Monsenhor Bernard PetitJean, MEP

MONSENHOR BERNARD PETITJEAN, MEP

O Renascimento Missionário no Japão

Ao ouvir estas duas frases, «Nós temos o mesmo coração que tu!» e «Onde está a imagem de Santa Maria?», o seu coração estremeceu, o seu zelo missionário abrasou-se e o seu amor pelo Japão não mais esmoreceu. O padre Bernard-Thadée Petitjean, das Missões Estrangeiras de Paris (MEP), experimentou aqui, na primeira pessoa, o ponto de chegada dos elos de transmissão de uma fé escondida, encriptada ao longo de séculos. No Japão, uma terra linda, uma aguarela natural, mas que se revelara agreste e fechada para a novidade do Evangelho. Mas a semente caiu à terra…

Antes de falarmos do fruto que este semeador de Deus lançou à terra nipónica é importante relembrarmos o alfobre de onde provém. A Société des Missions Étrangères (de Paris) nasceu no século XVII, no seio do clero secular francês. A intenção fundadora era a de tomar parte no apostolado missionário nas terras longínquas, mas também a intenção do papado de retomar a direcção das missões católicas, que então estava praticamente restringida aos padroados régios de Portugal e Espanha. Estes eram uma consequência religiosa dos impérios ultramarinos que os ibéricos criaram a partir dos séculos XV e XVI.

O entusiasmo missionário de Roma nasceu da presença na Cidade Eterna do jesuíta Alexandre de Rhodes, que ali estava a lutar pelo estabelecimento de dioceses em Tonquim (actual Hanói) e Cochinchina, de forma a promover nestas terras a formação de um clero indígena, que considerava como o único capaz de assegurar a manutenção e desenvolvimento de comunidades cristãs. De Roma abalou para França, em 1653, com os mesmos objectivos. Ali conheceria sucessos, junto do clero gaulês.

 

As Missões da Ásia

Em 1658 o Papa Alexandre VI (1599-1667, Papa entre 1655 e 1667) nomeou quatro vigários apostólicos, ou seja, bispos sem diocese dependendo directamente de Roma: monsenhor François de Laval Montmorency, para o Canadá, e outros três para a Ásia, monsenhor François Pallu, para Tonquim, monsenhor Pierre Lambert de la Motte, para a Cochinchina, e monsenhor Ignace Cotolendi, para o Sul da China e Tartária. Ou seja, territórios fora do âmbito directo dos padroados ibéricos. Partiram em 1660 e 1661. Nos últimos 360 anos várias levas de missionários das MEP têm debandado à Ásia: Tailândia, Vietname, China, Índia, Laos, Coreia, Camboja, Malásia, Singapura, Birmânia, Camboja e, claro, o Japão. Muitos conheceram o martírio, dos quais 23 são santos. No século XXI a semente continua a cair na Ásia…

Foi para o Japão que a Providência enviou o jovem missionário, o sacerdote Bernard-Thadée Petitjean, nascido a 14 de Junho de 1829 em Blanzy-sur-Bourbince (Saône-et-Loire). Estudou mais tarde nos Seminários de Autun, diocese a que pertencia. Em 21 de Maio de 1853 foi ordenado sacerdote. Permaneceu depois dois anos como professor no Seminário Menor de Autun, sendo também pároco de Verdun-sur-le-Doubs, até 1856. Pregador reconhecido na sua diocese, inflamado pelo labor de missão, foi nomeado missionário apostólico em 1856, continuando a percorrer paróquias a pregar. Em 27 de Dezembro de 1858 recebeu a nomeação de esmoler das religiosas de Saint-Enfant-Jésus em Chauffailles. Mas era a missão que o norteava…

Por isso, a 11 de Junho de 1859 entrava no Seminário das MEP, em Paris. Recebeu depois o seu destino, que marcaria a sua vida: o Japão. Para ali partiu em 13 de Março de 1860. Depois de um período de dois anos nas ilhas de Riu-kiu (Lieou-kieou) achamo-lo em Yokohama a partir de 1863, de onde partiria depois para o destino onde redescobriu os Cristãos Escondidos: Nagasaki. A terra a que consagraria a sua missão e zelo evangélico. Com ele foi o padre Louis-Théodore Furet, MEP (1816-1900).

Em Nagasaki ensinou Francês, ao mesmo tempo que ia aprendendo Japonês e colaborando na construção da igreja dedicada aos Vinte-e-Quatro Mártires (de Nagasaki), iniciada segundo os planos de Prudence Girard, MEP (1821-67) e de Furet. Foi inaugurada a igreja em 19 de Fevereiro de 1865. Seria nesta igreja, em Oura, que quase um mês depois, a 17 de Março, aqueles japoneses lhe sussurrariam o sentimento de pertença a uma fé comum. «Nós temos o mesmo coração que tu!», a vida daquele jovem missionário francês estava a partir de então ainda mais ligada ao Evangelho da missão. Logo foi à procura de mais cristãos, de outras comunidades. A 8 de Junho identificara já 25 grupos de cristãos, espalhados por aldeias. Destes, alguns tinham uma cruz e guardado orações, centrando-se na figura de um ancião. Sete dos que “baptizavam” tinham sido também encontrados e o padre Petitjean com eles contactava.

Entretanto, o Papa Pio IX (1792-1878, Papa de 1846 a 1878) fora informado destas descobertas maravilhosas. Nomeia então o padre Petitjean bispo in partibus de Myriophita, a 11 de Maio de 1866, com o cargo de vigário-apostólico do Japão. A 21 de Outubro desse ano, Petitjean é consagrado bispo em Hong Kong, então colónia britânica. Mas este ânimo seria refreado no terreno, não no espírito do jovem bispo, pelas já aqui referidas perseguições nacionalistas do Governo Meiji. Milhares de homens e mulheres foram aprisionados ou exilados, espalhados pelo Japão, muitos deles da jurisdicção do monsenhor Petitjean. A esperança e os progressos de renascimento abalaram-se, mas não morreram. Ao contrário de muitos cristãos, que morreram na miséria e fome, por causa da sua fé.

Em Abril e Junho de 1868 dois éditos fulminariam a fé em Jesus Cristo, proscrevendo-a, atacando-a, banindo-a. Até prémios e salários pela delacção de cristãos o Governo oferecia, além da promessa de severos castigos para os católicos. De Outubro de 1869 a Janeiro de 1870, quatro mil e 500 fiéis foram retirados de Urakami e das ilhas de Goto, embarcados em navios. Os homens foram isolados, as mulheres e as meninas vendidas como mercadoria. Monsenhor Petitjean tudo fazia para estancar esta desgraça, rogando piedade às autoridades japonesas e escrevendo missivas a Governos europeus, principalmente para o seu país natal. Teve pouco êxito, ou nenhum.

Em 1873 as coisas começaram a mudar, finalmente. O Papa, que tinha felicitado antes a coragem dos cristãos japoneses, em 1871, dois anos volvidos, a 29 de Maio, escrevia a D. Petitjean a associar-se à alegria do fim das perseguições e aos esforços do prelado. Este, a partir de então podia começar a trabalhar, a organizar o seu vicariato do Japão. Pediu um auxiliar, tendo sido nomeado Joseh-Marie Laucaigne, MEP (1838-1885), bispo in partibus de Apollonia, consagrado em 22 de Fevereiro de 1874. Enviou depois padres para algumas cidades, outros para o interior do território como professores ou mestres. De França, mandou vir religiosas: as Dames de Saint-Maur e as Irmãs do Saint-Enfant Jésus de Chauffailles. Em 1875 consegue a divisão do seu extenso vicariato, ficando apenas com o Sul. Erige uma igreja em Osaka e volta a Nagasaki, onde morreu em 7 de Outubro de 1884. O Japão era, então, mais cristão….

Vítor Teixeira 

 Universidade Católica Portuguesa

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