Medicinas Orientais

MEDICINAS ORIENTAIS

O foco no indivíduo

Numa época em que tanto se fala de preservação da saúde e cada vez mais se buscam modos de vida e de cura alternativos, ousemos uma pequena incursão pelos meandros dessa sabedoria ancestral.

A dita medicina oriental, ou medicina tradicional chinesa, teve a sua origem na China antiga há mais de dois mil anos. E centra-se, essencialmente, em dois vectores: a medicina das plantas e a acupuntura. A sua base sustém-se em princípios filosóficos chineses como as ideias taoistas do chi, do yin-yang e do wushin, as cinco fases. São estas as principais ferramentas do trabalho de todos aqueles que se dedicam profissionalmente. Também os cinco sabores – amargo, azedo, doce, picante e salgado – fazem parte do já mencionado wushin.

A medicina tradicional da China e da Coreia é basicamente a mesma, apenas com ligeiras diferenças. Esta última, centra-se mais na dita “medicina constituinte”. Perante ela todos os pacientes em potência são encarados como individualidades e não como um todo. A filosofia é: “um rosto por pessoa”. De acordo com este princípio, a pessoas com a mesma doença podem ser-lhes prescritos medicamentos muito diversos. A medicina constituinte tem sido aplicada e desenvolvida na Coreia de há um século a esta parte. No entanto, como atrás ficou dito, os princípios são os mesmos que os da medicina tradicional chinesa, seja pelo recurso às plantas medicinais, seja pela aplicação da acupuntura.

Quanto à abordagem do paciente por partes dos médicos destas duas culturas passa pela análise do seu temperamento e das suas características físicas. Os clínicos chineses e coreanos consideram muitos e variados aspectos antes de decidir a cujo “constituinte” pertence determinado indivíduo. Este tipo de medicina é, em termos gerais, dividido em quatro categorias: pessoas tai yang, pessoas tai yin, e ainda chao yang e chao yin. No fundo, a medicina constituinte baseia-se no princípio taoísta do yin-yang. Mas esta é uma definição muito básica, como se pode imaginar.

Ou seja, pela simples observação, um médico pode indicar se uma determinada pessoa usufrui de boa saúde ou não. Isto, se falamos de uma pessoa típica, a quem é fácil de traçar um diagnóstico à primeira vista. Quer dizer: percebe-se logo a qual tipo de constituinte pertence. No entanto, muitas das pessoas são atípicas, o que torna o diagnóstico mais difícil.

Os habitantes de Macau, à semelhança de todos os asiáticos, receiam o ressurgimento de epidemias como a pneumonia atípica ou a gripe das aves. As recomendações dos praticantes da medicina dita alternativa, nesse aspecto, não diferem da dos clínicos convencionais. O segredo está em manter uma boa higiene pessoal e pública e reforçar, através de uma vida activa e sã, o sistema imunitário. Se isso for cumprido por todos, dificilmente se repetirão os casos do passado.

Na medicina oriental existem duas grandes escolas holísticas. A indiana ayurveda e a medicina chinesa. Certamente que há diferenças e pontos de convergência. Sob o ponto de vista holístico são encaradas de forma similar no universo asiático, embora a sua estrutura, filosofia e ensinamento sejam diferentes. Mas o mais curioso é que, até hoje, não foram estabelecidas pontes de contacto entre estas duas escolas. Digamos que tanto uma como outra estão demasiado ocupadas na sua aproximação à medicina ocidental para tentarem acercarem-se uma da outra e aprenderem nesse processo, o que seria muito frutífero. Talvez no futuro a medicina ocidental possa servir como elo de ligação, a base para que todas as outras medicinas se aproximem umas das outras, uma realidade que talvez se explique pela crescente ocidentalização dos países asiáticos.

Nem sempre as relações foram pacíficas. A medicina ocidental nem sempre aceitou a “concorrência”, chegando mesmo a negar a eficácia e seriedade da medicina oriental. Não a aceitavam porque não a compreendiam. A filosofia, as ideias que estão por detrás da medicina oriental. Nos dias de hoje, um pouco por todo o mundo, são cada vez mais os clínicos ocidentais a admitirem o valor e importantíssimo papel da medicina oriental. Pode-se dizer que existe até uma cooperação mútua. São muitos os que acreditam que essa “ponte” será um dia uma realidade, pois encaram a medicina como uma pirâmide. Na sua base estão as diferentes escolas de medicina de todo o mundo. São muitas e variadas e todas caminham rumo ao topo da pirâmide. O que significa que no futuro haverá uma espécie de síntese de todas elas, aquilo a que poderemos chamar de Nova Medicina. Difícil dizer quando tal acontecerá, mas talvez estejamos mais próximos dessa realidade do que pensamos. Entretanto, na base há muitos e sinuosos caminhos para atingir o topo, o ponto ideal de confluência.

Na verdade, assiste-se a um esforço muito grande por parte das medicinas orientais em aproximarem-se da medicina ocidental. E a prova disso é o facto de estarem a adoptar métodos de investigação ocidentais. Deontologicamente falando só pode haver um objectivo comum: promover a “saúde para todos”, o mote da Organização Mundial da Saúde, como bem sabemos, e infelizmente, raramente posto em prática.

Joaquim Magalhães de Castro

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