Memórias e Fortalezas no Leste de África – Parte 3

Chineses de Nampula e uma Laurentina bem fresca

Após um voo tranquilo de três horas aterramos em Nampula. Enquanto aguardo pela bagagem na passadeira rolante constato que não conseguirei, nessa mesma noite, transporte directo para a Ilha de Moçambique. Mas não faz mal, o aeroporto fica perto do centro da cidade e abundam táxis.

Parto num deles em busca da Casa de Hóspedes de que me tinha falado Luís Filipe Pereira e deparo com a baixa de Nampula quase às escuras. Apesar das minhas indicações, o motorista deixa-me no local errado. Considero o lapso, de certa forma, conveniente, pois do outro lado da rua avisto a entrada principal do Hotel Tropical, conhecido em tempos pelo nome Pensão Parque, como revelam as letras apagadas na pintura original da fachada. Gere agora o negócio uma família de chineses, embora sejam moçambicanos de gema os empregados da recepção e restante pessoal da casa. Como complemento à unidade hoteleira – na mais fiel tradição oriental – não falta aqui o respectivo restaurante e a respectiva discoteca com karaoke a condizer.

O que vale é que as paredes parecem capazes de isolar o som, penso para com os meus botões, antecipando a possibilidade de ter de ficar alojado essa noite no Hotel Tropical, se bem que a Casa de Hóspedes continue a ser uma prioridade.

 

PRESENÇA CHINESA

Para não ter de andar com a mochila às costas deixo-a na recepção do Tropical e pesquiso as redondezas da praça ali perto, pedindo direcções aos seguranças de boné e farda azul sentados em frente aos portões das residências privadas. Nada me sabem dizer a respeito da dita. Tão pouco ouviram falar dela os homens que conversam e fumam narguilé no jardim de sua casa, confortavelmente sentados em cadeiras reclináveis, e que parecem algo assustados quando os chamo da rua. Comunicam entre si em Árabe mas respondem às minhas questões num Português irrepreensível.

Cansado de procurar em vão, regresso ao Tropical disposto a instalar-me num dos quartos junto ao terraço. É pequeno mas tem uma ventoinha das grandes e uma janela sem vidros, o que me obriga a procurar grandes pedaços de cartão para tapar o buraco. Espero com isso evitar a entrada de mosquitos, pois em todo o Norte de Moçambique ameaça a malária. Permanentemente. Todos os cuidados são poucos.

«– Então tuga, estás a trabalhar?», questiona um jovem moçambicano, sentando-se à minha mesa sem qualquer tipo de cerimónia, dou eu as últimas garfadas na massa com legumes salteados equitativamente regada com molho de soja. Certamente intriga-o as linhas que escrevo no ecrã do meu portátil ao mesmo tempo que degluto o repasto. Quebrado o gelo inicial, Acácio – assim se chama o meu interlocutor – desata a conversar sobre os mais diversos assuntos utilizando expressões como “este gajo” e “estou lixado”. Mais portuguesas não podiam ser! Já o “ya”, tão comummente utilizado por aqui e introduzido em Portugal após o escaldante Verão de 1975, só pode ter origem na vizinha África do Sul. Dá-me a entender o Acácio que os proprietários do Hotel Tropical estão ligados ao negócio de madeiras raras, enviadas para a China nesses enormes contentores que enchem os cargueiros que cruzam o vasto Oceano. A contrapartida dos chineses pelos seus investimentos na construção de estradas e mais estradas, não se limita à venda dos inúmeros produtos que sempre têm, prontos a escoar; interessa-lhes também, e de sobremaneira, as matérias-primas que a floresta moçambicana, por enquanto, comporta. O interesse é tão óbvio que há quem não hesite em chamar-lhes neocolonialistas.

«– Qual cooperação qual carapuça! Os chineses anseiam, acima de tudo, as riquezas naturais do nosso país», exclama Acácio.

 

CERVEJA LAURENTINA

Em Colónia de Sacramento, a minha companhia nalgumas das horas mais solitárias chamava-se Patricia; aqui chama-se Laurentina. Pelo menos é o que leio no rótulo colado à bojuda garrafa de cerveja que tenho à minha frente. Uma Laurentina custa trinta e cinco meticais e surge em versão lager ou preta, como a nação moçambicana, afinal. Prossigo com a escrita e mando vir mais uma. Nas mesas ao lado, grupos de moçambicanos ouvem marrabenta e bebem. Laurentina, claro está. Um boer sul-africano, louro e alto como todos os boers, entra para pedir informações e comprar uma dúzia de (já adivinharam!) Laurentinas. É o chefe de família que avistara minutos antes resfalfado num jipe, também ele buscando alojamento para essa noite. Noto que está descalço. Parece ser uma das suas poucas cedências aos caprichos da mãe África, apesar ali ter nascido e ali ter crescido. Como se sabe, os boers sempre fizeram questão de não se misturarem com os autóctones.

Na sala contígua à esplanada do restaurante, um grupo de chineses canta karaoke e certamente bebe Laurentinas atrás de Laurentinas. As vozes desafinadas transportam-me de imediato até aos tascos das mais recônditas cidades dessa minha China tantas vezes percorrida, hoje praticamente irreconhecível. Restam as regiões rurais, algumas quase intactas. Uma hora depois, ainda sob os efeitos da massa com demasiado molho de soja e cebola crua, o que me provoca uma enorme sede, obrigando-me a pedir mais uma Laurentina (dessa feita, não sem uma certa dose de culpabilidade, pois estava a emborcar – traduzindo em termos monetários – o correspondente a vários dias de trabalho de qualquer daqueles empregados de mesa), sou abordado por um dos chineses. Encorajado pelo álcool, embora tropeço quanto baste, aproveita a incomum presença de um ocidental na esplanada para testar a amostra de Inglês que sabe, aproveitando, simultaneamente, para satisfazer a sua curiosidade. É então que me apercebo da presença de uma rapariga chinesa ao lado, de telemóvel encostado à orelha, no que aparenta ser uma conversa normal em Mandarim. Afinal, comunica em Inglês e, pelo tom de voz, parece estar a namorar, o que não deixa de ser um encorajador sinal de alguma integração por parte de um membro de uma comunidade reputada pelo seu enclausuramento.

Ao fim da noite saem da sala do karaoke vários chineses, todos eles bem aviados, e que num ápice se enfiam num jipe topo de gama.

 

JAZZ REINO DE DEUS

Deixo-me ficar até tarde na esplanada presenciando as tentativas de aproximação de várias raparigas que, àquela hora, envergam a farda de prostituta. Também os vendedores de carregamentos de unidades para telemóvel, todos eles de colete amarelo, tentam a sorte. Vinte meticais dão direito a vinte unidades. Após inúmeras tentativas, consigo ter ao telefone o primo da Maria de Lourdes Pereira, a proprietária da tal Casa de Hóspedes que nunca chegaria a encontrar. Chama-se Francisco Chapa e garante-me que passará pelo hotel para me recolher, «de manhã bem cedo, a partir das sete horas». O Francisco é o motorista de uma dessas chapas (pequenas carrinhas) que asseguram o transporte diário para a Ilha, daí a origem do seu singular apelido.

Essa noite, deitado frente a um televisor “reconcilio-me” com a Igreja Universal do Reino de Deus, graças ao seu canal TV Miramar, que transmite o Moçambique Jazz Festival directamente do Parque dos Continuadores, em Maputo. E não sou só eu que estou satisfeito com a iniciativa dos acólitos do extravagante e descarado “bispo” Emir Macedo. No rodapé do ecrã, acompanhadas com o custo da chamada para a Mcel – uma das duas operadores de telemóveis do País – sucedem-se as mensagens dos apreciadores deste género musical a agradecerem à TV Miramar por lhes proporcionar a emissão, pois, como diz um deles: «não tenho seiscentos paus para assistir ao espectáculo ao vivo». Outro telespectador é da opinião que «o jazz é a raiz de todas as músicas», louvando por isso essa tão «importante manifestação cultural».

Vou fazer noitada a ouvir o jazz destes meninos, alguns deles excelentes músicos. O amigo Matteo certamente estará entre a multidão, assim como a Mi Sook Park, «artista plástica por uma verdadeira necessidade de sobrevivência», residente em Moçambique há nove anos, que incidentalmente conheci em Maputo. Na conversa que tivemos durante um jantar confidenciou-me que achava as pessoas da rua «muito mais fortes do que nós». Nós, quer dizer, representantes de uma classe média de muitas cambiantes. Lembrava depois a economia paralela, visível em todos aqueles vendedores ambulantes que insistentemente nos abordavam tentando despachar a sua mercadoria. A propósito, Mi Sook lançara a pertinente questão: «– Como é que posso eu comer tranquilamente, se lá fora há tanta gente necessitada e a viver na miséria?».

Joaquim Magalhães de Castro

 

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