claros bayingyis. Trajavam camisa branca e calça azul, os rapazitos, visivelmente nervosos. Uns preparavam-se para a primeira comunhão, outros para o crisma. A acompanhá-los, vários adultos. Pais, tios, avós. Ninguém na família ousaria estar ausente em tão importante momento. No decorrer da missa, celebrada em conjunto pelo bispo e o pároco, dois acólitos fizeram a colecta dos kyats que cada um, consoante as posses, dava, não se fazendo rogado. Distribuídas as hóstias, os pequenotes puseram-se em fila, prontos a receber a primeira comunhão. Atrás deles aguardavam os mais velhos, que seriam crismados, um a um. Apresentavam-se ao bispo com um pequeno papel com o seu nome nas mãos. Eram, sobretudo, crianças do sexo feminino. Rosas, Marias, Cecílias, Assumptas e Margaridas.

Finda a cerimónia, tiraram-se fotografias para mais tarde recordar, na companhia do bispo e dos familiares. Acompanhados por um ajudante, que segurava uma lâmpada para iluminar a cena, fotógrafo e operador de vídeo andavam numa roda-viva. Não tinham mãos a medir. E, enquanto se batiam chapas atrás de chapas, nas traseiras do centro paroquial era servida uma refeição de arroz e carne, cozinhada em gigantescas panelas, às crianças e aos adultos sentados em mesas redondas de madeira, rasas ao solo. À entrada do recinto controlava-se o fluxo de gente. Aviados uns, permitia-se a entrada a nova remessa. A eficiência era de tal ordem que, hora e meia após a conclusão dos ritos, o recinto estava de novo desocupado, o chão varrido e as mesas sem um único grão de arroz.

Enquanto isso, no terreiro, vendedores de chupa-chupas tradicionais circulavam pela turba, de bicicleta pela mão. Um deles fez uma demonstração da sua arte. E que arte! Para a bem definir teremos de chamar aos seus protagonistas “sopradores de chupa-chupas”. Como matéria-prima tínhamos, em duas tinas, o caramelo. Uma delas com caramelo tingido de vermelho, a outra, tingido de verde. Com a ajuda de uma espátula colocava-se o açúcar derretido em volta de um pauzinho de bambu e assim se ia construindo o boneco desejado. Em forma de pescador, rosa, pássaro, ser humano tosco, etc. Consoante a figura recreada mudava a técnica. Caso se tratasse de uma rosa tudo era uma questão de agilidade de dedos e do modo como se afixavam as pétalas. Se, pelo contrário, se tratava de uma ave recorria-se então ao sopro para dar forma ao corpo do animal. Já para a figura humana o artesão socorria-se de alguns moldes. No final atava um pequeno apito feito de cana de bambu em torno do chupa-chupa, que mais tarde ou mais cedo acabaria na boca de um miúdo guloso. Era um verdadeiro prazer vê-los trabalhar com aquele afinco. Pena que mestrias dessas estivessem em vias de extinção.

A assistir a tudo aquilo uma senhora indiana insistia para que visitássemos a sua casa – todos os católicos de Shwebo habitavam nas imediações da igreja. Não houve tempo para tal, mas da parte da tarde pude rever os bayingyis de Myangu, onde anteriormente estivera com o padre Anastasius. A aldeia confrontava-se com novos problemas.

«– As autoridades estão a pressionar-nos para transferirmos a igreja do local onde está, pois necessitam do terreno para erguer mais um templo budista. Penso que, desta vez, vão ter algumas dificuldades em levar-nos de vencida», garantia o bispo.

Joaquim Magalhães de Castro

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